Gary Cole as Milton on Office Space movieO ano era 2005, quase 2006, e eu estava no inferno da época em que não se sabe nada, não se tem experiência e os empregos são uma merda. Com pouca — ou nenhum perspectiva — eu comecei a enviar currículos para todas as empresas de TI eu conhecia e para sites hubs de empregos de TI. Durante uns bons três meses não tive nenhuma resposta, até dezembro, quando eu consegui a primeira entrevista da minha vida, e como programador — eu era jovem e ingênuo e achava que isso seria bom.Me encaminhei para a empresa, uma sala de uns 130 metros quadrados no meio do centro da cidade, rodeada de inferninhos e bares que fechavam as nove horas da manhã expulsando os travestis bêbados e aidéticos que ocupavam o recinto em busca de um programa. Era um lugar do inferno, literalmente, mas era um emprego e eu estava lá, de camiseta polo listrada, gel no cabelo e tênis surrado, sentado na sala de espera que me lembrava o SUS em dias quentes e com o pessoal da limpeza em greve (mas o cheiro não era da empresa, justiça seja feita, era do conglomerado de salas comerciais duvidosas que tinha do lado do prédio onde funcionava a empresa, que também era de salas duvidosas, mas, um pouco menos). Do lado de lá da sala estava a recepcionista, uma senhora já, que me lembrava muito a Stelle, agente do Joey de Friends (inclusive com o cigarro e as unhas postiças coloridas).Passou mais de 30 minutos até que me chamaram. A senhora que eu nunca soube o nome me chamou, ofegante e com uma voz rouca que denunciava os anos de abuso de álcool e cigarro, num tom ameaçador e berrando o meu nome errado, num semi-diálogo constrangedor que se seguiu assim:Senhor Paulo Henrique. *É Paulo Guilherme senhora. *É? *É. *Deveria ser Henrique, é muito melhor.Passei pela primeira provação, pensei. Fui encaminhando para uma sala com uma mesa dessas que a gente tem na área de casa, pro churrasco, com 4 cadeiras puídas (e provavelmente sujas) onde eu me acomodei e esperei mais alguns minutos, com um copo d’água infecto do meu lado. Findada a espera entrou um homem na sala, mal vestido, suado e ofegante. Sentou-se do meu lado, se apresentou — nunca esquecerei o nome dele: Maurício — e começou a ler o meu currículo em voz alta antes de termos uma conversa entrecortada e surreal.Muito bom, estuda na UFRGS é? Sim, eu estu …** *Muito bom. Nunca tivemos ninguém de lá aqui, sequer fazendo entrevista. **É, poizé, é que os horários dela são me… Sim eu sei. Mas me diga, o que te traz aqui? *Eu li sobre a vaga no jornal da cidade e resol … *Mandar um currículo né, tê vendo. Mas quanto tu quer ganhar? Isso é muito importante pra nós. *Bem, eu não sei … nunca trabalhei em nenhuma empresa, não sei quanto um estágio … *Que tal R$500? *Bom … *E R$600? *É que … *R$695 é a minha última oferta, agora. *Olha só eu não fava preparado pra isso e .. bem … *AGORA.Quando ele viu que eu me assustei com a o berro dele, tratou de me tranquilizar:Não te assusta guri, só fiz isso pra ti sentir o mercado de TI, as coisas nele são assim, rápidas e sob pressão intensa sempre. …** *Tu tem que estar preparado pra quando chegar a hora de decidir poder decidir rápido, sem pensar muito. **É … sim … verdade … mas eu queria saber algumas coisas sobre a empresa … Não tem nada o que saber, as coisas aqui são assim: tu programa, a gente conta as linhas que tu fez e te paga de acordo com essas linhas. *Sim, mas que tipo de programas vocês fazem … *O que vier vem bem, não somos de negar serviço … temos que nos manter alimentados. *É …A conversa parou nesse ponto, ele estendeu um contrato de estágio e me passou três vias que eu precisava assinar e levar pra ele na manhã seguinte para continuar com o processo. Achei meio estranho, mas, saí de lá achando que todas as entrevistas de emprego eram assim e que essa poderia ser uma empresa dessas que funcionam caoticamente mas que dão certo e que todo mundo é como uma família.Primeiro engano.No outro dia eu estava lá as 9h, como me mandaram, com os papéis debaixo do braço e pronto pra iniciar no meu novo ofício. Do meu lado na calçada, além do porteiro tentando abrir o prédio, tinha uma prostituta sem dentes que aparentava ter 92 anos, foi um choque, confesso. Enquanto eu estava esperando chegou um dos funcionários da empresa, me olhou e perguntou se eu era o novo estagiário. Respondi que sim, já subindo as escadas. Ele me olhou com pesar no olhar (que hoje eu reconheço como sendo um “FUJA”) e disse que era bom eu tentar procurar um emprego, mas, que ele não indicava aquela empresa para quem estava começando.Foi o primeiro alerta que eu tive.Cheguei na empresa e o RH da empresa funcionava do lado do balcão onde uma cafeteira fumegava ininterruptamente desde o século XVIII. A senhora das unhas coloridas era também a responsável pelo RH. Chegou do meu lado, pegou o contrato em 3 vias e me disse “tu tens que fazer o exame médico, pode ser ali na clínica, depois do almoço tu vai lá tá”. Acenei positivamente com a cabeça e segui entregando folhas de papel, já pensando o que eu tinha feito ao aceitar o emprego. Ela olhou bovinamente para todas as folhas e disse “que bom que tá tudo em ordem, tu pode ir ali pra tua mesa e esperar o Maurício, ele vai te dizer o que fazer”. Acenei novamente com a cabeça e me sentei na cadeira, que tinha uma roda quebrada e presa com durepóxi. Na mesa algumas etiquetas de patrimônio do Banco do Brasil e o computador, que tinha a CPU e o monitor abertos, o que não era, definitivamente, um bom sinal.Esperei pelo Maurício por 2h inteiras, sem internet e sem nada pra ler, exceto o jornal do comércio do dia anterior, já com as palavras cruzadas feitas, e um manual de conduta da empresa, provavelmente copiado de alguma empresa séria. Terminei de ler o segundo quase ao mesmo tempo em que o meu novo chefe entrava na sala, ofegante e suado, novamente.Sentado do meu lado já tinham algumas pessoas, todas com a expressão de terror que só a psicose consegue proporcionar, e na minha frente o Maurício, soltando fogo pelas ventas e falando em como um sistema em PHP de controle de estoque de bar pode dar problema, ao mesmo tempo em que me arrumava algo pra fazer.Sabe MySQL? Não.** *Sabe C? **Não. Sabe PHP? *Um pouco. *Ótimo, a gente tem um sistema legado aqui que não funciona nem com reza barba. Já passou pela mão de uns seis programadores e ninguém deu jeito nele, vai lá e dá uma olhada.Ele me passou alguns dados de acesso e eu fui ver o código. Não entendi nada do que tinha lá e voltei para falar com ele, péssimo ato.Como assim não entendeu nada? Não sabe programar em PHP? Eu disse que sim, sei, mas é um pouco. Só o básico sabe?** *Sei, não sabe fazer nada, leu um livro e fez um hello world na faculdade e saiu colocando currículo por aí **Currículo de estagiário … *Não interessa cara, tem que se virar. Vai procurar no Google e só volta aqui quando tiver algo concreto pra mim.Concordei com cabeça, me senti na minha mesa, olhei na minha volta e vi um telefone fixo que me lembrava o do Batman dos anos 60, uma senhora de unhas coloridas, um cara suado e ofegante e um prédio que poderia ser chamado de Puteiro INC. E tudo me fez ter vontade de ir no banheiro e chorar até o final do dia. Mas me segurei e ao invés disso li muita coisa no Google, inclusive o que aconteceria caso eu resolvesse nunca mais voltar para aquele lugar (aliás, o que é que acontece quando se larga um estágio? NADA) e comecei a pensar num plano de fuga daquela prisão do inferno. Nada me veio na cabeça até a hora do almoço. Eu me demorei um pouco e quando eu saí da sala só tinha o porteiro e o segurança por lá. Tive o clique que precisava. Voltei correndo para a sala e peguei a minha mochila, entrei na sala do café/RH e peguei os meus contratos e corri (literalmente) pelo centro todo, com muito medo de encontrar o Maurício pelo caminho, só pensando em como seria bom chegar em casa e ver me cachorro feliz por eu estar ali. Foi uma corrida tensa e nervosa onde eu não sei o que mais me fez transpirar, se o exercício ou o medo, mas conseguir pegar meu ônibus com tranquilidade e, quando estava no meio do caminho, tive aquela sensação de paz que só se sente quando se tira um peso de 1T das costas.Cheguei em casa e contei tudo pra minha mãe, ela apenas riu e disse que eu deveria ter mais cuidado da próxima vez. Eu dei de ombros e joguei os contratos na churrasqueira, abri um cerveja e vi eles queimarem. Feliz e satisfeito com o fato de ter abandonado o meu primeiro emprego.