A maior parte das empresas gosta de fazer essa pergunta do final das entrevistas de emprego (afinal, você deve saber se vender, vender seu peixe etc). Explicarei porque esse tipo de pergunta é capciosa e coloca os papéis de trabalho em uma perspectiva errada — colocando a carga toda sob as costas do empregado, e, levando em conta que a imensa maioria das pessoas, ao menos no Brasil, não tem condições de ser um “grande empreendedor” e “revolucionar” algum serviço qualquer com uma grande ideia trazida da Europa depois de um intercâmbio de 8 meses, estamos falando de algo que todos passarão alguma vez na vida.Explicando
pensando em uma empresa grande o suficiente para ter um setor de RH dedicado ao processo seletivo, você, pessoa física, é irrelevante para a cadeia produtiva. Por mais que a empresa — principalmente na figura dos setores de relacionamento, de marketing e de capacitação etc — diga o oposto, até um certo cargo hierárquico, somos irrelevantes para a empresa. Não trazemos lucro, não lidamos com clientes importantes e, via de regra, entramos as 8h e saímos as 18h, completamente invisíveis.Então, dada a circunstância, a pergunta deveria ser feita pelo pretenso empregado, e ela deveria ser a seguinte:“Porque eu devo trabalhar nessa empresa?”Explico mais detalhadamente: você entra numa empresa, digamos, aos 25 anos, no auge da sua juventude e da sua capacidade física. E você tem todo um longo caminho de uns 35 anos trabalhando por aquela empresa. Plano de carreira, hierarquia líquida (ou seja lá qual é o nome que se dá hoje), carreira em Y, organograma nã0-linear etc. Não interessam os nomes, você vai ser espremido ao máximo e deverá dar tudo de si por anos a fio para que, no final da sua vida, ser entregue de volta a sociedade para ter mais uns 10 ou 15 anos de aposentadoria para, finalmente,“curtir a vida”.Eu tenho um amigo que explica isso com uma analogia bem simples:“Você nasce um pedaço de carne de primeira mas, durante a vida toda, passa ouvindo que você deve entrar no moedor, afinal, é isso que todo mundo faz e você não quer ser um esquisito que não entra no moedor. Você então entra no moedor e fica lá por quase toda a sua vida produtiva, perde a sua juventude para que, depois de anos, finalmente sair do moedor com a promessa de ser transformado em um belo hambúrguer pelo mesmo sistema que lhe moeu. E você deve ficar feliz com isso.”Ou seja, batendo novamente no ponto inicial: você é irrelevante para a empresa.Exemplificando, digamos que você morra num acidente de trânsito a caminho do trabalho. Você vai ser velado, a empresa provavelmente mandará uma coroa de flores para a sua família e, caso você seja um bom funcionário ou tenha um pouco mais de importância dentro da empresa, talvez alguém apareça no seu funeral representando a empresa, fingindo criar um vínculo afetivo que não existe. Para empresa, você morrer, se demitir ou abandonar o emprego é irrelevante, em poucos dias (ou meses) outra pessoa estará lá fazendo exatamente o mesmo que você fazia, entrando no moedor com a esperança de virar um hambúrguer.Ao passo que, para você, a empresa é quase tudo. O seu emprego é boa parte da sua vida. Fazendo algumas contas de padaria, é fácil perceber como passamos boa parte da nossa vida nesse vai-e-vem empresa-cama. Digamos que você trabalhe os 35 anos na mesma empresa (convenhamos, ninguém faz isso hoje em dia, mas, ninguém entra num emprego pensando em sair dali 3 meses). Durante esses 35 anos você terá, via de regra, 35 meses de férias, que nos dá 2 anos e 11 meses de férias . 35 anos de trabalho — 2 anos e 11 meses nos dão 32 anos e 1 mês de trabalho de fato (sem levar em conta finais de semana, horas-extra, reuniões, viagens, etc). 32 anos + 1 mês da sua vida vendidos para uma empresa, para um lucro que não é seu. É isso que você está vendendo na entrevista. É esse o tamanho do empenho que você tem quando entra naquela salinha branco gelo co carpete cinza para falar sobre o que você supostamente sabe fazer. Mais ou menos 32 anos da sua vida serão empenhados ali (imaginando que a pessoa está lá querendo ter uma carreira na empresa e não passar uns 2 meses ali e sair pra outro canto, ainda que, mesmo fazendo isso, você vai vender esse tempo de vida para uma ou mais empresas).Esse é o bem mais precioso que você entrega quando vende um pouco menos da metade da sua vida (levando em conta a expectativa de vida brasileira de 73,62 anos).Então, quando a empresa pergunta porque ela deve lhe contratar, pense um pouco e pondere quem está doando mais, quem está em desvantagem nessa relação e quem tem mais a perder ao final do processo.