Ele não se lembra mais como tudo começou, apenas se lembra que todo o sábado era a mesma coisa: ele saía de casa as nove horas e voltava quase a meia-noite. No rádio o mesmo CD dos Smiths tocando. A cobrança vinha de todos os lados. “Você deve aproveitar mais a vida”, dizem eles.E todo o sábado, na volta, Morrissey cantava sozinho dentro do carro.Mas naquele sábado algo estava diferente. O conhaque não tinha mais o mesmo gosto. A música do lugar não tocava mais no mesmo tom. As mulheres não caminhavam mais com a mesma desenvoltura. Tudo parecia em um estado letárgico que lhe lembrava o final de um filme noirdos anos 50.Era inverno e o vento cortava a estrada que ele sempre pega para ir para a casa; como companhia apenas a chuva, fina, batendo insistentemente no para-brisas do carro e a música que nunca cessava, fosse no rádio, fosse na sua cabeça. Era o dia perfeito para dar cabo àquilo que ele vinha planejando desde o início do ano. O trinta-e-oito guardado no porta-luvas com apenas uma bala.A depressão e a sua miséria emocional estavam cada vez maiores e se alimentavam dele próprio. Enquanto ele existir ela também vai existir, pensou.Tomou, solitariamente como de costume, as suas usuais três doses de conhaque na mesa do fundo do bar, sem chamar atenção de ninguém, enquanto se lembrava daquelas noites em que a vida era mais simples e ele tinha motivos para viver. Observava atentamente e com certo prazer todos os movimentos da vida noturna da cidade. Echo And The Bunnymen cantavam The Killing Moon enquanto os homens se debruçavam nas mesmas rodeadas de mulheres, tentando a sorte de um amor, como diz a música, tranquilo. Quando foi mesmo que ele havia perdido esse ímpeto?Pagou em dinheiro a conta do bar e caminhou lentamente até o carro, enquanto tentava em vão acender um cigarro amassado. O frio e o vento da madrugada faziam aquele isqueiro falhar continuamente. Caminho longo entre a porta do bar e a do carro. Longo e úmido. Maldito sul e sua chuva constante.A estrada molhada e escura se desenrolava na sua frente, monótona como sempre.A chuva apertava e a estrada ficava menos monótona, mais perigosa, mais escorregadia. Passava dos 100 por hora naquele carro velho e desmanchado. Ele continuava, cada vez mais rápido, acelerando. Por incrível que pareça, tudo parecia fazer mais sentido agora. Seria essa a paz?Chegou no pátio grande de casa, estacionou debaixo da árvore, desligou o motor do carro e escutou a chuva caindo no carro, molhando o para-brisa.Trovões ao fundo. Tirou o trinta-e-oito do porta-luvas, engatilhou e escutou os primeiro acordes de How Soon Is Now dos Smiths.O terceiro cigarro já estava perto do fim. Era o último do maço.>I am the son

 And the heir

 Of a shyness that is criminally vulgar

 I am the son and heir

 Of nothing in particular Como foi mesmo que ele chegou até aqui? Sem amor, sem amigos, sem vontade?>I am human and i need to be loved

 Just like everybody else does Todo mundo precisa de amor, uma hora na vida, nem que seja para servir como apoio para o que vem depois. A solidão é o mal século, pensou.Ele não sabia como ela iria reagir, não depois de tanto tempo longe um do outro, depois de tantas mágoas e tantas brigas. Não depois de tudo o que ele disse para ela. Ela deveria ser feliz com outro, ou ao menos era o que ele esperava naquela hora. Que pensamento egoísta e repleto e autopiedade. No fundo ele queria ela de novo, mas, a verdade é que fazia mais sentido pensar apenas como algo que ele nutre simpatia e respeito.E seguia o Morissey.>There’s a club, if you’d like to go

 You could meet somebody who really loves you

 So you go, and you stand on your own

 And you leave on your own

 And you go home, and you cry

 And you want to die Que rotina. Chorar escondido todas as noites, rezar para nunca mais acordar. Talvez tenha chegado a hora de de tomar as rédeas da situação. Era agora a hora de mostrar que, afinal, ele se arrependia da vida que tinha tido, dos momentos que tinha estragado e das vezes que ele tinha feito os outros chorar. Era a hora de se despedir com dignidade do mundo. Olhou para o trinta-e-oito engatilhado, colocou na boca, chorou num misto de tristeza, desespero, desamparo e alívio enquanto ouvia a música tocando.>See, i’ve already waited too long

 And all my hope is gone Na noite, apenas um estouro seco e abafado pelas janelas do carro.>I am human and i need to be loved

 Just like everybody else does