Favela da Rocinha e o bairro de São Conrado, Rio de Janeiro. Foto: Alicia Nijdam/ CC BY 2.0Li a pouco tempo o texto do Anderson França sobre o Boulos, e numa conversa com um amigo sobre o texto, surgiu a ideia de que o França se descolou do debate de esquerda x direita para poder centrar-se no debate de periferia/classe social x centro. Pois, nesse contexto, ele consegue se identificar muito mais com um evangélico eleitor do Crivella e morador de alguma periferia do RJ do que necessariamente com a esquerda zona sul carioca, seguidora do Gregório Duvivier e eleitora do Freixo.Faz sentido.Eu me sinto assim.Quando entrei na UFRGS, em 2003, eu tinha uma vivência restrita a periferia de Porto Alegre, em Gravataí, e zero contato com esse mundo de classe média (seja ela de direita ou esquerda) que se bate em cada momento nos corredores sem luz da universidade. Tive sempre enormes dificuldades de seguir com a minha carreira acadêmica por conta de déficits educacionais que os anos de escola pública me propiciaram. A maior parte dos professores na universidade, diga-se a verdade, não tem preparo para lidar com isso e, honestamente, não estão nem um pouco interessados em mudar esta realidade.Ou seja, sempre fui e me senti como um descolado da realidade da maioria das pessoas (para aqueles que conhecem a universidade apenas depois das cotas, era muito pior antes) e jamais consegui ter a menor conexão com boa parte das pessoas que andavam por aqueles corredores. Culpa da falta de pertencimento com os locais; da incapacidade minha de me conectar com pessoas que viajam para o exterior quatro vezes por ano como se isso fosse normal; ou mesmo que gastam o dinheiro da bolsa com festas e comidas nos restaurantes da universidade. Não existe culpa nesse sentido, ninguém tem culpa de nada, apenas uma desconexão da realidade da periferia com a realidade da classe média. Simples.Para mim, continua sendo muito mais uma questão de perceber que, muitas vezes, as pautas da classe média dizem muito pouco para quem mora na periferia. E assim as são porque não existe diálogo entre essas duas partes do país, essas duas classes sociais são antagônicas e quase nunca conseguem se conectar no macro. Micro conexões ocorrem o tempo todo, mas, são insuficientes para mudar o cenário global de ambas as realidades. Pertencemos a mundos diferentes, diriam os mais radicais.Finalmente, acho muito mais fácil me conectar com um velho amigo evangélico, conservador e religioso — e suas reivindicações típicas de quem mora na periferia — e entender o que são problemas básicos de uma cidade; do que me conectar com as pautas e reivindicações de uma pessoa que, ainda que tenha as mesmas ideias que eu (progressistas e de esquerda, eleitoras de partidos alinhados a esquerda e defensores de que foi golpe sim), passou a vida inteira bem alimentada em casa, com tudo ao seu redor e tendo amplo acesso a educação, oportunidades e cultura e tem uma formação de vida completamente distinta da minha.