Muito se fala, atualmente, sobre a necessidade insana de não dar spoiller de determinado filme ou série sob pena de “estragar a experiência”. Tem alguns mais radicais que sequer assistem trailers para não ter nenhum tipo de dica visual sobre o que vamos ter nos filmes. Tem aqueles que sequer leem, depois de já ter visto o filme, as críticas porque querem manter uma experiência supostamente pura da peça de entretenimento.Isso tem uma nome: infantilização.Sobre os trailers, eles são exatamente para mostrar cenas tentas do filme. Sempre foi assim. O problema é que temos uma infantilização da audiência (e isso não é exatamente ruim, é apenas uma faceta de como nos relacionamos com o filme/entretenimento atualmente) que acabou travando uma evolução do cinema “grande”.Isso ocorreu com livros — contos principalmente — no início do século XX quando tivemos duas correntes de contar as histórias. Antigamente tínhamos o conto clássico, do Poe, onde o suspense ia crescendo até o final do conto, quando este finalmente chegava ao clímax narrativo com uma revelação ao leitor. É assim quase sempre em se tratando de Poe (Barril do Amontilado, por exemplo, tem seu clímax apenas nas últimas linhas do conto). Por outro lado, nessa época nasceu o que se convenciona chamar de “conto moderno” com o Hemingway de expoente mais conhecido, onde a jornada (como a coisa se desenrola) é muito importante do que o final. Normalmente esse tipo de narrativa tem mais de uma história ocorrendo e nunca chega nu clímax de fato (exemplo clássico disso é “Cat in the rain” e “Hills like white elephants”). Um exemplo cinematográfico que eu gosto de pensar que seria melhor usando essa segunda linha narrativa é o “Sinais”, onde só no final o “monstro” é mostrado de fato, naquela luta estranha, e, eu gosto de imaginar que seria muito melhor não ter luta mostrada e não mostrar o monstro, terminando apenas com a ideia de que houve o embate (sons, principalmente, fazem isso muito bem) e finalizando com a volta da fé do personagem do Mel Gibson. Problema disso é que veríamos muita gente reclamando do filme sem “sem ação” ou “não se resolver” ou ainda “ser preguiçoso” porque deixou tudo subentendido.Enfim, essa infantilização tem relação com o MCU e a constante entrega de alivio cômico e saltos na história (esses filmes tem revelações o tempo todo) e hoje, cada vez mais, na TV com séries como Game of Thrones onde o grande mote da série é saber o que vai surpreender a audiência (mortes, principalmente) e não necessariamente a trama daquele mundo (coisa que não se teve em Senhor dos Anéis, por exemplo) que seria o que mais importa e que age como motivador/catalisados dos acontecimentos mais surpreendentes da série.Acho que a tendência, passados esses filmes de heróis, seja o cinema retomar um pouco mais do foco na narrativa/jornada e um pouco menos nas grandes revelações dos enredos (se você pegar Star Wars clássico você tem uma revelação desse tipo no segundo filme o resto fala mais da jornada do Luke). Eu gosto de pensar que podemos abandonar o cinema-explosão como principal ramo da arte e partir pra algo mais elaborado (mantendo o cinema-explosão, ele é bom, adoro Velozes e Furiosos por exemplo) onde o “ spoiller” não seja tão necessário para uma boa experiência.Outro ponto que devemos perceber ao nosso redor são as comidas. Cada vez mais vemos sobremesas mega-açucaradas e refeições com diversos sabores brigando entre si — hambúrgueres com generosas e absurdas quantidades de cheddar, por exemplo — que nos remetem diretamente ao paladar infantil, super excitado e incapaz de se deliciar com nuances. Crianças precisam disso porque faz parte da evolução para a vida adulta (experimentar tudo ao máximo) e vai ser útil na hora se formar o seu gosto definido com base nessas experiências mais extremas.O problema jamais será esse. Ou o spoiller. O problema é a infantilização de gostos e de consumo que nos impede de avançar com a arte. Que nos prende em fórmulas prontas que precisam excitar o tempo todo o consumidor, que precisam de uma dose massiva de inesperado (sustos, revelações, gostos e aromas) a todo o instante.Somos, com isso, uma geração cada vez mais infantil nos seus gostos. Cada vez mais incapaz de encarar a vida adulta — com desemprego, desilusões, spoillers e comidas sem sal por causa da pressão arterial. O Oreo em todas as refeições e o Game Of Thrones que entrega sempre uma cena de violência é apenas a consequência de uma geração incapaz de crescer.