layout: post title: Nietzsche e a violência da falta de oportunidades. tags: [] —>“O criminoso e o que lhe é aparentado. — O tipo do criminoso é o tipo do homem forte sob condições desfavoráveis, um homem forte transformado em um homem doente. A ele falta a selva, uma certa natureza e forma de existência mais livres e mais perigosas, na qual todas as armas e objetos de defesa presentes no instinto do homem forte são justas. Suas virtudes caem sob o encanto da sociedade; os impulsos mais vitais trazidos consigo definham em meio ao crescimento conjunto com os afetos oprimidos, com a suspeita, com o medo, com a desonra.

Mas este é quase mesmo a receita para a degradação fisiológica. Aquele que precisa empreender às escondidas o que pode fazer melhor e que faria com o maior prazer, este se torna anêmico depois de uma longa tensão, de um longo cuidado, de uma longa astúcia; e como ele sempre colhe apenas perigo, perseguição, fatidicidade de seus instintos, transmuta-se também o seu sentimento frente a estes instintos — ele os sente fatalisticamente. A sociedade, nossa sociedade domesticada, mediana, adulterada é o lugar no qual um homem talhado naturalmente para o crescimento, que vem das montanhas ou das aventuras no mar, se degrada necessariamente e se transforma em um criminoso. Ou quase necessariamente: pois há casos, nos quais um tal homem se mostra mais forte do que a sociedade: o córsico Napoleão é o caso mais célebre. Para o problema que se apresenta aqui, o testemunho de Dostoiévski é relevante — de Dostoiévski, do único psicólogo, dito de passagem, do qual tive algo a aprender: ele pertence aos mais belos casos de sorte de minha vida, mais mesmo do que a descoberta de Stendhal. Este homem profundo, que teve mais do que o direito de desprezar os superficiais alemães, vivenciou de maneira muito diversa da que ele próprio esperava as casas de detenção siberianas, em meio às quais viveu durante um longo tempo, assim como os criminosos mais terríveis, para os quais não havia nenhuma possibilidade de retorno à sociedade: mais ou menos como se tivessem sido talhados a partir da melhor, mais firme e valorosa madeira, que cresce do solo russo em geral. Universalizemos para nós o caso do criminoso: pensemos naturezas, em relação às quais por algum motivo falta o consentimento público, que sabem, que não são consideradas enquanto benéficas, enquanto úteis — aquele sentimento de chandala, de que não se vale como um igual, mas como um excluído, indigno, impuro. Todas estas naturezas têm a cor do subterrâneo por sobre pensamentos e ações; junto a eles tudo se torna mais esvaecido do que junto àqueles, cujo sol repousa sobre sua existência. Mas quase todas as formas de existência, que hoje recebem de nós uma distinção, viveram outrora sob este ar meio sepulcral: o caráter científico, o artista, o gênio, o espírito livre, o ator, o comerciante, o grande descobridor. Enquanto o padre vigiu enquanto o tipo mais elevado, toda e qualquer espécie valorosa de homem perdeu seu valor. É chegado o tempo — eu o prometo -, no qual ele valerá como o mais baixo, como o nosso chandala, como a espécie de homem mais indecente. Notai como ainda agora, sob o regime mais suave dos costumes que já reinou sobre a Terra, no mínimo sobre a Europa, todo degredo, toda longa, demasiadamente longa permanência em uma posição inferior, toda forma de existência inabitual, impassível de ser transpassada com o olhar traz para próximo daquele tipo que o criminoso encerra. Todo inovador do espírito carrega por um tempo o sinal lívido e fatalista do chandala sobre a testa: não porque seriam considerados assim, mas porque eles mesmos sentem o terrível abismo que os separa de todos os seus antecessores e dos que são venerados. Quase todo gênio conhece enquanto um de seus desenvolvimentos a “existência catilinária”, um sentimento de ódio, de vingança e revolta contra tudo o que é, e que não vai mais se tornar… Catilina — a forma preexistente a todo César.” Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, Incursões de um Extemporâneo: 45.