A democracia é superestimada, já dizia o personagem Frank Underwood, mas ainda é o melhor que conseguimos ter pro momento. A democracia burguesa é um grande teatro feito pra que possamos escolher o melhor amo/patrão (e acredite, não são todos iguais e faz muita diferença quem é eleito, principalmente pra quem é pobre de mora na periferia).Eu sou 100% favorável ao fact-checking no jornalismo e defenderei pra sempre esse métodos, mas, precisamos ter mais ressalvas na hora de fazer essa checagem.No debate o Cabo Daciolo afirmou que foi provado que as urnas brasileiras foram fraudadas. Isso é errado, completamente errado, nunca ficou comprovado nada do tipo. O que se tem comprovado é que as urnas eletrônicas — de todos os países — são passíveis, de como qualquer sistema computacional, de comprometimento. Vide a DEFCON desse ano [1].Aqui no Brasil existe um pesquisador, o Professor Diego F Aranha da UNB, que dedica boa parte do seu tempo a provar e comprometer os sistemas de votação do TSE. E eles são passíveis de comprometimento como mostra o relatório de 2013 dele [2].

Disso, concluo quatro pontos:

-Precisamos esclarecer que as urnas não são vulneráveis como o Bolsonaro, Daciolo ou o Olavo de Carvalho dão a entender (elas não são feitas na Venezuela e a Smartmatic não é a fornecedora das urnas brasileiras.

-O voto eletrônico é melhor que o voto de papel e muito menos suscetível a falhas do que o voto de papel, vide o caso das urnas que sumiram em 1989.

-O problema da urna brasileira não é ser eletrônica e sim não ser aditável. O processo de estudo e comprometimento das urnas é falho e murado, as equipes não podem testar as runas sob vários aspectos e tem restrições severas de uso nos testes do TSE, mesmo assim, contudo, as urnas foram comprometidas externamente. O voto em papel, sem contato com o eleitor, depositado em urna lacrada PODERIA ser uma etapa a mais de verificação numa eventual recontagem (atualmente, no modelo 100% eletrônico, essa recontagem não pode ser feita) e esse processo com uma segunda etapa der verificação poderia trazer mais lisura ao processo eleitoral brasileiro.

-A questão da urna eletrônica é técnica. Não existe nenhuma suspeição de nenhum pleito até o momento e nenhuma fraude foi aventada. O problema é não poder, caso ocorra dúvida, comprovar que a primeira contagem é a correta ou não. Etapas como cadastro biométrico já ajudam a dissipar o coronelismo brasileiro, por exemplo. O processo democrático brasileiro não é ameaçado pela urna eletrônica e sim por malucos fundamentalistas/extremistas que acreditam em pensamento mágico e promessas vagas.

Contudo, a urna, hoje, é o menor dos problemas da democracia brasileira.E, dito isso, ainda assim, me incomoda a Lupa colocar declarações do TSE e do criador da urna como verdades absolutas e apagar os inúmeros testes de intrusão feitos nessa e em outras urnas pelo mundo dando a entender que a urna é 100% infalível. Não é, nenhum sistema computacional é. E o único modo de ter um sistema computacional 100% infalível é com ele desligado da tomada.Mais uma, depois do Nerdcast 626 com a equipe do TSE a equipe do professor Diego Aranha escreveu uma carta aberta rebatendo os pontos levantados pela equipe do TSE, algo que a equipe jornalística da Lupa deveria ler.Carta aberta de resposta à participação do TSE no Nerdcast 626Dois ótimos PDF’s pra dar uma lida sobre o assunto.

1: DEFCON 25 Voting Machine Hacking Village: Report on Cyber Vulnerabilities in U.S. Election Equipment, Databases, and Infrastructure

2: Vulnerabilidades no software da urna eletrônica brasileira