Eu me lembro do final dos anos 90, duas décadas atrás, e do estouro que os caras tiveram com esse disco. Me lembro que onde eu morava era comum o cara ir lavar a Marajó Marrom ouvindo “ Diário De Um Detento” no talo na fita K7 pirateada da locadora.Era comum ter as festas na garagem onde rolava todas aquelas bandas do final dos anos 90 e depois pesava a batida com o “ Capitulo 4, Versículo 3”. Foi a primeira vez que eu vi os caras cantando o que eu ouvia minha mãe falando e via acontecendo com os amigos mais pobres, da favela que tinha na frente da minha rua. Era estranho, ainda que o foco deles fosse SP, como as coisas eram “normais” mesmo que agressivas.Me lembro de ter muita gente meio abismada com o fato dos caras falarem de armas, drogas, cadeia e doenças como se fosse segunda-feira pra eles. Normal. O que não era normal era tratar dessas coisas, que aconteciam do lado da casa de todo mundo que morava onde eu morava, como se fossem coisas de outro mundo.Eu me lembro, acima de tudo, de como me dividia ouvir qualquer música desse álbum porque eu era o cara mais vem de vida dentro dos fodidos. Eu não tinha problemas de família, meu pai era funcionário público e minha mãe cuidava da casa, porém, na casa das minhas primas já tinha meu tio alcoólatra e viciado, “ bandido”, ex-PM e que batia nas filhas e na mulher. Do outro lado, meus amigos chegando aos 14 e vendendo droga debaixo da ponte — de tarde era vídeo-game na locadora e futebol na rua, de noite, maconha e crack na ponte, que era pra conseguir uma grana pra festa de sexta. Quase todos esses morreram com menos de 25 anos, todos de “ morte matada”. Então, eu ficava dividido nisso. Eu conhecia essa realidade, via ela na minha rua, na minha família, na minha frente; mas eu não fazia parte dela de fato (não sou negro e não tinha problemas sérios em casa).Esse sentimento se acentuou mais quando entrei na UFRGS e larguei as amizades de lá por pura falta de tempo. As coisas mudaram, eu estudei e me formei (a pau e corda) e sou o único deles que não tem filhos (os que deram mais certo conseguiram um emprego na GM (montando Celta) e estão com filhos e casados, morando nos fundos da casa mãe ou de aluguel num sobrado perto da parada 62). Eu fui o cara que perdeu essa ligação.Hoje me aproximei muito mais da periferia onde eu morava atualmente e aceitei essa “quebra” que eu sempre tive, consigo transitar no Moinhos de Vento tomando uma garrafa de champanhe que o pai da anfitriã deu pra ela e que custa dois salários da minha mãe e meu juntos, do mesmo modo que consigo andar na minha antiga rua e cumprimentar as pessoas, principalmente os pais dos meus amigos mais antigos. Muito dessa capacidade aconteceu depois de ter escutado todos os álbuns dos Racionais, devidamente pirateados da locadora pra uma fita k7, mas que foi influenciada diretamente pelo que eu entendi das músicas e das letras que aqueles caras de SP, tão longe, cantavam e como eles falavam de periferia de um modo universal.A transformação da música, daquela música, na minha vida se deu de forma quase imperceptível, afinal, pertencimento é algo que nem sempre salta aos olhos na primeira análise. Porém, acima de tudo, quando eu estava escutando aquela batida seca, aquela letra crua e perdido em pensamentos porque, finalmente, alguém falava algo que eu conseguia me relacionar e entender, eu finalmente fazia parte de algo. Entender isso, mesmo depois de velho, me fez entender o significado de pertencimento, de comunidade e entender que, por mais longe que eu esteja, eu ainda sou aquele cara de fone de ouvido e tifa k7 pirata em Gravataí cantando junto com o Mano Brown que “Eu tô na rua de bombeta e moletom”.