Bernardo Soares/JC Imagem/Estadão Conteúdo — 10.08.2011Quando eu tinha mais ou menos 12 anos e morava na periferia do estado (na cidade de Gravataí) eu, mesmo morando numa zona bastante violenta e pobre, jamais tinha tido real contato com a pobreza nua e crua que faz as pessoas passarem fome dentro de casa. Nesse ano (1995) eu conheci um novo amigo na escola. Ele era legal, gente boa demais. O apelido dele era “fino” porque ele tinha pernas finas e compridas demais pra proporção corporal dele. Todo mundo chamava ele de “fino” e ele não se importava, afinal, ele era mesmo fino e isso provavelmente o acompanhou durante toda a sua curta vida.Ele fez aniversário naquele ano e me convidou. Eu fui na festa dele. Eu era o único da escola naquela festa, por algum motivo que no momento eu não entendia. A casa dele era de madeira, longe da minha, a ponto do meu pai me levar de carro até lá e marcar uma hora pra me buscar. A casa de madeira tinha frestas em todos os cantos. Pedaços de pedra serviam de degrau na entrada da casa, suspensa por conta das enchentes constantes naquele local mais próximo do rio Gravataí (muito mais próximo do que deveria). O quarto dele era uma peça do tamanho do meu banheiro com uma cama de palha no canto coberta por lençóis velhos, surrados, quase virando pó. Não era algo comum pra mim, mas mesmo assim eu não me importava, eu tinha ido pra brincar e comer docinhos e não pra dormir ou analisar a cama do Fino.Corremos pra rua com uma bola de borracha remendada. Bem velha, daquela que dá uns “chupões” nas pernas quando pega. Ótima pra se jogar qualquer um dos muitos jogos violentos que um guri de 12 anos consegue pensar. Chegaram mais pessoas, algumas gurias. Eu tinha sido o único a levar um presente: um caminhão de plástico barato comprado no mercado que tinha duas quadras acima da minha casa (eu era bem pobre também). As outras crianças eram da volta, amigos de infância e irmãos do Fino.Quatro da tarde a mãe do Fino chamou a gente pra almoçar. Minha barriga se animou com a possibilidade de bolo e negrinho. sentei na mesa e uma bela panela de pressão foi posta na minha frente. O almoço do aniversário do Fino era feijão e arroz apenas. Fiquei confuso mas me lembrei do que a minha mãe me disse antes de me deixar na casa dele e não reclamei de nada. Sentei e comecei a comer.>- Desculpa. Disse o Fino já com a voz baixa.

  • Porque?, perguntei.
  • Pelo feijão. Disse ele, falando um pouco mais baixo do que de costume.
  • Não tem problema, eu gosto de feijão. Respondi e segui comendo. Voltamos pro grande terreno do lado da casa do Fino. Um bom gramado pra bater uma bola. Quase duas horas depois de conflitos que emulavam um grande GreNal e o pai dele chega numa carroça. Pede ajuda pro Fino e pro irmão mais velho dele, um cara de poucas palavras e que, com 17 anos, parecia um ancião naquela época. Descarregaram, os três, vários sacos de adubo que seriam usados para adubar a grama que até pouco tempo atrás era o Beira-Rio em dia de jogo. O pai do fino vendia grama para sobreviver.Voltamos ao jogo e ali ficamos até a hora em que meu pai voltou pra me pegar. Sujo e feliz me despedi do Fino. Entrei no carro e a minha mãe perguntou como foi. “Foi bom ora”, respondi como se aquela pergunta não fizesse sentido.Meses depois o Fino desapareceu. Ele morava numa área irregular, ocupada ilegalmente pela família dele e mais algumas outras famílias que tinham vindo do interior do Estado. Foram tiradas dali pela PM. Nunca mais tomei notícia do Fino ou soube como foi a desocupação da casa dele. Ele nunca mais apareceu.Anos depois, com 15 anos, minha mãe me explicou que o Fino era desnutrido. Passava fome seguidamente. O arroz com feijão deles tinha sido doação da igreja do lado da minha escola. Ele queria um aniversário, algo que nunca tinha tido, e a mãe dele, quando ganhou a comida, convidou todo mundo pra casa deles.Só eu fui.Até hoje essa história me marca e serve como âncora do que eu sou e por quem eu tenho simpatia e empatia. O Fino e a família dele, a casa de madeira e a carroça sendo descarregada. Na época eu não pensei em nada, apenas fui criança, algo que ele nunca tinha sido direito e que, provavelmente, cresceu sem ter sido.Hoje, por causa disso, eu sempre meço cada palavra minha. Cada vez que eu entro numa discussão, principalmente em tempos tão belicosos, eu tento me lembrar do Fino e do aniversário dele. Na situação paupérrima deles, eles ainda eram felizes e ainda tinham capacidade de dividir. Tento fazer o mesmo e me manter com empatia por todo aqueles, mesmo aqueles com opiniões opostas às minhas, de modo a não julgá-los e me manter fiel ao que eu defendo.E o Fino teve que achar outro amigo pra comer feijão no aniversário. Espero que ele tenha encontrado.