Call of Duty. Sem créditos visíveis no Google Imagens.

Sempre que surge alguma tragédia que envolva jovens com comportamento extremo e violento logo surge na mídia a ideia de que jogos influenciam esse comportamento violento, ignorando o que temos além do simples ato de jogar.Fomentado pela discussão que ainda se inicia no Post Livre #165 do blog Manual do Usuário, recupero aqui o conteúdo do que eu postei lá na discussão com o editor do blog, Rodrigo Ghedin.


Qualquer obra vai ter efeito nas pessoas que a consomem. Acho que no caso desses jovens (e de muitos outros) o maior efeito é da violência social e da falta de amparo (tanto do Estado como das famílias) para tratar problemas de saúde mental.Os atiradores de Columbine tinham como molde de ação o filme Matrix. O assassino do John Lennon teoricamente achou uma mensagem dentro do livro “Apanhador no Campo de Centeio” que justificava o que ele estava fazendo. Os livros do Chuck Palahniuk (do Clube da Luta) são extremamente gráficos nas suas descrições de torturas e doenças (“Tripas” tem uma série de historias envolvendo parafilias que me causaram um certo desconforto ao ler).Anos atrás, quando eu estava na graduação, uma colega escreveu uma crônica onde narrava um estupro de um bebê do ponto de vista de criminoso. Teve até processo rolando contra ela porque ela estaria fazendo apologia à pedofilia ao falar/tratar sobre o tema sem ter, ao final, algum tipo de crítica ao ato. A culpa jamais foi dela, claro, afinal ela apenas escreveu um personagem que fez o ato e tratou esse ato sob o ponto de vista dele (em tom de confissão) sem julgar ou colocar juízo de valor moral nisso. Se você escreve um livro com um protagonista serial killer isso te faz um apologista ao assassinato? Não acredito nisso.Podemos discutir a questão gráfica dos jogos novos, os modernos e ultrarrealistas gráficos dessa geração (e das próximas) trarão a violência de maneira mais próxima da realidade para as casas desses jovens, claro. Mas acho que essa ainda não é a questão, ou ao menos não é uma questão central, afinal essas pessoas tem contato diário com violência real todos os dias. Tiroteio pode chocar quem mora no centro, na periferia é meio-dia de quarta-feira. A volt tem um mapa mostrando que 46% das escolas estaduais do estado do RJ tiveram um tiroteio num raio de 300m no último ano.

A violência está arraigada na vida dessas pessoas desde sempre, desde o nascimento. Pobreza é violência constante e diária.A questão, contudo, que não se discute aqui é a saúde mental das pessoas dentro do nosso sistema social. O quanto que isso não tem relação com a maneira como se tratam essas pessoas no colégio? Eu dei uma cadeirada em um guri uma vez depois dele ter enchido a minha mochila de lixo pela quarta vez (e de eu ter falado pros professores e pra orientadora duas vezes, pelo menos). Acho que se tivesse pegado em cheio nele tinha quebrado alguma coisa.Todo o dia tem N casos de bullying que as escolas simplesmente ignoram porque a direção, além de não ter tempo e pessoal pra dar conta de tudo, ainda espera que o professor resolva em sala de aula com jogo de cintura. E o professor dentro da sala de aula tem N atribuições, desde dar aula até se preocupar com notas de avaliações do governo, associações de pais que querem banir X ou Y além de esperar que eles eduquem as suas crianças.E no final ainda tem o Estado sem aparato sócio-educacional para lidar com doenças mentais na sala de aula, lidar com alunos problemáticos (doentes mentais de fato, com risco pra eles e pra terceiros) e com UBS’s e UPA’s incapazes de prestar atendimento psicológico digno.E no fim de tudo ainda tem a masculinidade tóxica e o fato de que essas pessoas, como os atiradores de hoje, são pessoas que que sentiram acolhidas em fóruns como Uol Jogos, 55Chan e outros (channers e incels tem aos montes pelo mundo desde sempre, quem nunca se atentou pra isso era a turma do Sarau de Poesia Urbana que acredita piamente que o mundo se resume ao centro da cidade e a Europa).Discutir armas ou jogos é muito bonito e dá mais audiência pra todo mundo. Qualquer progressista adora falar sobre desarmamento e falar que é errado ter mais armas na sociedade ou mesmo falar sobre a dessensibilização dos jogos violentos nas pessoas, mas nenhum quer tocar o dedo na ferida doença mental que algumas pessoas sofrem e do quanto pode ser sufocante estudar numa escola e viver numa sociedade que lhe pede mais do que qualquer pessoa deveria entregar. Afinal, foi prometida uma vida bem melhor a eles pelo simples fato de serem homens e brancos (e nem são de classe média, nessa clivagem é ainda pior) e que o fracasso era deles e só deles; lidar com isso é problema deles, também.Essa saída de atirar e matar é uma saída típica de “macho” que resolve tudo na violência ao qual nunca foi dada a opção de ser mais humano.No final, contudo, o erro é tratar essa questão como uma questão meramente de armas e política de armas, quando eu vejo como uma questão de saúde mental antes de todos os outros pontos.


A questão é que colocar ou não o consumidor como protagonista não parece ter nenhum tipo de efeito distinto em relação a ver um filme ou ler um livro (ambas formas mais passivas de consumo).Claro que é importante discutir isso, problema central dessa discussão, contudo, é que já foram feitos muitos estudos sobre e nenhum encontrou nenhuma correlação ou causalidade entre os jogos e atitudes violentas.Existem alguns GT’s no Brasil que estudam construção de identidade em meios digitais e nenhum correlaciona jogos e violência/agressões. Pode-se inferir que os jogos servem como ponto de conexão entre esses jovens (nos fóruns, principalmente) mas o jogo em si é apenas uma projeção possível para esses jovens. É como escutar uma música depressiva, ela não te deixa/faz depressivo mas pode dar aquela sensação de “lupa” na questão.É aquela parte da teoria comunicativa: não existe apreciação de símbolo que não seja interpretativa (se não fosse assim, todo mundo que joga seria assassino).O que a gente pode pesquisar é se esses grupos de jovens são mais ou menos suscetíveis à violência quando expostos a esses estímulos. Os estudos que se tem hoje em dia não abarcam esse tipo de comportamento. Essa visão seria mais no sentido determinístico (tal qual o alcoolismo que tem a sua parcela de determinação genética mas que não é possível detectar de antemão) onde determinados jovens sãos mais predispostos a agir de forma violenta quando em contato com esse tipo de material.


Sobre a parte da comunidade tóxica eu concordo, mas novamente eu vejo o jogo como sendo o ponto de encontro e catarse desses jovens. Talvez se tirarmos os jogos eles encontrem outros meios de se reunir e praticar ator violentos que vão, necessariamente os conduzir ao pertencimento do grupo (tudo é sobre pertencimento nessa idade). Acredito que o jogo de estupro tenha enfrentado tamanha resistência pelo conteúdo sexual mais do que pelo conteúdo violento. Sexo ainda é mais tabu do que violência. Violência sexual acaba agregando ambos e, no contexto atual, a maior parte das pessoas vê como justificada uma luta (como em MK) ou guerra (CoD e outros) do que um simples ato de violência gratuita (estupro sem nenhum tipo de roteiro ou justificativa [porque o que mais tem é fantasia de estupro na internet]).E como eu disse acima, eu enxergo a relação da violência e da toxicidade da comunidade como coisas que se relacionam marginalmente. O jogo é o instrumento que permite a reunião e não o motor da reunião. Todos os problemas atrelados aos jogos que você cita me soam como problemas mentais (adequação social, fobia social, agorafobia, depressão, ansiedade, TAG, TOC etc) que são catalizados pelas comunidades ao redor dos jogos. Tibia era um jogo completamente infantil e, mesmo assim, tinha uma das comunidades mais tóxicas da internet brasileira.Minha defesa é essa: os jogos são o ponto de reunião e não ponto de causa. Não acredito que eles ajudem a banalizar mais a violência do que a própria realidade ou mesmo a pressão do nosso sistema sócio-econômico e da cultura de loser/winner que importamos dos EUA.Uma leitura recomendada é essa thread do r/Brasil sobre o tema sob o ponto de vista de dois professores que lidam com jovens.São dois professores com canais no Youtube que tinham lançado um vídeo sobre violência entre jovens antes do atentado de Suzano. É interessante a leitura deles do lado dos educadores. É longo e tem dois vídeos, mesmo assim recomendo.