layout: post title: A policia que mais mata é também a que mais morre. tags:

  • Caco Barcellos
  • Rota —A PM brasileira, criação dos anos 60 em alguns estados, não fez nada senão aumentar o número de mortes e, de forma geral, aumentar a violência no país. É sensível o aumento nos indices de violência (em SP) após dois episódios: ditadura (1964) e criação da própria PM como vemos hoje.Também morre quem atira, já dizia o Falcão quando cantou sobre a violência com o Rappa nos anos 90.>A primeira constatação curiosa é a de que a violência da Policia Militar não tem nenhuma relação com o aumento ou decréscimo dos índices de criminalidade. Nessas duas décadas da existência da PM o número de crimes de civis sempre cresceu em uma proporção bem menor em relação aos homicídios praticados por policiais militares durante o patrulhamento. Antes da criação da PM os índices de assassinatos envolvendo a polícia eram relativamente baixos. Entre 1960 e 1965, por exemplo, foram mortas três pessoas em tiroteios com a polícia.

    No ano de criação da PM, a população de São Paulo também não era das mais violentas. Em 1970, os funcionários do Instituto Médico Legal registraram 62 vitimas de latrocínio, que é o crime de morte praticado durante um assalto. O índice dos assassinatos de autoria do cidadão comum, o homicídio, era inferior a dois por dia. Já no primeiro ano de ação os policiais militares mataram 28 pessoas. Os números da década de 70 mostram que a violência policial foi muito maior em relação aos dos criminosos e cidadãos comuns. Os latrocínios pularam de 62 (em 1970) para 276 (em 1980). Os homicídios, de 666 (em 70) para 1.424 (em 80). Já os assassinatos dos policiais passaram de 28 (em 70) para 280 (em 80). A diferença se acentua ainda mais ao longo da década de 80. O cidadão comum se tornou mais violento. De 80 a 90 houve um crescimento de 300 por cento nos números de homicídios, que passaram a refletir um alto índice de desarmonia social. Os criminosos habituais, porém, se tornaram menos violentos. Os números de latrocínios se mantiveram 140 estáveis em quase toda a década e chegaram a cair nos últimos três anos. Em 1990, por exemplo, enquanto o cidadão comum matava quinze pessoas por dia, o assaltante matava uma pessoa a cada dois dias. Já os policiais militares entraram a década matando quase duas pessoas por dia. Alcançaram um recorde em 1991: quase quatro por dia. A estatística sobre as mortes por causa não natural, termômetro da violência, mostra que a cidade se tornou 10 por cento mais perigosa no período de 81 a 91 . O índice é considerado razoável se comparado com o de outras grandes metrópoles do mundo. A cidade de São Paulo se situa na mesma faixa de violência de países como Grécia, Noruega, Tailândia. E muito abaixo da Venezuela, Chile, Suíça e Estados Unidos. [Rota 66, Caco Barcellos. Escrito entre 1970 e 1992. Grifos meus.]