É só falar em socialismo que logo surge do nada uma grande quantidade de pessoas de camiseta polo e gel no cabelo gritando: “MAS E O CÁLCULO ECONÔMICO?”Pronto, pra eles por um passe de mágica você tá “refutado” — e não me venha falar de socialismo!A gente adora ler e refletir sobre essas coisas, mas é um porre quando a criança aparece com essa historinha para cortar o debate, para impedir qualquer reflexão fora do ambiente fechado e autorreferente deles. Pra eles essa é uma pergunta retórica, na verdade só uma zombaria.No mundo real, fora do “refutorama” online em que vive essa gurizada, quando se tenta conversar com eles pra ver até onde vai a reflexão e a base deles sobre sse tema, em geral, não se avança muito além de versões-super-simplificadas-e-simplistas/quase-que-só-memes sobre o papo do Don Lavoie que resgatou a ladainha ideológica antissocialismo de Mises e de Hayek nos anos 80. Na maior parte do século XX a tagarelice deles não era muito considerada, já que tanto os economistas neoclássicos (de direita) na linha dominante da Economia quanto a maioria dos socialistas considerava esse um papo superado, com a força econômica das versões de socialismo existentes no Leste Europeu, URSS e etc.Com as crises, “reformas” e a queda do bloco socialista na década de 80/90, as ideias desses autores austríacos ganharam um novo fôlego, nem tanto pela sua força ou coerência com a realidade, mas por parecerem ter sido vingadas em retrospecto — afinal, o fim da União Soviética não era o “Fim da História”? Não iríamos agora seguir felizes e prósperos através do capitalismo de livre-mercado até o fim dos tempos?Privatizações de serviços públicos e estatais, “austeridade”, “ajustes” (cortes) de orçamento público, “liberdade econômica” (para os ricos), cortes de impostos para os ricos, cortes de leis e regulações sobre as empresas, o máximo de poder para os ricos — nos acostumamos a ver essas coisas e muito mais sendo vendidas como “modernização”, como “responsabilidade fiscal”, como “reformas necessárias”, como único caminho possível pelos seguidores de Hayek e Mises: Como dizia a Thatcher (e como seguiram tantos como Clinton, Tony Blair, Obama, FHC, Bush, Temer ou Paulo Guedes), “não tem outro jeito”. Afinal de contas, “o socialismo falhou”, não é? Mises e Hayek já não tinham provado que ele só poderia falhar? Eles já não tinham mostrado que o mercado, deixado por si mesmo, sem o Estado intervindo, iria gerar a melhor alocação possível de recursos, o modelo “mais eficiente” para a humanidade?No mundo real, na maioria dos países, as décadas que se seguiram ao fim da União Soviética foram marcadas pelo crescimento desenfreado da desigualdade e da precariedade na vida dos trabalhadores — sejam em salários, em direitos, em organização e poder de barganha ou em acesso a serviços públicos. Pegue países centrais do Capitalismo como EUA ou Inglaterra, por exemplo: em ambos os países, apesar do crescimento da produtividade, desde os anos 80 os salários reais estão praticamente estagnados — mas os serviços públicos disponíveis para ambas as populações foram reduzidos demais, afinal todo mundo deveria ter a “liberdade de escolher” (e a “liberdade” de não conseguir pagar por uma ambulância e morrer sem resgate). Para quem tem dúvida sobre isso, tem uma coletânea com muitos links para textos sobre as consequências dessa época ao redor do mundo:Neoliberalismo — Passado, Presente, FuturoAparentemente, deixar todos os aspectos da vida para serem resolvidos pelo “mercado” não tem sido uma estratégia de tanto sucesso para a maior parte da humanidade quanto aqueles autores faziam parecer (apesar de ter rendido rios de dinheiro e poder para uma minoria de acionistas preparados para se apoderar de recursos públicos, ex-estatais e contratos governamentais). Na verdade, não faltaram críticas durante o período a essa forma de ver o mundo e suas consequências, como mostram os artigos neste trecho da coletânea acima:Sobre Mercados, Liberalismo Econômico e Neoliberalismo [Leituras Temáticas #2]Sendo assim, se aparentemente Mises e Hayek não estavam tão certos assim sobre a perfeição que eles prometiam para uma ordem humana baseada em mercados “livres”, será que eles não podem ter estado errados em outros temas também? Será que as críticas deles ao socialismo não tinham algo de incoerência? Será que ainda permanecem sólidas atualmente? Será que não tem nada que poderíamos refletir sobre os efeitos e possibilidades criadas pela universalização do acesso à internet e dos sistemas de bancos de dados na administração do meio empresarial para o potencial da alocação dos recursos segundo as necessidades humanas por outros mecanismos que não o “livre-mercado”? Será que não poderíamos criar outros mecanismos de alocação mais eficientes que o “livre-mercado” e que não sofressem com os mesmos problemas e contradições que ele?Os seguidores de Mises e de Hayek vão seguir respondendo que não, não e NÃO, MIL VEZES NÃO. Vão afirmar absurdos como “seria necessário conhecer as avaliações internas, subjetivas e relativas de cada indivíduo para todos os produtos existentes (ou mesmo inventáveis)”, como se a identificação e análise de perfis individualizados de demanda de bilhões de pessoas fosse algo para a magia, telepatia ou adivinhação — e não a base do modelo de negócios JÁ EXISTENTE de gigantes como a Amazon, o Google e o Facebook; como se o mercado fosse capaz de levar em consideração produtos ainda não inventados; como se fôssemos máquinas de cálculo hiper-racional para comparação e julgamento de produtos e serviços; como se não fôssemos o tempo todo passíveis de manipulação de desejos; como se essa não fosse a base da publicidade e do marketing que nos bombardeiam o tempo todo nos meios de comunicação, mas eles vão fazer parecer que não seria possível agregar a demanda das compras de produtos finais num nível suficiente para re-alimentar as metas de produção das indústrias, como se isso não tivesse nada a ver com os modelos JÁ EXISTENTES de logística just-in-time e com os modelos de negócios de gigantes do varejo que transformaram a forma com que as pessoas fazem as suas compras, em hipermercados ou online; eles sempre vão fazer parecer que seria impossível termos sistemas centralizados de processamento de informações alimentados por sistemas descentralizados de captação de dados; como se não tivéssemos a internet em cada celular e as compras de cartões de débito e de crédito em qualquer esquina; como se isso não estivesse alimentando sistemas monumentais com os dados de bilhões de pessoas, transações econômicas, pesquisas, interesses e deslocamentos, para disponibilizar serviços de bancos, pesquisas na internet, recomendações, alocação de corridas e de caronas de carro, apartamentos etc — todos processados centralmente em servidores de capacidade astronômica (boa parte concentrados nas empresas do Vale do Silício, na Califórnia) e enviados para o uso descentralizado por bilhões de pessoas por todo o globo.Enquanto isso, vai ter seguidores de Mises e Hayek ainda falando sobre como seria impossível “concentrar todo o conhecimento” necessário, sobre como o “conhecimento tácito”, por definição muito localizado e específico, impediria que mesmo sistemas computadorizados de alocação de recursos pudessem fazer isso com eficiência. Parece ou não parece anacronismo? Parece ou não parece que estamos, em 2019, tentando responder a gente cujas ideias e questionamentos estacionaram em 1969, se não em 1949?Será que quando as pessoas se agarram com tanto amor e desespero às suas ideias, nem o seu próprio dia a dia, a sua própria vivência é suficiente para fornecer elementos que possam levantar dúvidas contra as certezas que se tem, quando elas contrariam de maneira tão escancarada a realidade?Quando falamos em planejamento democrático socialista, em 2019, não estamos falando de um burocrata barbudo e bêbado, imponente com o seu título de “alto comissário do povo para roupas de baixo”, decidindo a cor e o formato único de todas as calcinhas e cuecas disponíveis para serem usadas e mandando cartas e mensagens por telégrafo para cada fábrica para comunicar a meta de produção dessas calcinhas e cuecas para os próximos 5 anos para cada uma. Estamos falando é de um sistema dinâmico, automatizado, que utilize os dados de demanda das compras (ou pedidos) dos cidadãos por bens e serviços para alimentar sistemas que calculem a alocação mais eficiente desses recursos, mais apropriada ecologicamente, gerando o menor tempo possível de trabalho humano, para sanar as necessidades e desejos humanos, segundo parâmetros gerais definidos democraticamente. Não estamos falando de planos mirabolantes se arrastando por anos, imutáveis no papel e incapazes de adaptação, e sim de metas flexíveis, que poderiam ser atualizadas todos os dias, talvez até mesmo várias vezes ao dia, segundo as variações na realidade por mudanças na demanda ou por novas possibilidades de produção — pense na operação diária do controle aéreo nos aeroportos, na operação diária dos sistemas de informação de uma grande empresa global.Pense menos na Gosplan soviética, e mais em Uber, Google, Amazon, Walmart, Nasa, Visa, MasterCard. Como defendem Leigh Phillips e Michal Rozworski no livro “People’s Republic of Walmart”, aqui traduzido livremente como “República Popular do Walmart”, as maiores multinacionais globais já são gigantes do planejamento econômico centralizado, verdadeiras economias planejadas, muitas vezes maiores do que as economias da maioria dos países — só que planejadas em nome da multiplicação do lucro, do crescimento infinito irracional (e descoordenado em termos humanos e naturais) e do poder dos acionistas. Muito da infra-estrutura tecnológica de que precisamos para um sistema de planejamento democrático socialista automatizado já existe nessas empresas, mas hoje ele está muito menos integrado do que poderia ser, e sem nenhum tipo de controle democrático, sem objetivos democráticos. Como fazer “cálculo econômico” para atender à demanda das pessoas? Uai, vai lá e pergunta para as grandes multinacionais, pq elas já vêm fazendo isso a muito tempo, e se dando muito bem nisso.Claro, se defendemos a democracia nos ambientes de trabalho, então não seria apenas o caso de, no socialismo, continuar com as mesmas práticas e modos de gestão alienante desses gigantes multinacionais, precisaríamos de transformações nos processos e instituições para possibilitar uma administração e uma operação radicalmente democrática, mas poderíamos manter a base tecnológica de integração dos sistemas.Dois autores, Paul Cockshott e Allin Cottrell, vêm realizando um trabalho fundamental nas últimas décadas para:analisar as teses antissocialistas de Mises e de Hayek e o seu valor diante dos avanços em Ciências como Comunicação e Informática nas várias décadas depois dos trabalhos dos autores austríacos; demonstrar a possibilidade real de execução de algoritmos para planejar, de maneira democrática, toda a produção de produtos e serviços (tanto os itens finais quanto os bens intermediários) necessária para atender a demanda revelada pelas compras (ou pedidos) de todos os cidadãos. Basicamente, estamos falando aqui do núcleo de integração ausente nos sistemas já existentes de operação das grandes multinacionais, conforme vimos acima.Os principais artigos em que eles respondem às ideias de Hayek e de Mises e apresentam, de maneira resumida, suas próprias propostas (e que são **ESSENCIAIS** para se compreender como o debate sobre planejamento socialista é muito mais avançado do que os seguidores dos autores austríacos querem acreditar) são estes:Sobre as ideias de Mises e a história geral do “Debate sobre o cálculo Econômico” Sobre as ideias de HayekÉ muito comum ver seguidores de Mises e de Hayek fugindo da reflexão verdadeira com o trabalho destes dois autores de algumas maneiras:alguns mais apressados apenas zombam de qualquer ideia de cálculo baseado no custo em “valor-trabalho” dos bens e serviços; outros insistem em dizer que os autores não responderam como “calcular os bens intermediários” (mesmo que os passos para isso no seu modelo estejam explicados nos artigos); *dizem que já conhecem o trabalho de Cockshott com Cottrell (como, aliás, vivem fingindo conhecer “”profundamente”” a obra de muitos autores, principalmente Marx), para logo em seguida ignorar aspectos básicos que eles discutem, ou apenas reafirmar alguma posição de Hayek cujos problemas ambos já demonstraram; *insistir que “colocar computadores não resolve o problema” (como se a proposta deles fosse simplesmente essa).A maior parte do trabalho desses autores é anterior à expansão da internet e das bases de dados monstruosas hoje exploradas pelas técnicas de big data pelas grandes empresas. Há autores mais recentes, como Evgeny Morozov, que vem trabalhando para analisar o potencial das técnicas de big data para o cenário do planejamento socialista.Resumindo, como já disse a gloriosa Comunismo de Luxo Totalmente Automatizado:>“Se estivermos falando de uma sociedade em que os meios de produção (fábricas, fazendas, empresas, equipamento pesado, núcleos de processamento de dados, etc) forem usados em conjunto pela sociedade, em nome da satisfação das necessidades de todos (e não dos lucros de uma minoria e do crescimento infinito a qualquer custo, como na sociedade atual) então poderemos aplicar ao máximo todas as nossas tecnologias para produzir tudo de que precisamos com o mínimo de trabalho humano possível, liberando o máximo de tempo possível para todos usarmos como acharmos melhor, cultivando e perseguindo nossos interesses, produzindo e consumindo artes, avançando com pesquisas em ciências, participando de projetos coletivos e de sua implantação, praticando esportes, viajando, passando mais tempo com as pessoas que amamos, etc. Sem as amarras da necessidade do lucro, do consumismo, da expansão infinita, poderemos usar nossos recursos produtivos de maneira realmente racional, humana, democrática e sustentável, e não precisaremos abandonar ninguém à condição de “inútil” do desemprego ou da pobreza; não precisaremos manter uma sociedade de controle e repressão; poderemos expandir a liberdade para todos, e poderemos finalmente lidar com a questão do meio-ambiente e das mudanças climáticas como necessário para impedir algum tipo de cataclisma, impondo limites e transformações nos processos de produção, decididos democraticamente, de acordo com o conhecimento científico vigente — limites e transformações que o Capitalismo não pode aceitar, por que precisariam ser aplicados em alguns dos seus elementos mais centrais (auto-expansão infinita, consumismo, obsolescência planejada, etc), e que seriam necessários para lidar com isso à sério. O objetivo final deve ser a construção de um Comunismo de Luxo Totalmente Automatizado; a alternativa, se não formos capazes de construí-lo, algum tipo de barbárie de exploração e de alienação — mais desnecessários ainda do que o foram nas várias etapas do capitalismo — isso para nem entrar em todas as desgraças relacionadas à aceleração das mudanças climáticas (pois, apesar da fé capitalista no crescimento e na expansão infinita ser realmente muito grande, ela não muda o fato de que o planeta Terra é um sistema finito).” **Para terminar, temos aqui uma lista de recomendações de leitura, incluindo os que já foram indicados acima e outros, relacionados, que foram listados pela Comunismo de Luxo Totalmente Automatizado em posts recentes:De Volta ao Debate Sobre o Planejamento Socialista I — Cálculo, Complexidade e Planejamento (sobre Mises) *De Volta ao Debate Sobre o Planejamento Socialista II — Preços, Informação, Comunicação e Eficiência (sobre Hayek) *Planejando o Bom Antropoceno *Comunismo de Luxo Totalmente Automatizado *Imaginários do Pós-Trabalho: Automação Completa, Renda Básica, Jornada de Trabalho e Ética do Emprego *Socialismo, utopia inviável? — P1 *Socialismo, utopia inviável? — P2 *Socialismo, utopia inviável? — P3 *Pós-capitalismo na era do algoritmo — P1 *Pós-capitalismo na era do algoritmo — P2 *Pós-capitalismo na era do algoritmo — P3 *Quatro Futuros: Vida Após o Capitalismo *Comunismo Verde Totalmente Automatizado *Defeitos Estruturais de Controle no Sistema do Capital *Socialismo, Mercado, Planejamento e Democracia *Economia e Planejamento Soviéticos e as Lições na Queda *Geoengenharia Para o Povo: Todos os Meios que Forem Necessários *Modernidade de Esquerda: Por um Futuro de Progresso, Liberdade e Emancipação Universais *Inovação Vermelha *A Revolução Cybersyn *O Socialismo Vai Ser Chato? *Todo Poder aos “Espaços de Fazedores” *O Lamentável Declínio das Utopias Espaciais