Arte da Revista CULT >https://revistacult.uol.com.br/home/esquerda-sempre-mais/Desde o dia em que o ministro Alvim resolveu que seria uma boa ideia emular o nazismo em seu discurso, citando Goebbelsaos som de Wagner, uma bomba caiu sobre a esquerda no que tange a ideia de que Nazismo e Comunismo são coisas similares e que líderes como Mao Tsé-Tung, Fidel Castro e Joseph Stalin são comparáveis a Hitler porque “ todos foram ditadores que perseguiram seu povo”.De um lado temos a esquerda “namastê” postando mensagens de gratidão na internet do alto de seu apartamento no centro da cidade com aluguel pago pelo dinheiro dos pais, defendendo que ditaduras são ruins e que a democracia liberal burguesa é o suprassumo da sociedade humana moderna. Do outro temos a esquerda “pé-no-chão” que diz que é um absurdo comparar aqueles que venceu o nazismo na segunda guerra, aliado aos EUA e Reino Unido, com o próprio nazismo. Não preciso dizer que estão certo, claro.Ainda assim, o Intercept resolveu entrar na briga e tomar lado — o da ciranda — e dizer que, quando a esquerda “ defender ditadores como Maduro, Stalin e outrosvai sempre perder e estar do lado errado da história e jogar fora as eleições” (porque no fundo o que a esquerda cirandeira quer é fazer parte do circo liberal da democracia).Para além do óbvio — que o Intercept é a esquerda norte-americana, liberal e conciliadora — fica evidente cada vez mais que a esquerda brasileira é composta por uma grande maioria incapaz de entender o que a esquerda ideológica defende e o que significam comunismo e socialismo e se apegam a visão torta daqueles que tem dinheiro e poder para recontar a história pelo lado do dinheiro e do capitalismo. Crer que existam outras formas de revolução e levante popular que não seja derramando sangue (porque revolução não é algo pacífico) opõe ao povo é ingênuo e escancara como a nossa esquerda, liderança ou militância, está na sua torre de marfim (rica e viajada) enquanto o povo sofre as mazelas da conciliação de classes do PT e do recrudescimento que a política social-democrata jogou o mundo.A direita (extrema ou não) nada e nadará de braçada enquanto tivermos uma esquerda rica, burra e incapaz de perceber a realidade do seu próprio povo.Reproduzo aqui o texto-resposta do Jones Manoel para o artigo do Intercept.>O mundo dos sonhos e o sangue negro — ou uma carta aberta para Tatiana Dias e Rafael Moro Martins.

Dois jornalistas, no The Intercept Brasil, me criticaram em um escrito chamado “Elogiar ditadores é a melhor maneira de a esquerda continuar perdendo”. No escrito, criticam, tomando como mote principal uma postagem da deputada federal do PSOL Talíria Petrone em homenagem a Lênin, a “esquerda que homenageia ditadores”. Eu sou citado (com nome errado) nesse trecho: “O historiador e influenciador marxista Jones Manuel não corou em falar publicamente que matar pessoas em uma revolução ‘é uma contingência que acontece’”. Em seguida, os dois jornalistas, com uma típica ironia liberal, dizem: “Fuzilar uma família aqui, matar outros tantos milhões de fome ali, torturar e assassinar indiscriminadamente e promover o terror entre os dissidentes. Assim mesmo. É normal, efeito colateral”. Muitas coisas podem ser comentadas a partir desse escrito. Vamos começar com o básico: em um escrito sobre não homenagear ditadores não existe, em nenhum momento, um debate ainda que mínimo sobre o conceito de ditadura e democracia. Bem ao gosto do jornalismo apressado, raso e superficial, no lugar do debate conceitual sobre o que se está chamando de democracia, temos um vazio. Porém, na política e no universo, não existe de verdade um espaço vazio. Esse espaço é preenchido pelo senso comum liberal que brota sobre todos os poros do artigo. A prova disso é que, ao citar uma ditadura, o exemplo buscado é o da Venezuela. Pouco importa se a Colômbia, crivada de bases militares dos Estados Unidos, bate recordes seguidos no assassinato de jornalistas, defensores dos direitos humanos, sindicalistas, camponeses, militantes e comunistas. Os comunistas, inclusive, nunca podem ser vistos como vítimas. Apenas como vilões em potenciais, sempre prontos para aplicar o totalitarismo e matar a democracia. Os dois jornalistas, com a profundidade de um pires quebrado, citam um referencial teórico: o livro “Como as Democracias Morrem”. Esse panfleto divulgado no Brasil com o beneplácito de FHC afirma, dentre outros absurdos, que Hugo Chávez era um ditador e chega a insinuar uma comparação do líder bolivariano com Hitler. No fantástico mundo do liberalismo, Hugo Chávez é um ditador do mal, mas um sujeito como Bush responsável por declarar uma guerra ilegal contra o Iraque baseado em uma mentira (quem sabe as armas de destruição em massa não estão na casa de FHC) ou Obama, responsável pela destruição da Líbia, o país até então com maior IDH da África, não são ditadores; ao contrário: belos democratas que sabem que a democracia não se aplica aos bárbaros não brancos da periferia do sistema. Tatiana e Rafael devem ser dois pacifistas. Talvez descendentes diretos de Mahatma Gandhi. Eles se escandalizam porque eu afirmo que numa revolução, pessoas morrem. Essas belas almas, consciências típicas da Esquerda Itaú no estilo Tabata Amaral, conseguem, porém, todo dia dormir tranquilos com mais de 60 mil assassinados todos os anos e o maior sistema carcerário do mundo em termos relativos. Todo santo dia, as forças do Estado estão matando, “atirando na cabecinha”, prendendo de forma ilegal. São mais de 260 mil presos sem ao menos passar por um julgamento no sistema carcerário brasileiro. Sem falar dos que morrem de fome ou nas filas dos hospitais, as que definham mais rápido por uma vida cheia de privações e trabalhos horríveis, os assassinados no campo. Todo ano, no Brasil, juntando todas as mazelas, quase 100 mil pessoas estão indo para vala: quase todos pobres, quase todos negros, quase todos jovens, quase todos favelados. A despeito desse morticínio, e alguns detalhes como, volta e meia, um grande monopólio tirar do mapa uma cidade (lembra de Brumadinho?), temos um belo Estado de Direito, democracia, Constituição, instituições. Eu, o stalinista do mal, quero, veja só, introduzir a violência na política. Eu quero negar o diálogo intersubjetivo constitutivo — e ontológico? — da bela política brasileira. Tatiana e Rafael devem ser grandes admiradores de Hannah Arendt. A filosofa famosa pelo seu livro “As origens do totalitarismo”, ao celebrar a liberdade e a Revolução Americana, “esqueceu” um pequeno detalhe: a escravidão e o regime de segregação racial Jim Crow. Um belo dia, porém, os negros dos EUA decidiram lembrar que viviam na pátria da liberdade um “racismo totalitário” (conceito de Fanon, autor pouco lido no Instituto FHC!) e protestar. Alguns desses negros, esses malditos negros não liberais, decidiram usar a violência na sua luta. Hannah Arendt afirmava que a violência é a negação da política e criticou os “radicais” do movimento negro dos EUA. Mas, calma! Se a violência é a negação da política, isso significa que nos Estados Unidos da escravidão e do Jim Crow nunca existiu política, dado que esses regimes são baseados na violência? É claro que não! Para Hannah Arendt, isso é apenas defeito, contingência, detalhe. A violência começa com Malcolm X — maldito radical! No fantástico mundo de Tatiana e Rafael, eu não posso falar que as pessoas morrem em uma revolução. Sou como um câncer em metástase na esquerda. Contudo, pessoas como a menina Ágatha Félix ou o menino Eduardo podem morrer no hoje, no agora, que isso não macula em nada o caráter democrático de nossa democracia. Casos como o do pedreiro Amarildo ou o Carandiru? Simples falhas que um dia, com a graça de Deus, vão ser corrigidos. Não sabemos quando, talvez no dia que Bush descobrir as armas de destruição em massa no Iraque ou o continente africano seja restituído por séculos de colonialismo. Enquanto isso, o sangue derrama, derramará mais, e o “tiro na cabecinha” continua. E viva o liberalismo. Nesse meio tempo, porém, é dever de todos os cidadãos de bem devotos de Jonh Locke (pai do liberalismo político e defensor da escravidão) excomungar os stalinistas, os radicais, os violentos. E se um dia aparecer um Malcolm X em terras brasileiras, estaremos todos juntos, com Wilson Witzel, João Dória e o brasão da Polícia Militar, gritando viva a democracia e sem violência!