Joseph Gordon-Levitt no ótimo filme “Perigo Por Encomenda” (Ride Like Hell) de 2012Nos anos 90 e 00 certamente você ouviu alguma tia fora da realidade dizendo algo sobre Cuba nesse sentido:>Em Cuba é horrível, lá engenheiros precisam ganhar a vida dirigindo táxis. É isso que os comunistas fazem com os países! Óbvio que a sua tia era uma senhora de classe média, provavelmente malufista ou tucana, que acreditava que o segredo do sucesso é orar pra Jesus e trabalhar 12h por dia — mesmo que ninguém que desfrute do mesmo patamar social dela jamais tenha trabalhado tanto assim.De qualquer jeito, sua tia não estava errada, claro. A questão, contudo, é que no modelo cubano de educação a ideia de se estudar é para adquirir conhecimento e aprender e não a visão mercantilista do capitalismo que transforma a educação em uma corrida por empregos e profissões que dão dinheiro.Não à toa que desde tempos imemoriais o Brasil sempre relegou profissões humanistas aos segundo plano dos ganhos financeiros — elas não foram feitas para dar lucro e sim para questionar a sociedade na qual estão inseridas — e sempre elevou profissões como medicina, direito e engenharia aos grande patamar do semi-deuses. Também, é bom lembrar, essas eram as profissões escolhidas majoritariamente pelos filhos da nossa elite colonial, imperial e cafeeira. Nada é por acaso.Pulando pro século XXI e pro ano de 2020, a “uberização” do trabalho nos tornou escravos modernos das empresas sem empregados. Uber, Rappi, iFood e muitas outras empresas não tem um segmento de operação claro, elas trabalham na margem da legislação trabalhista mundial operando sem vínculo com entregadores e motoristas e os tornando escravos dos algoritmos frios e racistas bolados por trabalhadores no Vale do Silício.Tem quem diga que esse é o emprego daqui por diante. Que a tecnologia, com seu avanço desenfreado e desumanizado, criou a base sólida das empresas do quarto setor — sem atuação direta em nada mas responsáveis por todo o tipo de serviço de entrega — que não empregam os seus funcionários. Em qualquer sociedade isso seria um afronte a todos os trabalhadores, mas, na sociedade moldada pela crise do capitalismo, pelo medo do desemprego e da fome e, principalmente, pelo medo de um “modelo comunista” sem liberdades, esse é o som da harpa angelical que encanta os trabalhadores mais pobres.Recentemente o Uol divulgou uma matéria que destrincha um grupo de entregadores dessas plataformas onde, com jornadas de 12h pedalando, jovens da periferia de SP conseguem um “salário” de R$2000 mensais. Menos de 2 salários mínimo.Dentro dessa matéria o número que me saltou, contudo (e porque eu já sabia da amarga realidade das plataformas de escravidão moderna) foi o que aponta que +11% dos entregadores tem ensino superior ou pós-graduação completos.Chegou a hora: O Brasil finamente virou Cuba.Isso mesmo, a realidade de Cuba castrista, um país do tamanho de Porto Alegre (ou menor, não sei) dos anos 90/00, bateu com todas a força no Brasil neoliberal do Paulo Guedes e Bolsonaro que por anos acusaram o PT de transformar o Brasil em uma Cuba.No final, o liberalismo trouxe a sua maior piada de todos os tempos: transformou aquela que era a grande cartada de todos os capitalistas sem capital contra o socialismo na sua própria realidade.Nada como 4 anos de recessão e 13% de desemprego pra fazer as pessoas aceitarem serem feitas de escravas modernas e pedalarem 80km por dia pra entregar Big Mac em uma bicicleta alugada do Itaú.