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  • The Cure —São 4 da manhã de terça-feira. 

O Apple Music me jogou de volta pra 2002 com a playlist do The Cure.

É isso.Em 2002, além do Brasil estar disputando a Copa do Mundo da “ japeia” na madrugada brasileira, do meu irmão ainda estar com apenas 3 anos de idade e do fato de eu estar sem eira nem beira (sem faculdade, sem emprego), foi também o ano em que eu descobri que existia a banda The Cure.Por algum motivo que me escapa, nessa época ainda ouvíamos rádio durante os momentos de ócio. Os telefones só enviavam SMS e tinham telas contadas em linhas (como os antigos computadores) e a TV tinha uma programação voltada à dona de casa e não ao público que persegue o sangue como um vampiro. E claro, a internet ainda era discada na maioria dos locais (aliás, todo mundo que fala de 56 kbps está mentindo ou sendo nostálgico com o que não viveu, quando a gente tinha sorte a velocidade da conexão era de 47kpbs, quando muito 52kbps).Mas isso não explica o rádio, claro, que se manteve onipresente em todas as portarias o país e, naquela época, em todas as bancas de revista. E eu iniciei, depois da Copa, meu primeiro trabalho na vida. Fui atendente na banca de revistas do meu pai. Era um bom emprego, ainda que o ar familiar permitisse coisas como o meu pai chegar algumas horas atrasado todo o dia pra “mudar de turno” comigo; algo que me obrigava a pegar o Anchieta da Sogil exatamente às 18h. Era como ser enlatado vivo.Mas o rádio. Ele era o personagem dessa parte da minha vida. Eu escutava uma série de programas de rádio na época, quase todos AM, contudo, por volta das 11h da manhã eu sintonizava na finada Pop Rock pra iniciar uma viagem musical pelos anos 80. Uma época que, naquele momento, não era exatamente tão distante tecnologicamente como é hoje. Coloque uma máquina de escrever elétrica na equação e estamos quase no mesmo patamar.[embed]https://www.youtube.com/watch?v=g-92svJage0[/embed]

And I know I was wrong

When I said it was true

That it couldn’t be me

And be her in between

Without you Não me lembro o nome do programa e nem quem apresentava, e isso é irrelevante já que quase a totalidade dos radialistas de Porto Alegre não é, exatamente, um modelo a ser seguido; mas, naquela época, era uma boa opção para se escutar música velha que já não passava na MTV (sim, ela ainda existia e o Disk MTV já não tocava mais Britney Spears, infelizmente) mas que também não recebia, ainda, os créditos das grandes obras dos anos 70. Era um hiato, um nicho, um segmento, diriam hoje. Eu era um cara deslocado ouvindo aquilo e pesando como seria a época onde os meus primos mais velhos iam pra escola e pensavam no curso técnico pra depois do ensino médio (nenhum pobre pensava muito em faculdade na época).Nesse contexto, ainda, eu me apaixonei uma infindável quantidade de vezes — com 19 anos isso é normal, dizem — e ganhei incontáveis foras e decepções amorosas — essa parte talvez não seja tão comum — que me fizeram começar a escrever e, principalmente, achar que eu era um cara depressivo (quem diria, a depressão de verdade só viria 15 anos depois) e EMO antes de existir o movimento EMO. Alma sombria de adolescente tardio. Melancolia de quem não tinha muitos problemas na vida. Incapacidade de pensar adiante, como todos na minha geração. Tudo somado com a falta de opções de mensagens e uma quantidade limitada de amigos e acesso à coisas comuns hoje em dia — penso que o Tinder teria sido algo sensacional na época, principalmente pro tripé de amigos que não ficava com ninguém — como pessoas novas. O chat do UOL, ainda que tenha a sua base saudosista, era uma merda e só quem acabava perambulando por lá na madrugada eram homens de meia idade mostrando fotos da genitália para outros homens de meia idade que se passavam por mulheres casadas que estavam loucas pra trair e tinham seios enormes e firmes. Não era um lugar aprazível.Era uma terça-feira chuvosa e úmida e o aparelho 2-em-1 que tinha rádio e TV P&B tinha sérias dificuldades pra sintonizar algumas estação. A culpa era da estrutura metálica da banca do meu pai. Mesmo assim, eu consegui, de surpresa, escutar os primeiros acordes de Boys Don’t Cry e que logo foram seguidos pelo vocal carregado de sotaque britânico do Robert Smith. Era incrível como aquela guitarrinha safada e o refrão arrastado me fizeram crer que eu e aquela música tínhamos uma ligação espiritual.[embed]https://www.youtube.com/watch?v=9GkVhgIeGJQ[/embed]

I would tell you

That I loved you

If I thought that you would stay É claro que a banda tinha escrito esses versos pensando na minha fossa pela menina que morava duas quadras pra cima da minha casa, no Parque Florido, em Gravataí. As vozes na minha cabeça tinham sido silenciadas, finalmente, pela ideia fixa de que eu precisava saber mais sobre a banda.Munido da minha resiliência em esperar 2h pra baixar 8Mb, eu fui pro Kazaa (Napster sempre fez mais sucesso nos EUA do que aqui, e durou muito pouco) baixar alguns ótimosMP3 em 64K, sabe, pra caber mais no CD (com 700MB e custando o equivalente, hoje, a um pendrive).Boys Don’t Cry, Pictures of You, In Between Days. Todas sensacionais. Todas sombrias como eu, um adolescente brasileiro branco e com acesso à internet. Totalmente relacionável com um inglês dos anos 80. O Paladino Tênis Clube era a minha Picadilly Circus, ora.E assim sendo, a obra que dialogou com o meu espírito foi Friday I’m Love.[embed]https://www.youtube.com/watch?v=mGgMZpGYiy8[/embed]

I don’t care if Monday’s blue

Tuesday’s grey and Wednesday too

Thursday I don’t care about you

It’s Friday, I’m in love É claro, afinal, ainda que eu tivesse em mim a essência EMO que se materializaria com Mais Um Soldado da Fresno (em 2004), eu era essencialmente um romântico que acreditava no amor, em se apaixonar e, principalmente, em conseguir ser feliz com pouca coisa (amor, paixão e pessoas). Essa letra, deixando o cinismo de lado, é exatamente sobre isso, sobre ser uma pessoa capaz de ter esperança. E eu tinha. Vã, óbvio, mas eu tinha. Fito Paez ainda fazia sucesso em Porto Alegre com Mariposa Technicolor, mas eu já tinha me rendido à invasão britânica, décadas atrasado.Eu deixava aquele computador ligados por 6h por dia, baixando qualquer MP3 que tivesse The Cure no nome do arquivo. As vezes isso queria dizer que não iria vir nada, outras, que iria vir algo completamente oposto. No final, tinha até uma versão da Comunidade Nin-jitsu de Boys Don’t Cry, citando Tramandaí, churros e surfe.Dias depois, CD na mão e fone no ouvido, pronto pra viajar sabe-se lá Deus pra onde, eu escutava a obra dos caras que falavam sobre coisas universais como quebrar a cara, ter vergonha e errar. Na época eram problemas enormes (e ainda são, as vezes) que me consumiam diariamente e que me faziam perder o sono. Ouvir eles falando sobre isso melodiosamente era como fazer terapia antes de estar na moda. Eu escutava, decorava e até mesmo imitava o sotaque (falar can’t com sotaque britânico depois de anos ouvindo apenas inglês dos EUA é antinatural) deles. Por mais que a banda tenha atividade por longos anos, o que contou mesmo pra mim foram as mágicas músicas dos anos 80. Amor sempre vende, desilusão então.Por anos eu escutei diariamente The Cure no meu quarto em Gravataí. Por anos eu me desliguei quando eu ouvia aqueles acordes tão famosos. Por anos eu esqueci da vida, dos problemas e das cagadas que eu fiz. Por anos, com Robert Smith eu me foquei no amor. No amor possível, no impossível, nas fatalidades que o seguem e, principalmente, naquele amor que nunca acontece.Depois vieram os problemas verdadeiros, as contas, as decepções de verdade, os amigos se foram (metaforicamente e literalmente), os amores não viraram família e a vida descarrilhou por muitos anos. Eu sabia disso. Sempre soube. A nostalgia era a minha fuga. Eu voltava, como agora, para aquele tempo onde eu tinha cabelos espetados pelo gel, gastava meu salário em CD no Shopping de Cachoeirinha e era apaixonado pela menina que morava duas quadras acima da minha casa. E eu ouvia The Cure, porque a vida era boa.