Mais do que uma pandemia maldita que vai, ao que tudo indica, varrer o planeta, o coronavírus escancarou um ponto central da nossa sociedade moderna, liberal e baseada nos princípios capitalistas: a concentração de renda e o poder que a elite empresariam do mundo tem em suas mãos.Não é de hoje que algumas vozes dissonantes gritam aos quatro ventos que o grande problema da nossa sociedade é a concentração de renda nas mãos de poucas pessoas. Não estamos falando do 1%, estamos falando do 0,0001% do mundo. Estamos falando do Elon Musk, do Jeff Bezos, do Bill Gates e de alguns poucos atores globais e locais que determinam o rumo das nossas vidas diariamente, seja com produtos seja com políticas públicas milimetricamente pensadas para melhorar a vida deles e maximizar o lucro de suas empresas.Enquanto a Itália amarga mais de 7 mil morte por coronavírus e a Espanha se encaminha para uma catástrofe semelhante, Brasil e EUA em uníssono reverberam discursos de grandes empresários na figura de seus chefes de estado.
[Primeiro Donald Trump disse que o “
lockout” iria destruir a economia](https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/03/24/coronavirus-trump-espera-por-fim-as-medidas-de-isolamento-nos-eua-ate-a-pascoa.ghtml) dos EUA, ignorando o fato de alguns modelos projetam quase 2 milhões de mortes por lá; logo após,
Jair Bolsonaro reproduziu o discurso do seu par norte-americano adicionando uma pitada da nossa boa e velha elite escravista.Antes dele, contudo, justiça seja feita,
outros vários empresários saíram em defesa do fim da quarentena brasileira com a desculpa de que os empregos não poderiam ser resguardados se as pessoas não consomem e não trabalham — ainda que o país esteja em pleno funcionamento, com diversos trabalhadores em regime de teletrabalho, diversas fábricas produzindo, em um esforço que lembra o esforço de guerra, insumos hospitalares para atender a demanda do país e muitos entregadores, trabalhadores de mercados e farmácia, profissionais de saúde e tantos outros estejam trabalhando diariamente, seja por falta de opção ou por necessidade social.São pessoas como Roberto Justus, Júnior Durski (Madero), Alexandre Guerra (Giraffas) exemplificam de maneira impensável até uns dias atrás como esses 10 pontos levantados pelo Noam Chomski no seu livro “Réquiem para um sonho americano” sobre como a sociedade capitalista, através de seus atores principais, controla a vida de todos nós e, mais do que isso, pouco se importa com o valor individual das nossas vidas.Em tempos de crise, seja ela qual for, é sempre bom se lembrar de onde saíram as ideia que hoje nos fazem arrepiar até os ossos. Elas não existem no éter do universo, elas tem cara e dinheiro, muito dinheiro. E estão dispostas a te matar em nome do lucro.**
Princípio # 1: Reduzir a DemocraciaAo longo da história americana, tem havido um conflito contínuo entre a pressão por mais liberdade e democracia vindo de baixo e os esforços de controle e dominação da elite vindos de cima. Isso remonta à fundação do país. James Madison, o principal criador da Constituição, que acreditava tanto na democracia quanto qualquer outra pessoa no mundo naquele tempo, achava que o sistema dos Estados Unidos deveria ser projetado e, de fato, com sua iniciativa assim o foi, para que o poder ficasse sempre nas mãos dos ricos. Porque os ricos eram considerados o grupo de homens mais responsável.Princípio # 2 Ideologia da formaA partir da década de 1970, houve uma ofensiva comercial para tentar reprimir os esforços igualitários que passaram pelos anos de Nixon.Chomsky
Você vê isso em muitos aspectos, à direita, em coisas como o famoso Memorando de Powell, um “plano corporativo para domar a democracia”. A elite ficou horrorizada com as tendências democratizantes dos anos 60 e achou que deveríamos reagir a ela. Eles estavam preocupados com o desenvolvimento de um “excesso de democracia”.Princípio # 3: Redesenhar a EconomiaDesde a década de 1970, tem havido um esforço conjunto por parte dos “mestres da humanidade”, os donos da sociedade, para mudar a economia em dois aspectos cruciais. Houve primeiro um grande aumento nos fluxos de capital especulativo, uma mudança dos bancos tradicionais para investimentos arriscados, instrumentos financeiros complexos, manipulações de dinheiro e assim por diante.Nos anos 70, a General Electrics podia lucrar mais jogando jogos com dinheiro do que com sua produção nos Estados Unidos. Esse é um fenômeno chamado financeirização da economia. Indo além disso, está o off-shore (terceirização) da produção. O sistema comercial foi reconstruído para colocar os trabalhadores em concorrência entre si em todo o mundo. Quando testemunhou no congresso, Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve de 1987 a 2006, explicou seu sucesso na administração da economia com base no que chamou de “maior insegurança dos trabalhadores”. Mantenha os trabalhadores inseguros e eles estarão sob controle. Eles não vão pedir salários decentes ou condições de trabalho decentes ou a oportunidade de associação livre, ou seja, sindicalizar. Esses dois processos, financeirização e off-shore, fazem parte do que leva ao ciclo vicioso de concentração de riqueza e concentração de poder.Princípio # 4: mude o fardoO sonho americano, como muitos ideais, era em parte simbólico, em parte real. Nos anos 50 e 60, houve o maior período de crescimento da história econômica americana: a Era de Ouro. Foi um crescimento bastante igualitário, o 1/5 mais baixo da população beneficiado junto do 1/5 superior.E havia algumas medidas do estado de bem-estar, que melhoraram a vida de uma grande parte da população. Os impostos sobre os ricos eram muito mais altos, os impostos sobre as empresas eram muito mais altos, os impostos sobre dividendos eram muito mais altos, os impostos sobre a riqueza eram muito mais altos. O sistema tributário foi redesenhado para reduzir os impostos que tinham de ser pagos pelos mais ricos e, consequentemente, aumentar a carga tributária sobre o restante da população. As grandes corporações americanas transferiram o fardo de sustentar a sociedade para o resto da população.Princípio # 5: Ataque a SolidariedadeSolidariedade é perigosa. Do ponto de vista dos “mestres”, você deve se preocupar consigo mesmo, não com outras pessoas. Adam Smith baseou toda a sua abordagem da economia no princípio de que a simpatia é uma característica humana fundamental, mas foi tirada da cabeça das pessoas. Hoje vemos isso na formação de políticas públicas como, por exemplo, no ataque à seguridade social. A segurança social é baseada em um princípio de solidariedade. Previdência social significa: “Pago impostos sobre a folha de pagamento, para que a viúva do outro lado da cidade possa ter algo para viver”.Chomsky
Se você deseja destruir algum sistema: primeiro debilite-o. Também vemos isso no ataque às escolas públicas. As escolas públicas também se baseiam no princípio da solidariedade.Princípio # 6: Controle os ReguladoresChomsky
Se você examinar o histórico da regulamentação estatal como, por exemplo, a regulamentação das ferrovias, a regulamentação financeira e assim por diante, verá que geralmente essa regulamentação é iniciada pelas concentrações econômicas que estão sendo regulamentadas ou é apoiada por elas. E o motivo é que eles sabem que, mais cedo ou mais tarde, eles podem assumir os reguladores. E acabamos com o que é chamado de “captura regulatória”.O negócio que está sendo regulamentado está de fato sendo administrado pelos reguladores.Princípio # 7: Eleições para EngenheirosA concentração da riqueza gera concentração do poder político, particularmente no que diz respeito ao aumento do custo das eleições, que força os partidos políticos à irem aos bolsos das grandes corporações.Chomsky
A 14ª emenda tem uma disposição que diz: “os direitos de nenhuma pessoa podem ser violados sem o devido processo legal”. E a intenção dessa emenda era proteger os escravos libertos. Acho que nunca foi usado para escravos libertados sequer marginalmente. Quase imediatamente, contudo, foi usado para negócios, corporações. Seus direitos não podem ser violados sem o devido processo legal. Então eles gradualmente se tornaram as pessoas sob a lei. Empresas são ficções legais criadas pelo Estado. Talvez eles sejam boas, talvez sejam ruins, mas chamá-las de pessoas é ultrajante. Estrangeiros indocumentados que moram aqui e constroem suas casas, limpam seus gramados e assim por diante, não são pessoas. Além disso, na década de 1970, os tribunais decidiram que o dinheiro é uma forma de expressão. Isso significa que as empresas, que praticamente compram eleições, agora estão livres para fazê-lo praticamente sem restrições. É um ataque tremendo ao resíduo da democracia. É uma decisão incrível, e coloca o país em uma posição em que o poder comercial é muito maior do que sempre foi. Isso faz parte desse ciclo viciosoPrincípio # 8: Mantenha os pobres “na linha”Existe uma força organizada que tradicionalmente, com todas as suas falhas, esteve na vanguarda dos esforços para melhorar a vida da população em geral. Os sindicatos. É uma barreira para a tirania corporativa. Um dos principais motivos do ataque concentrado, quase fanático, aos sindicatos, ao trabalho organizado, é que eles são uma força democratizante. Eles fornecem uma barreira que defende os direitos dos trabalhadores, mas também os direitos populares em geral. Isso interfere nas prerrogativas e no poder daqueles que possuem e administram a sociedade. Os EUA têm uma história de trabalho longa e muito violenta em comparação com sociedades parecidas. O movimento trabalhista foi muito forte. Contudo, na década de 1920, em um período não muito diferente de hoje, foi praticamente esmagado. Agora, menos de 7% dos trabalhadores do setor privado têm sindicatos. O efeito é que a contra-força usual de uma ofensiva da nossa classe empresarial altamente consciente de classe se dissolveu.Princípio # 9: Consentimento de FabricaçãoO setor de relações públicas, que é mais um setor de publicidade, dedica-se à criação de consumidores; é um fenômeno que se desenvolveu nos países mais livres, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, e o motivo é claro. Ou melhor, tornou-se claro há um século quando demonstrou que não era fácil controlar a população pela força. Muita liberdade foi conquistada. Portanto, outros meios de controlar as pessoas precisavam ser encontrados. Entendeu-se e expressou-se que é preciso controlar as pessoas controlando suas crenças e atitudes, o que o grande economista político Thorstein Veblen chamou de “fabricando consumidores”.Princípio # 10: marginalize a populaçãoMartin Gilens, professor de política da Universidade de Princeton, publicou um estudo da relação entre atitudes públicas e políticas públicas. O que ele mostra é que cerca de 70% da população não tem como influenciar políticas públicas e, principalmente, mostrou que a população sabe disso. O que nos levou à uma população raivosa, frustrada e que odeia instituições. Esta população agora está assumindo a forma de raiva sem foco, ataques uns contra os outros e contra alvos vulneráveis.Chomsky
Um lugar que vimos isso de maneira surpreendente foi no 15 de abril. O 15 de abril é uma espécie de medida, o dia em que você paga seus impostos (nos Estados Unidos é o dia do imposto). Se uma sociedade é realmente democrática, esse 15 de abril seria um dia de celebração. Seria um dia em que a população se reunisse e decidisse financiar os programas e atividades que formularam e concordaram.Não acho que somos inteligentes o suficiente para projetar, em detalhes, como seria uma sociedade perfeitamente justa e livre. Acho, entretanto, que podemos dar algumas orientações e, mais significativamente, podemos perguntar como podemos progredir nessa direção. John Dewey, o principal filósofo social do final do século 20, argumentou que até que todas as instituições, produção, comércio e mídia estejam sob controle democrático participativo, não teremos uma sociedade democrática em funcionamento.** **Conclusão“Na era das democracias vacilantes, Noam Chomsky é mais relevante do que nunca” (Rohit Kumar). Os méritos de Chomsky: ele identifica tendências antidemocráticas nos EUA em 10 pontos concisos. Mas, embora toda a extensão do livro e do filme seja dedicada à discussão de muitas tendências desestabilizadoras, a esperança brilha. Porque, em última análise, Chomsky é otimista. Isso mostra no começo:>“Durante a Grande Depressão, da qual tenho idade suficiente para lembrar, foi ruim — muito pior subjetivamente do que hoje. Mas havia uma sensação de que sairíamos disso de alguma forma, uma expectativa de que as coisas iriam melhorar. ” E também mostra na citação de Howard Zinnno no final:>“O que realmente importa são as inúmeras pequenas ações de pessoas desconhecidas que lançam as bases para os eventos da história humana. Essas são as pessoas que fizeram mudanças no passado; eles são responsáveis por fazer mudanças no futuro também. ” Referências“Réquiem para o sonho americano.”Script do filme.Goodman, Amy.“Noam Chomsky em conversa com Amy Goodman sobre Trump, Nukes, Coréia do Norte, Mudança Climática e Síria”. Democracy Now (dez. 25 de agosto de 2017.Kelly, Geoff.“Noam Chomsky, Requiem, O Filme”. Daily Public (março de 2016)Kumar, Rohit. “Na era das democracias vacilantes, Noam Chomsky está mais relevante do que nunca” The Wire.** Tradução parcial do artigo “Noam Chomsky, ‘Requiem for the American Dream’” publicado originalmente no site The World Speaks English.