Centro de Porto Alegre vazio durante o isolamento social de 2020.Eu convivo desde 2016, mais ou menos, com um medo constante e irracional. Não é um medo que se materialize na minha frente ou que seja de fato uma ameaça; é apenas um medo que toma a minha vida toda de assalta ao menor sinal de que algo possa dar errado. Os especialistas chamam isso de ansiedade.Ansiedade é estar com medo, pra mim. Medo de furar uma parede e pegar um cano d’água e nunca mais conseguir arrumar. Medo de sair na rua e ser atropelado por um carro desgovernado na calçada. Medo de que alguém da minha família morra e eu fique desamparado sem saber o que fazer para sempre.Enfim, medos que a maioria das pessoas até pode ter, mas que não as paralisa em relação à vida. O ansioso é, antes de mais nada, um cansado. Uma pessoa cansada de ter que controlar — ou tentar — cada aspecto de cada segundo da vida. Pensar milimetricamente em casa ação antes de realizar um projeto. Planejar cada passo na calçada antes de sair casa. Planejar cada resposta possível para cada pergunta indesejada numa conversa. Enfim, medo de perder o controle.Imaginem então como está sendo esse período de medo generalizado para mim. Todas as pessoas que antes não tinha medo, agora tem. As pessoas fumam compulsivamente, fazem pães e falam em grupos de Whatsapp o tempo todo para poder aplacar o medo do vírus que se dissemina pelo país e pelo mundo. Se isolam em casa para evitar contágios, seus e de familiares próximos, e buscam, de alguma maneira, preencher o vazio que nem mesmo o home office consegue.Medo, afinal.Agora, nos últimos dias, com a pressão de sair de casa de alguns setores, as pessoas tem relatado em redes sociais como é terrível estarem presas em casa, sem poder sair pra rua pra andar com o cachorro ou comprar pão. Essas pessoas estão experimentando o que eu — e quase todo o ansioso — experimento todos os dias da minha vida desde 2016.Pra quem não tem ansiedade, isso vai passar, pra mim, vai sempre ser assim. Porto Alegre uma hora deixa de ser vazia, as ruas e parques voltam a ter cor e todo o comércio volta a colocar caixas de som na calçada para vender calcinhas e calças de moletom. Mas pra mim não, tudo isso volta, mas o medo fica. O isolamento vai embora.Mas eu não me importo mais com o isolamento, pelo contrário, a ideia que mais me seduz é exatamente me isolar em meio à natureza, em um pequeno sítio que me permita viver, trabalhar e sentir menos medo.Parece bucólico e simplório. E é.Mas é assim porque eu quero parar de sentir medo e deixar de me sentir cansado. Vocês que voltem ao normal, eu quero me isolar.