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  • Rh —Ou, sobre como eu aprendi que as empresas mentem que fazem processos apenas para contratar as indicações.Em 2017 eu ainda procurava vagas de TI no RS para me encaixar depois de formado. Passei por inúmeras entrevistas de RH de variadas empresas, raramente fui chamado para uma proposta (entre 2017 e 2019 eu recebi duas propostas quando enviei currículo via site/email) e s ó arrumei um emprego na área quando tive indicação interna (meritocracia que chama né).Na época, muito brabo com todo o processo de uma empresa de Porto Alegre, escrevi esse texto (que se perdera no milhões de textos do algoritmo do Facebook). Resgato agora porque acho que a maneira com que as empresas tratam os candidatos piorou sobremaneira com a ascensão do liberalismo e do neofascismo de 2018 em diante. E tende a piores, vide o meu outro post (sobre o governo Temer ainda).Abaixo, as perguntas que a empresa me enviou por email e a seguir a resposta da empresa (sem responder nenhum questionamento meu).Minhas perguntas e respostas pro RH da empresa.Resposta do RH da empresa.** Uma das grandes falácias do mercado de trabalho de informática no Brasil é a famigerada “falta de mão-de-obra especializada” onde as empresas reclamam absurdamente da incapacidade de achar “bons profissionais no mercado” porque falta ao brasileiro formação e experiência.Vivi e trabalhei tempo bastante dentro da área para saber que isso não é verdade e que o grande problemas das empresas brasileiras, ou menos as do RS, é que elas não sabem de fato o que precisam em termos de i) profissionais; ii) tecnologias e iii) mão-de-obra.A imensa maioria das vagas abertas para programador seria facilmente suprida por alguém com um curso EAD do Coursera ou EDX de programação ou algum curso técnico como QI e Alcides Maia (será que ainda existe essa escola?) porque são, basicamente, aplicações de tecnologias conhecidas e implementação de websites e aplicativos bastante simples, que não demandam conhecimento teórico de computação ou formação superior em engenharia.Primeiro** problema é exatamente essa incapacidade de perceber a sua demanda: se você tem uma posição que em 90% do tempo será suprida por alguém com conhecimento técnico, porque exigir um nível superior dele? Não existe nenhum motivo para exigir que um pós-graduado em aprendizado de máquina esteja numa posição de programador web fazendo aplicações usando Laravel, por exemplo. Ambas são ótimas profissões e necessárias ao mundo atual, o problema é como as empresas enxergam o profissional.Segundo problema é a remuneração de fato. Muito se fala da desoneração de empresas de TI e do “problema da CLT” (ainda que a maior parte das empresas atuais seja adepta do CLT-FLEX ou da “ pejotização”) que impede que o bom empresário pague mais do que R$2000 reais por uma pessoas com 5 anos de experiência em programação e curso superior completo (desejável PG) para uma vaga de técnico. Mas a verdade é o empresário sempre vai buscar uma maximização do lucro dele, isso inclui pagar o menos possível ao empregado; se esse aceitar, beleza (é a famosa “troca voluntária” que o liberal adora falar sobre, e que de voluntária não tem nada, mas outro assunto). Trabalhar 44h semanais (que agora poderão até virar mais, ainda que ninguém “trabalhe” 44h de fato, quando muito 30h) sem direito a pagamento de horas-extra (banco de horas, olá) e com um salário que, de forma prática, é menor do que R$2000 (tem descontos de VR e VT, quase sempre) não é exatamente um cenário animador para uma pessoas que estudou 4 anos para ser programador. Isso faz com que a mão-de-obra especializada, tão falada, vá para outros locais (fuge cérebros é um problema no Brasil) ou acabe recorrendo a soluções mais tradicionais como um concurso público ou arrumar bicicletas em casa.Terceiro e último problema é que as empresas não tem setores de RH aptos a atender dúvidas e questões dos candidatos. Não existe avaliação mínima e muitas vezes as vagas de empregos são anunciadas com uma sopa de letras que soa totalmente descabida para a posição e servem como uma pescaria, aquele que tiver cara-de-pau de mentir que sabe tudo o que é pedido e que aceitar o salário baixo vai ser contratado. A culpa não é nem dos setores de RH, muitas vezes eles são instruídos pelo setor técnico a pedir o máximo possível de referência técnicas antes de passar o candidato pra próxima etapa da entrevista, o que cria um círculo vicioso onde as pessoas passam a simplesmente “ouvir falar”de uma tecnologia e colocam no currículo para conseguir passar pela pescaria inicial do RH e tentar garantir a vaga depois, falando com o pessoal técnico do setor.Uma última observação: recentemente o podcast B9, que é focado muito mais na área de propaganda e marketing do que TI, lançou um programa muito bom sobre entrevistas de emprego.Achei muito interessante o modo como o programa foi conduzido, deu pra entender um pouco a cabeça dos recrutadores, o porém são as considerações da convidada que disse que “cada vez menos a formação importa”.Pretendo seguir na área acadêmica com mestrado e doutorado, mas, enquanto isso, eu cheguei a procurar empregos na área de TI, uma vez que eu cursei antes disso Matemática Computacional, Física e trabalhei por mais de 10 anos como programador, e sempre tive, mesmo no curso de Letras, experiência majoritária como programador. Tenho experiência em Python e C, mesmo assim, sempre que me chamam para uma entrevista me perguntam porque eu fiz Letras e não computação e me questionam como eu posso saber programar se sou formado em humanas.Fosse algo pontual, eu não daria bola, já tive entrevistas muito ruins e sempre entendo que profissionais ruins existem em todos os locais, o problema é que, ao menos em POA, essa é a regra das entrevistas para Ti.Outro ponto é o modo como as empresas e o RH enxergam quem tem experiência em grupos de pesquisa (bolsista de iniciação científica) sempre dando a entender que esse é um campo onde não se faz nada. Quando fazem isso, essas pessoas ignoram que é preciso fazer relatórios mensais pro CNPq, sob pena de perder a verba da pesquisa, apresentar variados workshops e congressos, enfrentar bancas, fazer projetos de pesquisa com prazo exíguo (as vezes 3 dias) e dar conta de tocar uma pesquisa que, quase sempre, tem pouca base anterior (a tendência ao menos é essa, de pensar em algo novo ou propôr algo novo) sozinho e com limitações de dinheiro do governo e de órgãos de fomento.Dizer que quem tem vivência acadêmica não põe a mão na massa é um erro comum — que eu acredito que nenhum dos convidados cometeu — que a maioria das empresas ainda comete. Fruto da vocação do empresário brasileiro de ser consumidor de tecnologia e não criador.Resumindo , finalmente, o grande problema do mercado de TI são as pessoas que fazem o mercado não técnico, os cargos de gerência, que enxergam ainda o profissional ali como um semi-escravo que necessita ser pago com o menor salário possível, ter a melhor formação possível e trabalhar o máximo possível.Foto relatada: troca minha de emails com uma empresa procurando um “programador Python Jr”. Atente para o “júnior” na vaga, o que deveria indicar um programador que tem conhecimento intermediários de Python e que precisaria de auxílio diariamente até conseguir tomar conta de um projeto.Gosto da sopa de letras que parece ter sido enviada a esmo e do silêncio ante as minhas perguntas.