O grande problema ao se conscientizar a população brasileira sobre os riscos do novo coronavírus é que ele, além de mortal, tem uma morte lenta, agoniante e dolorosa pra todos, paciente e família.Você vai passar 10 dias na UTI, muitos deles em coma, com o pulmão cheio de sangue e líquido, com dores severas ao inspirar e, principalmente, com capacidade de respirar muito baixa. A sua família não vai poder lhe ver nesse meio tempo e estarão em isolamento total por 14 dias. Se você tiver azar e um caso muito grave, você desenvolverá uma sepse, ou seja, uma infecção generalizada que vai “corroer” todo o seu corpo internamente lentamente. Vão ser 10 dias de dor aguda, coma e solidão; entubado por um respirador mecânico.E, se você morrer, você será sepultado com caixão fechado e com um velório de 3 horas, no máximo, e com a sua família 2m longe do seu caixão. Não vai ser permitido escolher nada do ritual do velório.Abaixo o relato da morte de um senhor idoso em Serafina Correa, interior do RS, que contraiu COVID muito provavelmente num breve contato com turistas europeus.** Aposentado que morreu em Bento Gonçalves acreditava que não tinha o vírusEtelvino Mezzomo, 64 anos, ficou na UTI de 18 de março até 15 de abril, quando não resistiuNa madrugada de 18 de março, o motorista aposentado Etelvino Mezzomo foi transferido de um leito clínico para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), do Hospital Tacchini, em Bento Gonçalves, na serra gaúcha.Na porta da UTI, Jussara Bordin Mezzomo, religiosa fervorosa, rezou diante do marido:– Vai com Deus e Santa Rita da Cássia.O aposentado respondeu:– Eu não tenho o coronavírus.Etelvino já estava internado havia cinco dias, e seu estado de saúde se agravara, ainda sem diagnóstico definido. Sem que soubessem, a troca de palavras representou a despedida entre o casal, após 39 anos de casamento.Jussara lembra que o marido temia a covid-19 e nutria esperança de não estar infectado.– Enquanto esteve no quarto, viu na TV notícias sobre o que estava acontecendo, e ficou com medo da doença. Foi para a UTI com a certeza de que não tinha o vírus.O teste do aposentado, concluído horas depois, confirmou o pior. O exame de Jussara deu negativo, mas ela teve de cumprir isolamento em casa, em Serafina Corrêa, onde é dona de um salão de estética. Nunca mais falou com o marido.Entubado, Etelvino dependia cada vez mais do respirador mecânico. Em 8 de abril, ele completou 64 anos no leito de UTI. Jussara fez uma chamada de vídeo via WhatsApp e, com a ajuda de enfermeiros, desejou saúde e felicidades ao marido.– Cantamos parabéns. Foi a última vez que vimos ele, praticamente em coma.Etelvino seguiu assim até a manhã de 15 de abril, quando morreu.Há três anos, o aposentado convivia com falta de ar, mas se cuidava. Pagava plano de saúde particular e consultava regularmente com pneumologista em Bento Gonçalves.A família suspeita que Etelvino foi infectado ao conversar com turistas europeus que visitaram Serafina Corrêa no começo de março. Dias depois, o aposentado passou a ter febre e sentir dores pelo corpo. Mesmo assim, viajou em um ônibus de sacoleiros para o Paraguai, onde costumava comprar mercadorias para revender a conhecidos.– Ele foi e voltou da viagem com febre — conta Jussara.Etelvino procurou atendimento médico pensando se tratar de uma gripe qualquer, mas foi hospitalizado e não voltou mais para casa. Nenhum familiar apresentou sintomas da doença. Jussara diz ter ouvido de um médico que a covid-19 abateu Etelvino de modo tão agressivo que, mesmo sobrevivendo, ele enfrentaria graves sequelas.– Ficaria vegetativo, não voltaria mais ao normal. Os rins estavam paralisados, e a insuficiência respiratória era aguda.A cerimônia de cremação foi em Caxias do Sul. A despedida durou 15 minutos.– Tivemos de ficar de longe. Não sei nem a roupa que vestiram nele. É muito triste. Ele lutou o tempo todo pela vida para cuidar do nosso único filho.Etelvino deixou a esposa, Jussara, 59 anos, e o filho, Thiago, 30 anos, cadeirante.