Fonte: divulgação Schell GamesUm dos temas mais complicados de se tratar em jogos sempre foi o tem de sexualidade, muito em parte porque o público alvo dessa mídia é formado por adolescentes (tanto em idade cronológica como mental) que não suportam nada que fuja aos padrões hipersexualizados heterossexuais que estamos acostumados a ver.Ainda assim, vez ou outra, alguma estúdio independente joga uma luz sobre algum assunto mais espinhoso e lança um jogo com uma temática que precisa se tratada socialmente. É o caso de Mission: It’s Complicated, jogo da desconhecida Schell Games coloca o jogador na pele de uma espécie de Deus Ex Machina dos heróis, criando situações e direcionando o jogo para a missão final ao mesmo tempo em que lida com as questões de gênero e sexualidade dos personagens.Parece simples, mas como relata o CEO do estúdio, o trabalho e a coragem para se fazer algo do tipo tornam a missão deles muito mais complexa do que esperaríamos ver em 2020 (ou não, vide Trump e Bolsonaro).A fonte original é essa.E aqui o link pra página do jogo** ###A falta de representação nos jogos é “parcialmente uma questão de valores, parcialmente uma questão de bravura” Jesse Schell discute o desenvolvimento do simulador de encontros entre super-heróis, MIssion: It’s Complicated [ **Missão: É Complicado , em tradução livre]“O amor tem muitas formas”. Essa é a mensagem central do jogo Mission: It’s Complicated, um jogo gratuito que simula um aplicativo de namoro para super-heróis lançado no início deste ano pela Schell Games.Ao contrário da maioria dos jogos de namoro no estilo “sims”, o personagem do jogador não é aquele que procura romance. Em vez disso, você incentiva pares de super-heróis a se unirem, completando missões juntos e saindo em encontros, pois apenas uma dupla que realmente se ama será capaz de derrotar o Devorador de Mundos.Mas, como você é informado na introdução do jogo, o amor não é definido apenas por sentimentos românticos ou sexuais, nem por gênero.Mission: It’s Complicated permite que os jogadores cultivem as relações entre personagens que são gays, lésbicas, bissexuais, trans e mais; e podem até ganhar o jogo com dois heróis que compartilham uma forte amizade.O conceito de construção de relacionamentos entre heróis era central para o jogo desde o início, mas a equipe enfrentou uma decisão: escolher quais pares os jogadores poderiam formar ou permitir total liberdade, independentemente de gênero, sexualidade e outros fatores.“A equipe estava pensando em algo como ‘vamos ver se podemos fazer isso, vamos tentar adotá-lo e, na medida em que vamos adotando, vamos tornar esse o principal tema do jogo’” , lembra o fundador e CEO Jesse Schell.>“Isso faz parte do que há de tão interessante nisso: alguns dos

relacionamentos são românticos, outros são platônicos, mas você não

sabe quais serão quais. Isso leva a uma espécie de suspense, e achamos

divertido para muitos jogadores ver o que acontece se eles conseguirem

que dois personagens trabalhem juntos. Também percebemos em parte que,

ao adotar essa abordagem, estaríamos indo para um lugar em que poucos

jogos se passaram — dando aos jogadores a capacidade de emparelhar

quaisquer personagens no jogo. Existem muitos “sims” de namoro em que

você é o protagonista e, em seguida, há todos esses personagens que

você pode namorar, e é um tipo de relacionamento unidirecional. Mas

essa ideia em que você pode fazer pares com qualquer pessoa parece

algo muito novo e divertido “. Lançado no Dia dos Namorados, Mission: It’s Complicated originou-se de outro projeto no qual a equipe trabalhou: uma engine de bate-papo para um técnico de saúde virtual que oferece conselhos sobre como parar de fumar, perder peso e assim por diante. Com a tecnologia pronta, a equipe ponderou como poderia ser usada para entretenimento.A proposta original era um visual novel em que você jogaria como despachante de uma equipe como os Ghostbusters, abrindo a equipe para uma história cheia de ação sem a necessidade de animação e gráficos além do orçamento. A ideia evoluiu para um jogo de super-heróis, depois um jogo de namoro de super-heróis, estimulado pelo destaque do ‘ shipping’ ( nt: torcer por um, casal real ou não, ficar junto) na comunidade de quadrinhos, onde os fãs imaginam seus próprios pares românticos ( fanfics).Os fãs que “ shippan” casais frequentemente quebram as fronteiras de gênero e sexualidade, e a Schell Games estava empenhada em representar o máximo possível da comunidade LGBTQ + dentro de seu título.“Poder abordar esses temas foi algo pelo qual a equipe ficou bastante empolgada”, diz Schell.>“Se pudéssemos fazer isso bem, seria muito especial. Eles pegaram tudo o que sabiam sobre cultura nessas diferentes comunidades e tentaram juntar as diferentes histórias. Ficamos muito nervosos com isso, porque não apenas estamos tentando contar histórias sobre todas essas diferentes situações de sexualidade, mas também tentando torná-las engraçadas — e é muito fácil entrar acidentalmente em uma zona em que você está ofendendo as pessoas”. Esse tipo de questão foi ainda mais desafiadora pela decisão de lidar com questões complexas e sensíveis que vão além dos sentimentos dos personagens, muitas vezes em conversas muito rápidas. Durante um café, por exemplo, dois heróis afirmam que são gays, antes de um revelar que é trans e o outro lhe oferecer segurança e aceitação. A discussão ainda se volta para a terapia hormonal transgênero. A conversa parece natural, calma e confortável. Schell atribui isso ao fato de o diretor também ser romancista e familiarizado com a necessidade de um diálogo eficiente, mas respeitoso, e com a determinação do restante da equipe em garantir que esse tipo de conversa seja tratada corretamente.Um exemplo das questões complexas e sensíveis abordadas durante as datas em Mission: It’s Complicated>“Este foi um grande projeto passional para a equipe. Não era como se

estivéssemos impondo essas questões a eles com algo como: ‘Aqui está o

conceito, siga em frente’. Originou-se completamente deles. Eles

tinham um controle sobre o tema desde o começo e nós podíamos ver

isso. Queríamos que eles fizessem o jogo e o fizessem funcionar “. Para garantir que qualquer ofensa fosse evitada, o estúdio contratou especialistas para ler tudo e garantir que o tom fosse apropriado, destacando tudo o que poderia ser involuntariamente ofensivo e sugerindo maneiras de corrigir isso.“Em particular, lembro que a equipe estava preocupada com as conversas trans” , diz Schell.>“Os especialistas nos disseram que estávamos bem nessa questão, mas que ainda havia algumas coisas que precisávamos mudar com um personagem em particular. Isso foi uma surpresa, porque inicialmente pensamos que tínhamos tratado dessas questões. Então, estamos muito felizes por termos trazido especialistas para ajudar a aconselhar sobre a redação. Tentamos tornar o jogo algo realmente divertido, realmente inclusivo, e se fosse acidentalmente ofensivo para alguém, seria como trabalhar contra seu próprio objetivo. Assim, prestamos muita atenção nesse tipo de abordagem. Não queríamos ter medo, queríamos entrar lá e fazê-la funcionar”. Enquanto os desenvolvedores consultavam informalmente o maior número de pessoas possível, tanto dentro do estúdio quanto através de amigos e familiares, Schell enfatizou a importância de contratar especialistas para garantir que tudo pareça verdadeiro.Com apenas uma breve demonstração percebemos o cuidado que foi tomado para representar o maior número possível de pessoas — algo que não se pode dizer de super-heróis em outros meios. Enquanto os quadrinhos da Marvel, por exemplo, fizeram um trabalho sólido de representação de diferentes culturas, gêneros e sexualidades, levou dez anos para a atual série de filmes ter uma liderança de super-herói negra, onze para uma mulher.Jogos como Mission: It’s Complicated se destacam como algo muito mais ousado — embora Schell reconheça que a natureza indie de seu estúdio é um fator crucial aqui.Os jogadores precisam dos heróis juntos nas missões para fortalecer seu vínculo, mas não sabem se isso se transformará em amizade ou amor.>“Os jogos [independentes] podem correr riscos da mesma forma que os

quadrinhos podem correr riscos. Há muito menos em jogo, honestamente.

E em parte esse tipo de assunto só é possível porque a Marvel

conseguiu abrir muitas caminhos. Se você olhar para o público de

quadrinhos em geral — especialmente nos anos 60, 70 e 80 — o público

já se via como outsiders. Isso é algo que tanto a Marvel como Stan

Lee entenderam muito bem, então eles fizeram essas histórias sobre

personagens outsiders reais — O Incrível Hulk, Doutor Estranho,

Príncipe Namor. Há muitos personagens que são evitados pela sociedade,

até mesmo o Peter Parker. Então, isso já é inato nos quadrinhos, eles podem

fazer isso com muita facilidade e, honestamente, não tinham tanto em

jogo. Eles poderiam lançar seis edições de uma história em quadrinhos

e, se fosse um fracasso, o que eles perderiam? Por outro lado, quando

Hollywood comete um erro, eles arriscam US$100 milhões cada vez que

fazem um filme. Então eu posso aceitar eles estarem um pouco

atrasados. Geralmente é assim que eles tendem a ser. Podemos nos dar

ao luxo de ser um pouco mais experimentalistas. Não precisamos de 100

milhões de pessoas para jogar nosso jogo para que ele seja um sucesso,

precisamos apenas das pessoas certas, com as quais o tema do jogo

ressoará, para fazer então com que as outras pessoas possam encontrar

o jogo”. Isso explica porque a representação é tão escassa em jogos maiores, especialmente no espaço dos AAA. Embora existam exceções, como Dragon Age, Schell acredita que há duas razões cruciais para que essas questões não sejam abordadas nos personagens vistos em jogos de grande sucesso.“Uma é que é apenas a cultura dos jogo AAA”, diz ele.>“Existem muitos estúdios grandes dirigidos por um monte de caras — é assim que é. Eles não serão necessariamente socialmente progressistas. Em segundo lugar, os mercados aos quais eles buscam nem sempre receberão essas mensagens, e isso leva à conversas desconfortáveis que eles terão que ter. É parcialmente uma questão de valores, e parcialmente uma questão de coragem . Não é uma coisa fácil de fazer. Eles podem fazer se quiserem, mas é um desafio acertar. Quanto maior a sua comunidade e mais conservadores seus membros, mais você terá conversas difíceis, e nem todo mundo está disposto a isso”. Mission: It’s Complicatted teve um lançamento com críticas positivas, e o estúdio está avaliando o quão bem o jogo vai se manter antes de considerar outras plataformas, como telefones. Schell observa, ainda, que a viralidade dos romances visuais é inerentemente mais lenta que em outros gêneros, mas está satisfeito com o desempenho do jogo até agora.Inevitavelmente, qualquer coisa que ouse explorar assuntos como sexualidade e identidade de gênero se depara com resistência e, muitas vezes, com reação de certos cantos do público de jogos. Mas, embora Schell reconheça que o estúdio recebeu alguns comentários dessas pessoas, esses foram a minoria.>“Acho que parte disso é que não estamos nos escondendo”, conclui. “As pessoas ficam mais chateadas quando esperam uma coisa e, em seguida, acabam por ter coisas que as tornam pessoalmente desconfortáveis. É quando elas ficam agitadas. Tentamos deixar claro o que é e como é. Houve algumas queixas de algumas pessoas, mas tudo bem, porque simplesmente não é um jogo para elas ”.