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  • Brasil —Este é um comentário que virou post e que pode ser lido na íntegra, junto com as réplicas e tréplicas no Post Livre #219 do Manual do Usuário.Link pro post.Sobre o Brasil: temos que pensar, antes de julgar as pessoas que saem às ruas, porque elas saem. Muitas saem porque precisam se alimentar e alimentar as suas famílias, mesmo aqueles que tem sustento garantido na pandemia precisam sair pra comprar comida e remédios. Outras muitas estão sendo obrigadas pelos empresários a sair de casa e até a se manifestar pela volta ao comércio. Carretas e passeatas são financiadas pelos empresários locais e pedem pela volta das pessoas ao trabalho em detrimento das suas vidas. E essas pessoas concordam com isso porque dependem deles pra viver e estão sob constante ameaça de demissão.Mas isso não é algo novo, historicamente o Brasil é um país individualista como sociedade. Se estamos assim hoje é porque no passado vivemos sob uma sociedade de corruptos e corruptores. A formação do Brasil cria esse povo mesquinho e egoísta ao extremo, sem senso de responsabilidade social. Carregamos, como sociedade, a cicatriz do chicote do senhor de engenho nas costas, somos todos, nós os não-ricos, eternamente escravos dessa história “sem culpados”. Enquanto ignorarmos a nossa história, nossa formação e nossa dívida histórica seremos isso que você vê todos os dias: uma sociedade disfuncional.Sobre a pandemia: pouco podemos fazer quando do surgimento de um novo vírus como esse. O que está ao nosso alcance é apenas manter a calma, a higiene e buscar entender quem está nos jogando num buraco sanitário e porque essas pessoas estão fazendo isso.Sobre a política: falta, claramente e isso deveria ser de conhecimento geral já, uma liderança política no Brasil. O presidente Bolsonaro é completamente incapaz de lidar com a crise do novo coronavírus e, ainda por cima, é refém de dois grupos muito poderosos no Brasil: pastores evangélicos e empresários.O primeiro grupo, hoje, pressiona o presidente, os governadores e os prefeitos pela abertura dos cultos presenciais (ignorando, por exemplo, que na Coreia do Sul foi por conta desses cultos que o surto começou) e pelo perdão da dívida bilionária dessas igrejas com o fisco.O segundo pressiona o presidente, os governadores e os prefeitos para manter o seu lucro inalterado e tem como barganha a quantidade de empregos que vão deixar de manter caso o isolamento/distanciamento persista.Sobre isso o governo poderia fazer três coisas:*impedir a demissão de qualquer funcionário da iniciativa privada e pagar 50% do salário enquanto durar o isolamento/distanciamento (como faz a Argentina atualmente); *impor diretrizes de isolamento/distanciamento mínimas e claras que valeriam para todo o território nacional (uma possibilidade seria criar zonas de infecção/desinfecção de acordo com a curva de infecção e ocupação de leitos em UTIs de cada zona, algo parecido com o que a Coreia do Sul e a Alemanha estão fazendo) e *dispor uma RBU ( renda básica universal) para todos os cidadãos brasileiros, sem necessidade de pedido de auxilio (eu ainda não recebi resposta do meu pedido, por exemplo) e que fosse ampla a irrestrita (isso nenhum pais fez, ainda).Ainda no campo das ações econômicas, o governo vai precisar financiar o país e sua economia quando a pandemia passar. Vai ser necessária uma ampla rede de sustentação social — com renda, empregos, saúde e segurança — para apenas manter o Brasil que tínhamos antes da pandemia. Fazer isso passa pela revogação de uma série de medidas que o governo anterior e o atual tomaram em relação ao orçamento da União (principalmente: teto de gastos, flexibilização da CLT, reforma da previdência) que visavam na época “desestatizar” o país e seguir uma cartilha ultraliberal. O que vemos hoje, inclusive, é consequência dessa cartilha que retirou dinheiro do SUS, das universidades, dos servidores públicos (demitindo e fazendo planos de demissão voluntária) e das agências pelo interior do Brasil (por exemplo, hoje, mesmo que o governo quisesse mapear zonas de infecção ele não poderia porque com o fechamento de várias agências sanitárias e com o fim programa Mais Médicos, que visava exatamente atenção primária e medicina social, o governo perdeu “tracking” da população pobre do interior do Brasil). Ou seja, mesmo que o Estado quisesse se voltar o Estado de Bem Estar da social-democracia que ensaiamos no governo do PT, não temos mais como porque ele foi desmantelado nos anos Temer e Bolsonaro a ponto de estar, em alguns locais, completamente congelado por conta da falta de dinheiro imposta pelas medidas restritivas do Paulo Guedes e do teto de gastos do Temer.Conclusão: eu acredito que agora precisamos apenas sobreviver como dá. Sério. O Brasil entrou, ao que tudo indica, na curva ascendente de infecção e óbitos. Teremos, provavelmente, 30 dias de muitas mortes (batendo mais de 1000/dia) e muitos casos lotando os hospitais. Vão ser dias de valas comum, caos sanitário e funerário e uma bombardeio de notícias falsas sobre tratamentos milagrosos, médicos que depõe contra a China/EUA/Brasil, médicos que estão escondendo a cura, vacinas que foram feitas mas só a China tem etc. Sobreviver aos próximos 30/45 dias é o que as pessoas devem fazer.Depois, o próximo passo, é combater a agenda liberal do governo através, principalmente, da campanha municipal desse ano. A rede de privatizações segue a todo o vapor e entre as muitas agências, autarquias e órgãos a serem vendidos estão hospitais (como o Conceição e o HCPA em Porto Alegre), agências alimentares (como a CONAB), entidades que definem a nossa vida e nossos dados (como a DATAPREV) e tantas outras. Precisamos, como sociedade, barrar a ideia liberal do país e mandar embora o atual ministro, sem isso só teremos caos no futuro.O terceiro passo, depois de sobreviver e responder ao ataque liberal, é com certeza criar uma memória nas pessoas. Quem votou no Bolsonaro não poderá, jamais, se eximir da culpa dessas mortes. Precisaremos tratar os eleitores do Bolsonaro como a Alemanha trata os neonazistas e tratou os nazistas. O peso da história precisa estar eternamente sobre os ombros dessas pessoas. Elas tem as mãos sujas de sangue tanto quanto o clã Bolsonaro. É pesado dizer isso, claro, mas é a única forma de tentarmos evitar que algo parecido ocorra num futuro próximo. E digo isso porque a ditadura civil-militar teve amplo apoio popular e depois, passados os horrores dos atos institucionais, as pessoas que apoiaram os militares viveram suas vidas como se nada tivera ocorrido. Isso não pode se repetir. Todas as pessoas, de todas as classes socioeconômicas, precisam sentir em si o peso dessas mortes, dessas pessoas com problemas pulmonares pelo resto da vida, da economia exterminada. De tudo. Elas elegerem o “Messias” que fez isso, elas devem pagar eternamente.Eu tenho plena consciência do peso da minha afirmação, mas ainda acho ela necessária porque, mesmo essas pessoas mais pobres e trabalhadores, são responsáveis pela eleição do Bolsonaro e, no meu entendimento (beirando Skinner) se eles não foram responsabilizados agora, nessa tragédia, muitos vão cometer os mesmos erros daqui 20/25 anos ao votar.Ou pior, quando os netos perguntarem sobre esse tempo terrível do Brasil, eles vão dizer “era isso ou o golpe do PT”. Isso já rolou com o plano Cohen do Vargas e com a demonização do Jango pela junta militar.Pra mim, o Brasil sempre suaviza a “culpa dos comuns” na sua história e por isso mesmo está fadado a incorrer nos mesmos erros de tempos em tempos. Não é transformar a pessoa em monstro mas responsabilizar ela pelo seu ato máximo de colocar um presidente que beira do genocida ocupando o cargo mais alto do país e mandando milhares de pessoas pra morte por conta de caprichos políticos e valores (ultra)capitalistas.PS: o mesmo está ocorrendo nos EUA, com empresários como o Elon Musk pedindo “ freedom” no Twitter, porque liberdade, pra ele, é mandar os seus trabalhadores pras fábricas para montar carros para ricos e ele ficar ainda mais rico.PS1: também estão rolando diversos protestos pela volta ao trabalho, mesmo com mais de 1 milhão de casos e mais de 60 mil mortes. Essas pessoas, aqui e lá, são comuns e responsáveis diretas por essas mortes.Esse vídeo mostra muito bem isso:https://streamable.com/sizn2f