layout: post title: O novo coronavírus criará uma sociedade mais progressista ou (ainda) mais distópica? tags:

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  • Traduções —Tradução do artigo “Will the Coronavirus Create a More Progressive Society or a More Dystopian One?” da New Yorker.As paralisações por coronavírus foram um benefício econômico para um punhado de gigantes da tecnologia cujo poder monopolista já era uma grande preocupação. Fotografia de Peter van Agtmael/Magnum.Por John Cassidy| 1 de maio de 2020Um dos poucos consolos da pandemia do novo coronavírus é a possibilidade de que ela nos leve a algumas mudanças ideologicamente mais progressivas na economia e na política. Em todos os dias dessa crise caminhamos para a necessidade de discutirmos um sistema de assistência universal à saúde, um governo competente e um tratamento melhor para os membros da classe trabalhadora — como enfermeiros, trabalhadores em trânsito, balconistas e funcionários de fábricas de processamento de alimentos — cuja enorme contribuição para a sociedade foi, finalmente, mostrado à sociedade. Há cerca de um mês, notei alguns sinais encorajadores para os progressistas, tais como as rápidas mudanças no Congresso para expandir as licenças médicas pagas, um aumento no nível de benefícios de seguro desemprego e um maior apoio financeiro para pequenas empresas. Mas, nas últimas semanas, também houveram desenvolvimentos preocupantes, como mais de trinta milhões de pessoas sendo demitidas ou licenciadas, enquanto isso vemos Donald Trump ordenando que os trabalhadores das fábricas de processamento de carne continuem trabalhando, independentemente dos riscos à saúde que enfrentam.Essas discussões levantam algumas questões alarmantes: e se o vírus acabar beneficiando a grande e poderosa elite capitalista, acentuando a desigualdade e aumentando o extremismo populista? E se for uma força para a distopia e não para o progresso social?Vamos começar com a economia. Até agora, os grandes vencedores das paralisaçõesdo COVID-19 são um punhado de gigantes da tecnologia cujo poder monopolista já era uma grande preocupação antes da pandemia. Enquanto empresas da velha economia como Hertz, J. Crew e AMC Theatres flertam com a falência, Alphabet (empresa controladora do Google), Amazon, Apple, Facebook e Microsoft acabam de relatar que suas receitas gerais aumentaram durante o primeiro trimestre de 2020. As receitas do Facebook aumentaram dezoito por cento, com pessoas localizadas em todo o lado reunindo-se em seus serviços.>Na Itália . . . temos visto até setenta por cento mais tempo gasto em todos os nossos aplicativos. […] As visualizações do Instagram e do Facebook Live dobraram em uma semana. E também vimos o tempo e as videochamadas em grupo aumentarem mais de mil por cento em relação a março”.

    Mark Zuckerberg, fundador, presidente e executivo-chefe do Facebook em teleconferência com analista de mercado em Wall Street . Zuckerberg disse que não espera que esse enorme aumento seja sustentado quando a pandemia recuar e as economias reabrirem. “Mas em algumas áreas”, ele continuou, “Eu acho que nós estamos vendo uma aceleração nas tendências a longo prazo, como o aumento dramático na comunicação social privada on-line que é provável que continue”,>“Não há como voltar atrás, por exemplo, em telemedicina. […] Se você observar até o que aconteceu nesta primeira fase, com os robôs de IA ativando a triagem de telemedicina. Acho que isso vai mudar a aparência dos resultados da assistência médica. A mesma coisa na educação”. Satya Nadella, diretor executivo da Microsoft, durante a teleconferência de resultados da Microsoft. Nesse novo “mundo remoto” — para emprestar a frase de Nadella — os padrões de trabalho serão diferentes, os gigantes da tecnologia terão canibalizado mais negócios offline e serão ainda mais dominantes do que eram antes. É o que o mercado de ações está nos dizendo, de qualquer maneira. Como muitas outras ações estagnaram durante a pandemia, as ações de tecnologia mantiveram-se notavelmente bem. De fato, cinco delas — Alphabet, Amazon, Apple, Facebook e Microsoft — agora representam mais de vinte por cento de todo o índice S&P ​​500.E os trabalhadores? Para aqueles com as habilidades técnicas necessárias, o futuro parece brilhante. Zuckerberg disse que o Facebook pretende contratar pelo menos dez mil pessoas para cargos de engenharia e desenvolvimento de produtos. Mas para as dezenas de milhões de americanos que perderam o emprego nos últimos dois meses, a perspectiva é menos ensolarada. Quando a economia reabrir, a maioria provavelmente retornará ao trabalho, mas muitas não. De acordo com a última previsão do Fundo Monetário Internacional , a taxa de desemprego deve atingir em média 9% em 2021. Em fevereiro, antes do início das paralisações, era de 3,5%.Para os trabalhadores demitidos ou sem licença que conseguiram navegar em um sistema de reivindicações de desemprego represados, a expansão dos benefícios de desemprego, que foi incluída no recente estímulo federal, conhecido como Lei CARES, atenuou o golpe até agora. Contudo, Lindsey Graham e outros senadores republicanos deixaram claro que não pretendem estender essa expansão para além de julho, o que significa que as pessoas que ainda estão desempregadas até então — e provavelmente haverá dezenas de milhões delas — enfrentarão imensas dificuldades. Antes do Congresso aumentar o nível de subsídios de seguro desemprego, os pagamentos eram em média de quatrocentos dólares por semana em todo o país, de acordo com o Center on Budget and Policy Priorities. Imagine tentar criar uma família, ou mesmo se sustentar, com essa quantia.As pessoas que voltaram ao trabalho estão em melhor situação. Mas com um número tão grande de trabalhadores sem emprego, o modesto aumento nos salários que vimos nos últimos anos pode muito bem ser revertido. Como as empresas lutam para encontrar trabalhadores suficientes, elas são forçadas a aumentar os salários. Esse mercado de trabalho apertado agora é coisa do passado. Por sua vez, isso sugere que a desigualdade de renda, que, nas últimas décadas, subiu para níveis nunca vistos desde os anos 1900, permanecerá nesses níveis ou possivelmente aumentará ainda mais.Certamente, esse resultado não é inevitável. Após as dolorosas experiências da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e outros países ocidentais desfrutaram cerca de três décadas de crescimento equitativo, nas quais os salários aumentaram amplamente e a desigualdade caiu. Mas isso exigiu uma mudança de regime na política econômica, que incluiu um compromisso com o pleno emprego, mais gastos governamentais em programas sociais, fortalecimento dos sindicatos, restrições ao setor financeiro e taxas mais altas, especialmente no topo.O que provocou essas mudanças não foi uma mudança repentina de coração por parte da “comunidade empresarial” ou do Partido Republicano. Havia pressão de baixo na forma de mobilização política, ativismo trabalhista e demandas populares por mudança, combinadas com novas ideias sobre como organizar a economia. Em meio a todo esse fermento trabalhista, políticos social-democratas talentosos como FDR, Clement Attlee e Per Albin Hansson formaram coalizões de eleitores para apoiar reformas de longo alcance que duraram décadas. Se quisermos criar uma economia mais justa ao sair da pandemia, precisaremos de uma onda semelhante de mobilização e ousadia política.Uma virada progressiva é certamente possível, mas sua antítese também: um aumento adicional no populismo de direita e o fortalecimento de forças antidemocráticas. A edição da semana passada da The Economistpublicou um artigo alarmante sobre como, em muitos lugares, líderes autoritários estão explorando a pandemia para seus próprios fins. Em países como Hungria, Turquia e Camboja, o COVID -19 “está criando oportunidades para autocratas e futurosautocratas para reforçar suas garras, intimidar seus oponentes e expandir o estado de vigilância”.A China prendeu ativistas pró democracia em Hong Kong, informou a The Economist; e a Rússia está considerando um esquema no qual todos no país teriam que se registrar em um site do governo e acompanhar todos os seus movimentos.Felizmente, nosso próprio aspirante a homem forte também é um viciado em televisão a cabo, cuja reivindicação de possuir “poder absoluto” para ordenar a reabertura da economia americana foi amplamente ridicularizada. Mas mesmo um demagogo desastrado pode ser perigoso. Duas semanas atrás, Trump twittou : “LIBERATE MICHIGAN!” (“LIBERTEM O MICHIGAN!”) — uma referência aparente às ordens de ficar em casa do estado. Na quinta-feira, grupos de manifestantes, alguns deles fortemente armados, apareceram no edifício da capital do estado, em Lansing. Na sexta-feira, Trump, em outro tweet, instou o governador de Michigan, Gretchen Whitmer, a conversar com os manifestantes e os descreveu como “pessoas muito boas”.As pessoas que protestam são uma pequena minoria: pesquisas de opinião mostram que a maioria dos americanos ainda apoia as medidas de emergência que os estados introduziram. Mas as cenas de Michigan são mais uma indicação de que não podemos assumir automaticamente que as coisas vão ficar melhores depois que o vírus acabar. Simplesmente esperar que as coisas se movam em uma direção progressista quando o isolamento terminar não é suficiente. Criar uma economia mais justa e inclusiva é um trabalho árduo e inevitavelmente encontrará resistência. Concentrações de poder econômico precisam ser confrontadas. Os direitos dos trabalhadores e o poder de barganha precisam ser ampliados. As liberdades democráticas precisam ser protegidas. Os demagogos precisam ser derrotados, durante as pandemias mais do que nunca.** John Cassidyé escritor da equipe do The New Yorker desde 1995. Ele também escreve umacoluna sobre política, economia e muito maispara o newyorker.com.