O que hoje chamamos de cultura pop são as manifestações infanto-juvenis de baixa cultura — acessível intelectualmente e economicamente — que servem de auxilio aos jovens na sua formação de caráter e no entendimento, através de metáforas, do seu entorno.X-Men não é sobre mutantes de fato. Ou melhor, é. Mas é sobre todos os “mutantes” da nossa sociedade, aquelas pessoas que não se encaixam nos padrões usuais sociais e econômicos. São pessoas com “super poderes” que não conseguem se encaixar na sociedade porque a sociedade não os aceita. Eles são os homossexuais, os imigrantes; enfim, as minorias. Se você não entendeu isso quando leu as histórias ou assistiu aos filmes, você só se concentrou nas explosões.A frase famosa “paz nunca foi uma opção” que o Magneto profere quando decide que os outros (os iguais) são inimigos pra sempre e nunca irão aceita-los é uma referência direta ao movimento dos direitos civis dos EUA nos 50 e 60. Quando o Pantera Negra diz que Wakanda precisa se proteger do mundo se fechando é uma clara indicação ao imperialismo europeu no continente. Stan Lee nunca escondeu essas referências, os nerds é que são burros demais pra entender e a indústria do cinema depende deles pra ganhar dinheiro, dizem.Mas, acima de tudo, a Marvel criou um personagem que tem em sua iconografia uma das mais copiadas pelos movimentos de ultradireita. O Justiceiro (Punisher) sempre foi uma pesada crítica à máquina de guerra norte-americana. Um soldado, veterano de guerra, que tem sua família assassinada na sua frente, dentro de casa, apenas por negar-se a continuar matando “em nome da democracia”. A caveira, derivada dos exércitos romanos, simboliza exatamente o medo que nada entre eles próprios. Seus inimigos são os militares e mercenários do governo norte-americano. Sua luta, interna e externa, é contra os fantasmas criados pela guerra que ele foi obrigado a lutar. Seu país lhe abandona e acaba com a sua vida em nome de um jogo democrático que não existe.Esse personagem deveria ser odiado pela ultradireita mundial. Mas não é. Frank Castle, o bandido como a maioria dos outros personagens desse universo o chama, é exatamente o efeito colateral das medidas que esse grupo político defende. Quando seu amigo mantém um grupo de veteranos, todos destruídos mentalmente e financeiramente, ele está criticando diretamente o orçamento de guerra quase trilionário dos EUA e a intervenção assassina em diversos locais ao longo das décadas. Quando Frank Castle se esconde, ele não se esconde dos “marginais” da sociedade, ele se esconde do seu próprio país.Ele não é um patriota, um soldado ou um combatente da moral e da ordem. Ele é um agente caótico criado pelo governo em nome do interesse financeiro, fruto de tortura e mortes. Ele não é um símbolo da disciplina, ele é uma constante lembrança do que os EUA fazem no resto do mundo, da máquina de guerra que foi criada a partir da segunda guerra e, com a queda da URSS, ficou órfã de inimigos e, assim, passou a fabricar novos inimigos.Talvez seja exatamente esse o ponto: as pessoas que hoje usam esse símbolo para justificar uma política armamentista estatal, o fim dos direitos humanos e a morte de políticos de oposição à essa política norte-americana de expansão e morte estão se colocando no lugar do personagem como figura do “homem” que eles queriam ser. São homens de meia-idade ou jovens, de classe média e que nunca deram um tiro na vida, nunca tiraram uma arma do coldre fora do estande de tiro e, provavelmente, nunca estiveram frente-a-frente com a guerra de verdade. Seus amigos não morreram de fome na periferia ou baleados pela PM por serem negros. São, essencialmente, filhos de uma classe abastadas que tem delírios sobre uma masculinidade tóxica e violenta que se espelha na caricatura do personagem nas telas e páginas da Marvel. Eles queriam ser Frank Castle, batendo em supostos bandidos sem pensar duas vezes, “limpando” o país dos párias; párias como o próprio Frank Castle.Frank Castle provavelmente estaria do lado da Marielle Franco e não dos políticos que quebraram a placa com o nome dela.Por isso quando você vê os defensores do atual governo brasileiro — ou norte-americano — usando o símbolo desse personagem em um protesto que visava falar sobre a morte de uma vereadora defensora da humanidade das policias do RJ, você pode ter certeza que eles estão fazendo uma leitura errada do que a caveira significa.E não sou eu que estou dizendo, o próprio criador do personagem, Gerry Conway, que diz isso com todas as letras (grifos meus):>Pra mim é perturbador sempre que eu vejo figuras de autoridade se apropriando da iconografia do Justiceiro pois oJusticeiro representa o fracasso do sistema de Justiça. Ele é feito para mostrar o colapso moral da autoridade social e a realidade que algumas pessoas não podem depender da atuação de instituições como a polícia ou os militares de uma maneira justa e capaz.

O anti-herói vigilante é, fundamentalmente, uma crítica ao sistema judicial, um exemplo de falha da sociedade , então quando policiais colocam caveiras do Justiceiro nos carros, ou quando militares usampatches da caveira do Justiceiro, eles estão basicamente se aliando a um inimigo do sistema. Eles estão aderindo a uma mentalidade de fora-da-lei. Não importa se você acredite que o Justiceiro tem motivos ou não, se você admira o código de ética dele, ele é um fora-da-lei. Ele é um criminoso. A polícia não deveria usar um criminoso como seu símbolo. E mais além, na edição 13 da revista ele diz para dois policiais, depois que estes o abordam mostrando o icônico símbolo na viatura dos matadores:>Eu vou dizer isso uma vez. Nós não somos iguais. Vocês juraram obedecer a lei. Vocês ajudam pessoas, eu desisti de tudo isso há muito tempo. Vocês não fazem o que eu faço, ninguém faz. Vocês precisam de um modelo para seguir? O nome dele é Capitão América e ele vai ficar feliz em receber vocês. Resumo de tudo isso?

Eles não entenderam nada.