Quando as pessoas falam de abandonwareou de nostalgia gamer, normalmente, estão falando de jogos bons como Civilization I, algum dos três Super Mario da era clássica ou jogos como Doom, Duke Nuken 3D e Wolf3D.Mas apartados desse universo de boas referências existe um mundo inteiro de produções mal feitas, com mecânicas de jogos complicadas e mal implementadas, muita captura de movimento usando FMV e limitações de hardware que eram ignoradas.Aqui no Brasil uma das grandes fomentadoras desse tipo de jogo ruim era a CDGamer/PCExpert que sempre trazia um CD com um jogo completo e um CD com várias demos de jogos diversos.Revirando a memória e ignorando momento afetivos que venham a surgir em meio aos jogos, eu separei 4 jogos clássicos dessa era de merda: dois nacionais (Incidente em Varginha e e Noite Animal) e dois estrangeiros (William Shatner’s Tekwar e Corridor 7) para deslumbrar todo mundo que nunca viu como era a vida nos anos 90.###Incidente em Varginha Obviamente baseado no clássico evento ufológico brasileiro (o Rosswell do Brasil) o jogo já chegou datada na época em que foi lançado. Usando o sistema a de “arenas” com grandes espaços abertos sem nenhum tipo de objeto para interação (não existia memória de vídeo para colocar mais do que uma casa pré-renderizada, por exemplo), com personagens sem movimento, baseados em sprites 2D dentro de um ambiente 3D (o jogo é um FPS que deveria ser labiríntico no estilo Doom).Claro que deu absurdamente errado (desde a perseguição inicial, onde uma nave espacial faz um drift no ar enquanto é perseguida por dois caças da FAB nos céus de MG) e hoje o jogo é considerado uma diversão do modo mais pós-moderno possível, na mesma medida em que “The Room” faz sucesso na internet.###Noite Animal Eu confesso que na época eu era, realmente, um fã do Casseta e Planeta. O programa humorístico da Globo era quase um fenômeno nacional e angariava legiões de adolescentes que riam de piadas sobre punheta e esperava para ver o decote da Maria Paula.Mas nada disso explica o jogo “Noite Animal”. A premissa do jogo é que está rolando uma festa louca em algum lugar da cidade onde todo mundo tá comendo alguém, menos você, que está em casa batendo uma no quarto (decorado com posteres de mulheres peladas e um PC dos anos 90).Nada no jogo faz sentido. Você pode ser comido por uma planta carnívora ou ser pego pelo gato na sala e, nada disso tem uma lógica (sequer interna) que lhe faça saber onde ir ou o que pegar. É, a priori, um point-and-clickcom puzzles e mini-games de teor sexual duvidoso.Os gráficos, como Incidente em Varginha, já era datados na época. A ideia de fazer diversas colagens de fotos reais e animá-las porcamente parece boa pra um jogo de humor, o problema é que, depois de 4 minutos, nada disso mais tem graça e você está preso dentro de casa ainda (sem saber como pegar a chave da Ferrari do seu pai no quarto dele). A “run” de Noite Animal deve durar menos de 20 minutos se você fizer tudo certo de primeira.Em 2017 o pessoal do Jogabilidade fez uma live jogando Noite Animal.E se você quiser saber mais sobre como o jogo foi feito, em 2017 ainda teve um Dash sobre o desenvolvimento do jogo: http://jogabilida.de/2017/04/dash-80/###William Shatner’s Tekwar Na época o nome do William Shatner vendia qualquer coisa. E esse jogo é a prova de duas coisas: i) William Shatner aceitava fazer qualquer coisa por dinheiro e ii) o nome dele vendia qualquer coisa. Até sabonetes.Reza a lenda que foi prometido ao próprio Shatner uma grande experiência com gráficos de última geração e um RPG imersivo que iria vender milhões.Nada disso aconteceu, claro, e o que foi lançado é um jogo sem mecânica definida — em alguns momentos ele é um RPG, em outros um puzzle e em um terceiro momento ele é apenas um shooter com personagens capturados via FMV e que contam com duas animações (andas e tomar tiro). A prova mais cabal, contudo, de que o jogo saiu dos trilhos e foi lançado de qualquer modo é que na HUD do jogo existe uma barra amarela chamada apenas de “C” e que nunca é usada em todo o jogo. Ela nunca sai de 100%. Você anda de trem, estoura vitrines em um mundo futurista mal feito e mata mulheres com roupas de latex de gosto de duvidoso. Mesmo assim, a “barra C” segue inalterada.A história do jogo segue sendo um mistério pra mim. Eu só consigo determinar que estamos no futuro por causa das armas de laser e das roupas apertadas dos inimigos ao longo dos corredores infinitos (literalmente). As inserções do próprio Shatner durando o jogo servem para explicar, mais ou menos, o que você deve fazer nos níveis (acessíveis pelo metrô) e dá o tom de produção thrash.###Corridor 7 Sendo honesto com o que eu falei até aqui, Corridor 7 é o melhor desses 4 jogos e está guardado em um lugar especial da minha memória. É o mais antigo (1994) e o que se usa melhor da engine criada para Wolf3D. Os corredores são relativamente bem pensados, ainda que seja muito fácil se perder em todos eles porque, basicamente, todos eles são muito iguais.São poucos inimigos, poucas armas e longos e entediantes corredores e andares para você andar e conseguir chegar no próximo elevador (não entendo porque ele não usa o mesmo sempre, uma vez que a missão do jogo é, exatamente, descer até o último andar).Não existe muito o que fazer no jogo, ele é curto (~20 minutos) e tudo o que você tem que fazer é perambular pelos corredores, achar a chave certa pra abrir o elevador e atirar nos monstros que surgem no meio do caminho (e eles são muito poucos). A maioria do tempo desse jogo é gasto andando por corredores e andares iguais. Tudo rodando à 10 fps, quando muito.E sim, esse continua sendo o melhor dos 4 jogos listados.Claro que em todos existe um grande componente de nostalgia, não apenas em mim, mas em todos os que jogaram esses jogos terríveis nos anos 90. Mas, mais do que isso, a criação desses jogos nos mostra como bons gráficos são algo essencial, claro, mas o que realmente torna um jogo bom é sua capacidade de criar um ambiente imersivo e minimamente crível com a história que está sendo contada.São as histórias vendem, os gráficos servem apenas para melhorar a história.