Durante anos muitos jogadores venezuelanos têm ganhado a vida jogando RuneScape de forma escrava.

Por Mat Ombler 27 de maio de 2020 com ilustrações de Sonny Ross para a Polygon

A Venezuela costumava ser um dos países mais ricos da América do Sul, contudo passou os últimos 10 anos envolvida em uma crise política e econômica. O que começou como o desmoronamento gradual da economia do país em 2010 se transformou em uma avalanche devastadora de crime, corrupção e fome em massa que acabou deixando milhões de pessoas no país incapazes de se alimentar ou acessar suprimentos médicos básicos. Noventa por cento dos venezuelanos agora vivem na pobreza em um dos períodos mais extremos e sustentados de hiperinflação já registrados. Isso, atualmente, significa que as pessoas que trabalham ganhando um salário mínimo estão ganhando o equivalente a $5 por mês.Contra esse cenário econômico e social cataclísmico, milhões de pessoas fugiram do país em busca de vidas melhores, com muitos tentando desesperadamente encontrar seus próprios meios de fuga. Em novembro de 2019, o número de refugiados e migrantes venezuelanos atingiu 3 milhões.

Aqueles que permanecem no país se veem forçados a encontrar maneiras inovadoras de sobreviver. Enquanto alguns fazem malas com os bolívares inúteis — moeda venezuelana — para vender nos mercados, outros buscam uma terra virtual de oportunidades, passando horas na frente de telas de computador e telefones celulares caçando dragões verdes no RPG RuneScape.>OBS: existem duas versões principais do jogo: RuneScape 3 e Old School RuneScape (OSRS). A OSRS é a versão mais antiga e popular, preferida pelos jogadores venezuelanos de RuneScape pois é mais fácil de executar e não usa muitos dados. No restante desta história, quando nos referirmos ao RuneScape, estaremos nos referindo ao OSRS.

RuneScape foi lançado originalmente em 2001 pela desenvolvedora britânica Jagex, mas foi apenas nos últimos quatro anos que um número crescente de venezuelanos começou a depender do jogo como sua principal fonte de renda. Um desses jogadores é o ex-contador Martinez, que solicitou que seu sobrenome não fosse publicado para proteger sua conta de RuneScape. Martinez deixou o emprego depois que a taxa de inflação do bolívar corroeu sua renda a tal ponto que ele não podia mais sobreviver com o dinheiro que estava ganhando.“Com o tempo, meu salário chegou a menos de $4 [por mês] e eu simplesmente não podia comprar mais nada com isso, então decidi tentar um jogo que meu vizinho estava me dizendo para jogar por dinheiro”, escreve ele ao Polygon através do Discord.

RuneScape foi uma tábua de salvação para Martinez e toda a sua família. Ele diz à Polygon que ganhou $450 para farmar outro em RuneScape e que usou esse dinheiro para fugir da Venezuela e se mudar para o Peru. Ele continuou a jogar e economizou outros $1000 que ele usou para tirar sua mãe e namorada do país.“RuneScape é uma maneira popular de ganhar dinheiro hoje em dia”, escreve Martinez. “Dependendo de qual estado da Venezuela você está, praticamente todo mundo sabe sobre o jogo”.

A atividade de “farmar”, ou melhor, de “farmar ouro”, como é mais conhecida, envolve jogar o jogo com o objetivo específico de acumular grandes quantidades de moeda (neste caso, o ouro de RuneScape) para vender com lucro fora do jogo. Não é novidade nenhuma, mas tornou-se uma atividade mais acentuada à medida em que a infraestrutura da Venezuela não conseguiu mais funcionar direito nos últimos anos. Todos os jogadores venezuelanos com quem conversamos para essa história nos disseram que vendem seu ouro por dólares americanos ou criptomoedas como bitcoin, o que significa que seu trabalho duro não é comprometido pela hiperinflação de sua própria moeda, o bolívar venezuelano.Eles também não tem problemas para encontrar lugares para gastar o dinheiro que ganham — um estudo recente estimou que 54% das transações na Venezuela em outubro passado foram realizadas em dólares americanos.

“Não posso falar pelos meus amigos, mas, para mim, sem OSRS, minha família passaria fome”, explica Martinez.“Conheço pessoalmente muitas pessoas que deixaram o país graças ao OSRS e ainda conheço pessoas tentando fazê-lo”, continua ele. “Eu diria que quase todos os jovens que tiveram a chance de deixar o país já o fizeram — provavelmente através do OSRS ou de outros meios.As coisas estão ficando cada vez piores com o tempo. Eu ainda tenho minha irmã e sobrinhos por lá — você não pode ter um emprego normal e uma enorme quantidade de famílias vive do dinheiro que seus expatriados lhes enviam”.

Há muitos sites on-line especializados na compra e venda de mercadorias de RuneScape. É um mercado ferozmente competitivo, com vários sites usando o Google Adsense para aparecer nos primeiros resultados das listagens de pesquisa. No momento da redação deste artigo, 1 milhão de ouro de RuneScape é vendido por 63 centavos.

NENHUM MÉTODO DE FARMAR DE OURO É IGUAL

Christian Alejandro é um estudante universitário de engenharia geológica que não gasta seu tempo livre em compromissos escolares, pelo contrário, ele geralmente passa 10 horas por dia, upando as suas contas de RuneScape na “Zona do Pesadelo”, um minijogo baseado em combate que ocorre dentro do jogo principal. Isso permite que ele aprimore rapidamente as habilidades de combate das contas que ele está jogando, que, uma vez altas o suficiente, são vendidas em dólares americanos a outros jogadores. Ele recebe uma taxa horária para fazer isso e ganha $100–150 por mês.Alejandro conseguiu esse bico fazendo uma postagem no Reddit pedindo por trabalho.“Tive a sorte de encontrar alguém para me dar esse bico!” ele explica via Discord.“Os que estão tentando viver com o salário mínimo passam muito mal e há muitas famílias [na Venezuela] que comem apenas uma vez por dia.“RuneScape, em poucas palavras, é o meu trabalho. Eu ganho mais de $100 por mês”, continua Alejandro.

“É uma quantidade considerável — não é suficiente — mas pelo menos você sobrevive com isso. Sem o RuneScape, eu não teria como ganhar essa quantia de dinheiro. O jogo é popular entre muitos venezuelanos, pois dá um bom lucro por mês”.Alejandro não é o único jogador com quem conversamos que recebeu trabalho de outros jogadores online.Um jogador de 23 anos, que nos disse que falaria apenas se lhe fosse concedido anonimato, pois acredita que se pronunciar contra o governo venezuelano poderia levá-lo a ser atacado.Vamos então chamá-lo de Perez.

“Vi avisos sobre postar coisas que podem prejudicar a imagem do governo”, explica ele no Discord.“Eles censuraram toda a mídia — canais de TV e jornais”.Três anos atrás, Perez era um estudante universitário que vivia em casa com seus pais e estava lutando para colocar comida na mesa. Ele nos diz que seus pais ganham o equivalente a “dois pães” por mês. Desesperado para melhorar a vida que ele e sua família estavam vivendo, Perez começou a pesquisar no Google maneiras de ganhar dinheiro online.“A primeira coisa que fiz foi assinar o sub r/slavelabour.

Fiz vários bicos e ganhei meus primeiros $100 um mês depois de me inscrever. Isso nos ajudou muito, pois meus pais estavam ganhando apenas $10 por mês cada, mas após esse mês de sorte, as coisas não correram bem”, ele escreve.O valor do bolívar venezuelano estava ficando cada vez menor devido à hiperinflação, o que significava que a competição pelo trabalho on-line em fóruns como o Reddit estava aumentando. Perez teve a sua sorte mudada quando descobriu um tópico de um jogador de RuneScape que estava procurando pessoas para jogar por dinheiro.

“Eu enviei uma mensagem privada a ele e, como cumpri todos os requisitos, que era de que eu deveria estar online pelo menos seis horas por dia”, escreve Perez “ele me ensinou o que fazer e como fazê-lo. Meu primeiro ‘trabalho’ foi derreter barras de runite na fornalha. Eu ganhava quase 75 centavos de dólar por hora, mais de $150 por mês”.

Perez agora ganha entre $200 e $300 por mês, completando “pedidos” para outros jogadores, o que envolve a realização de trabalhos específicos em suas contas. Ele trabalha entre cinco e sete dias por semana, durante pelo menos oito horas por dia.“Minha vida mudou inesperadamente”, escreve Perez. “Estou meio deprimido. Sinto muita falta da faculdade e não estou nem perto de onde quero estar na vida”.

Apesar desse mercado próspero, o comércio real de mercadorias dentro de RuneScape é estritamente contra os termos e condições do jogo. É uma questão que a Jagex, criadora do jogo, trabalha para resolver há vários anos. Em 2013, o então CEO Mark Gerhard disse que algo entre 40% e 50% da base de jogadores ativos do jogo, em qualquer mês do ano, comprava ouro dos “farmadores”.

A Jagex bane qualquer jogador que se suspeite estar infringindo as regras, mas esse é um risco que muitos jogadores venezuelanos estão dispostos a assumir. Muitos desses farmadores têm várias contas: suas contas principais, onde jogam legitimamente, e contas para farmar, que são contas usadas exclusivamente para ganhar dinheiro e que podem ser banidas a qualquer momento do jogo.Com uma demanda tão alta por ouro, muitos jogadores de RuneScape de fora da Venezuela acreditam que certos aspectos da interatividade agora são governados pelo ouro farmado pelos venezuelanos. A economia dentro de RuneScape é como qualquer outra economia, ou seja, ela é fortemente influenciada pela escassez; e o número crescente de pessoas que farmam ouro e itens dentro de RuneScape está afetando os preços de vários itens diferentes. A extensão desse impacto tornou-se aparente quando a crise na Venezuela atingiu um novo nível no início do ano passado.

COMO A CRISE ECONÔMICA NA VENEZUELA CAUSOU UMA CRISE ECONÔMICA EM RUNESCAPE

Em março de 2019 a rede elétrica da Venezuela entrou em colapso e todo o país foi atingido por uma rápida sucessão de apagões, deixando milhões sem energia ou água. No seu auge, em março, esses apagões ocorriam quase que a cada hora durante uma semana. Os hospitais foram alguns dos piores lugares afetados.“Muita gente morreu por causa dos cortes de energia”, explica Martinez. Os problemas ainda estão afetando as pessoas hoje, e alguns acreditam que continuarão no futuro, até que a situação com o governo seja resolvida.“[As pessoas] não podem receber tratamentos básicos como diálise, e as condições dos hospitais são insanamente ruins”, acrescenta Martinez.Os cortes de energia se tornaram um grande problema para os jogadores venezuelanos que contam com o jogo como sua principal fonte de renda. Para Martinez, os cortes de energia foram a razão pela qual ele se afastou dos métodos tradicionais de farmar ouro e passou a treinar contas que ele pode vender em dólares americanos, afinal, uma desconexão repentina durante um combate poderia resultar na morte de seu personagem e na perda de todos os seus ganhos.“Quando a primeira onda de apagões começou tanto eu como os caras que trabalhavam comigo perdemos quase todo nosso dinheiro”, diz Martinez.“Os apagões ainda são regulares, mas não tanto quanto quando começaram”, continua ele. “Eles ainda podem afetá-lo por vários dias, dependendo da parte da Venezuela em que você vive”.

Perez também foi gravemente afetado pelos cortes de energia.“A falta de energia ainda é uma coisa diária e isso me irrita sempre”, escreve Perez. Ele foi, inclusive, desconectado regularmente de nossos bate-papos on-line.“Todos sabemos que o sistema de energia e todos os outros sistemas controlados pelo estado são uma bagunça”, continua Perez. “Um exemplo dessa falta de manutenção é o ISP estatal. Estamos conversando há alguns minutos e minha internet parou de funcionar três vezes até agora. Sistemas hidráulicos/de água também, isso quer dizer que se você não tem bombas de água, não tem água. Eu poderia continuar por muito tempo, honestamente”.

Quando essas quedas de energia ocorreram pela primeira vez, em março de 2019, elas causaram uma crise econômica dentro do jogo que impactou drasticamente os preços de itens de criação intensiva, como ossos de dragão, balanças de Zulrah e chinchompas pretos. Quando a escassez entrou em jogo, os jogadores descobriram rapidamente o que acontece com a economia de seus jogos quando você repentinamente remove uma grande proporção de jogadores do jogo.James Austen é o proprietário do GE Tracker, um site que analisa a economia virtual de RuneScape. Ele ficou surpreso com a quantidade de tráfego vindo da Venezuela.“Recebemos uma quantidade constante de tráfego no ge-tracker.com originário da Venezuela. Eles são o nosso oitavo país com mais acessos, o que sinceramente é muito mais alto do que eu pensava que eles estariam nesta lista”, diz Austen, explicando que o site recebeu tráfego de cerca de 17200 usuários únicos da Venezuela durante um período de seis meses em 2019.Austen diz que a economia em RuneScape geralmente é estável, mas pode ser derrubada com uma população tão grande de jogadores desaparecendo.“As recentes ondas de falta de energia na Venezuela tiveram um impacto direto no estado das matérias-primas e outros recursos altamente consumidos no jogo”, diz ele.O impacto que os jogadores venezuelanos estão tendo no jogo se tornou um problema a ponto de gerar uma divisão na comunidade de RuneScape. Os preços dos itens que são farmados pelos jogadores venezuelanos agora flutuam dramaticamente devido aos contínuos cortes de energia no país.Will Anema, que administra um canal popular do RuneScape no YouTube, não acredita que preços mais baixos sejam necessariamente uma coisa boa. Pelo contrário, ele acredita que a quantidade de gente farmando ouro está tendo um impacto negativo no jogo.“Eu não quero que o jogo que eu conheço e amo seja arruinado”, diz Anema.

“Toda a filosofia por trás de RuneScape está em alcançar objetivos”, continua ele. “Pense nisso desta maneira: Se levássemos tudo ao extremo e todos os melhores equipamentos e itens fossem realmente baratos — tão baratos que se eu comprasse ouro eu pudesse comprar todos os itens que quisesse -, o jogo seria quase sem sentido. Todo mundo teria tudo o que queria, e isso seria completamente contra o porquê de as pessoas jogarem o jogo. É por isso que acho que diminuir os preços porque você está vendendo muito ouro é algo se torna muito prejudicial [ao jogo]”.

Enquanto Anema é crítico das pessoas que farmam ouro em RuneScape, ao mesmo tempo ele acredita que há um nível de hipocrisia oculto por trás das críticas dirigidas aos jogadores venezuelanos, pois eles só podem fazer o que fazem devido à demanda por serviços de que vem de outros jogadores.“As pessoas que estão bravas com os venezuelanos por conta deles farmarem tanto ouro também precisam olhar para a comunidade e dizer: bem, só há tanta demanda aqui pela oferta dos venezuelanos porque uma tonelada de pessoas está comprando seu ouro”, continua Anema. “É um problema na comunidade também.”

A RESPOSTA DA COMUNIDADE

No Reddit, as discussões sobre a comunidade venezuelana de RuneScape atingiram um ponto de ebulição. Uma postagem — removida por um moderador — era um guia explicando como identificar e matar jogadores venezuelanos em uma área do jogo comumente usada para cultivar dragões verdes. Em outra, um jogador com o coração partido contou sua experiência com um jogador venezuelano que estava tentando fugir do país.Muita animosidade direcionada aos jogadores venezuelanos é proveniente de jogadores de RuneScape que passam seu tempo nas Cavernas Revenant localizadas nas partes selvagens do jogo, em uma área onde os jogadores podem atacar outros jogadores (PvP). As Cavernas Revenant são bastante populares entre aqueles que farmam ouro, principalmente entre os jogadores venezuelanos, que costumam jogar em grandes grupos ou clãs para caçar dragões verdes ou lutar contra outros jogadores. Alguns jogadores de RuneScape argumentam que isso tornou as Cavernas Revenant “impossíveis de jogar”.“[As] Cavernas Rev são a única coisa que me impede de ser compassivo com eles”, diz um usuário em uma resposta no Reddit sobre um tópico de RuneScape sobre jogadores venezuelanos. “Nada me frustra mais do que estar andando em qualquer local dessa região e ser atacado por um exército de bestas rúnicas e bandanas de cobra”.

“A Jagex precisa fazer algo com esses venezuelanos” , escreveu outro jogador, acrescentando: “Eu não me importo com a situação da vida real deles. Eles jogam o jogo apenas para ganho monetário e isso está arruinando a economia. Eles não oferecem nada ao jogo, eles não interagem dentro da comunidade”.

Enquanto alguns jogadores de RuneScape compartilham histórias sobre suas interações negativas com os venezuelanos, outros jogadores, como Pip Johnson, não são tão críticos a eles. De fato, Johnson simpatiza com a situação em que os jogadores venezuelanos se encontram e descreve seu encontro com um jogador venezuelano como “a primeira experiência genuína” que ele teve com outro jogador on-line há mais de 15 anos, depois de receber itens, presentes e conselhos sobre os melhores métodos para subir de nível.“Eu acho que o fato de a economia venezuelana estar em frangalhos é terrível, e não culpo ninguém por ganhar dinheiro da maneira que puder, independentemente de qualquer efeito que possa ter no jogo”, diz Johnson. “Qualquer um de nós faria o mesmo”, completa.Há um influxo de memes em sites como o Reddit que parodiam a situação em que os jogadores venezuelanos se encontraram. Johnson acredita que eles se tornaram um alvo fácil na comunidade de RuneScape para pessoas que procuram fazer piadas baratas às custas de outras pessoas.

“O anonimato traz à tona o pior das pessoas”, escreve Johnson.“Alguns jogadores pensam que os jogadores venezuelanos estão aproveitando o jogo para obter ganhos pessoais e que eles não deveriam fazer isso”, continua ele. “Também há muito racismo na comunidade de jogos online. Os venezuelanos são um alvo fácil, pois são muito comuns. A população deles no jogo se tornou um meme na comunidade e isso chama ainda mais atenção especificamente para eles”,O criador do polêmico post do Reddit, detalhando como matar jogadores venezuelanos dentro do jogo, e que deseja ser conhecido apenas como Sam, diz ao Polygon que seu post foi mal interpretado pelos leitores e que deveria ser apenas uma “piada sombria” comparando os jogadores venezuelanos de RuneScape a bots. Ele diz que ficou surpreso com a rapidez com que a discussão se transformou em uma enxurrada de comentários racistas.Perguntado se ele se sentia culpado por ver as respostas ao tópico e o impacto que incentivar os jogadores de RuneScape a atacar jogadores da Venezuela poderia ter nesse grupo, ele diz: “Quero dizer, se houvesse uma situação em que alguém perdesse quatro horas de trabalho, eu me sentiria absolutamente culpado. Deixe-me ser claro: Eu acredito [que] se eu ou alguém estamos fazendo isso e que isso realmente tivesse um impacto na vida das pessoas, nós nos sentiríamos culpados. Eu acho que o que assusta as pessoas é o potencial disso afetando as pessoas, embora isso não seja irreal”.

Sam observa que muitos venezuelanos jogam por diversão em vez de ouro — e muitos dos jogadores venezuelanos que falamos dizem o mesmo, que jogam por diversão ou lucram com o jogo jogando legitimamente, em vez de farmar ouro intensivamente. No entanto, esses jogadores desejam expressar suas preocupações sobre a animosidade que enfrentam regularmente e dizem que, embora estejam cientes de que farmar ouro seja contra os termos e condições de RuneScape, eles só estão jogando dessa maneira porque não têm outra escolha.“No Reddit, e em outros fóruns, eles dizem tantas coisas […] sobre os venezuelanos jogando RuneScape que eu parei de prestar atenção neles”, diz Alejandro. “Muitas pessoas não sabem por que farmamos ouro no jogo; eles acham que fazemos isso como um hobby e não imaginam a verdadeira razão por que fazemos isso”.“Também há muitas pessoas dando apoio”, continua Alejandro. “Eu realmente aprecio isso, e essas pessoas geralmente entendem as razões pelas quais os venezuelanos farmam ouro no jogo”.

“Eu vi uma mistura real [nos comentários]”, diz Perez. “Existem algumas pessoas são bem merdas, que já são racistas ou ‘trolladoras’, claro; mas por outro lado, sempre aparecem pessoas que realmente interessadas em apoiar. Até agora, o bem superou o mal. No mês passado, outro estranho gentil doou $1 mil para minha conta [bitcoin] porque eu queria comprar comida para minha comunidade”. Desde então, esse estranho entrou em contato com Perez para fazer disso uma doação mensal recorrente.

Atos de bondade para com os jogadores venezuelanos não são raros. Um jogador de RuneScape da Holanda notou um afluxo de usuários de língua espanhola e estendeu a mão para ajudar.“Basicamente eu tento ajudar [jogadores venezuelanos] porque eles merecem algo melhor na vida real”, diz ele. “Ofereço ajuda e faço brindes porque tenho dinheiro suficiente. E isso os ajuda muito. A maioria deles mal falam inglês, então é difícil para eles aprenderem sozinhos também”.Ele não acredita que o aumento de jogadores de RuneScape esteja tendo um impacto negativo no jogo; pelo contrário, na verdade está ajudando a economia do jogo. Ele nos diz que conheceu uma gama diversificada de jogadores da Venezuela, variando de pessoas que jogam o jogo para ajudar a alimentar suas famílias inteiras até aqueles que jogam principalmente por diversão, mas que acabam se voltando para o ato de farmar ouro quando precisam de dinheiro extra.

“Os venezuelanos não prejudicam a integridade do jogo; na verdade, eles apenas o tornam mais suportável para os jogadores sofisticados, pois mantêm os preços de certos itens baixos”, diz ele.

Na medida em que a notícia da crise na Venezuela continuava a se espalhar, houve uma resposta positiva de partes da comunidade de RuneScape que só agora está se conscientizando do que está acontecendo no país. Mais recentemente, um popular YouTuber de RuneScape postou um vídeo no qual incentivava seus 117 mil seguidores a ajudar a Venezuela doando para o Comitê Internacional de Resgate.

Para Alejandro, essa ajuda será muito apreciada, assim como uma maior compreensão da situação em que os jogadores venezuelanos de RuneScape se encontram.“As pessoas [que] dizem que isso prejudica o jogo e prejudica a economia do jogo só estão pensando em si mesmas”, diz Alejandro. “Para essas pessoas, um jogo é mais importante que o bem-estar de outro ser humano.”Martinez compartilha pensamentos semelhantes.“Pessoalmente, recebo vitríolos desnecessários de outros jogadores, mas eles não reconhecem que não escolho viver minha vida assim”, escreve ele.“Eu tive que deixar meu emprego como contador e começar a fazer isso, caso contrário eu e minha família estaríamos catando comida no lixo. E muitos outros venezuelanos estão na mesma situação. Como eu disse antes, mesmo sabendo que está prejudicando o jogo que eu amava, não posso colocar a saúde do jogo sobre o bem-estar da minha família. Felizmente, em um dia em breve, todos nós poderemos seguir em frente e aproveitar o jogo da maneira correta”.


Questionada sobre o comentário, a Jagex não respondeu às recentes consultas da Polygon, mas um porta-voz da Jagex enviou a seguinte declaração quando começamos a relatar esta história em maio de 2019:

“Somos muito solidários com a situação do povo venezuelano e esperamos que seja rapidamente encontrada uma solução política para acabar com a situação incrivelmente difícil em que se encontram. Estamos cientes de relatos de que existem jogadores de RuneScape baseados na Venezuela que farmam ouro, uma atividade que não é exclusiva desse país. No entanto, o cultivo de ouro e o comércio no mundo real são contrários aos rigorosos termos e condições que todos os jogadores, tanto de RuneScape como do Old School RuneScape, devem aderir; essas atividades alimentam os mercados negros associados a trapaças organizadas, venda ilegal de itens virtuais, tentativas de phishing organizadas e prejudicam a saúde e a economia dos jogos amados e jogados por milhões de pessoas em todo o mundo. Com isso em mente, somos — e sempre fomos — consistentes em nossa ação contra os produtores de ouro e os comerciantes do mundo real. Não visamos exclusivamente os jogadores venezuelanos que farmam ouro; nós nos esforçamos significativamente para detectar e remover esse tipo de jogador, de acordo com nossos Termos de Serviço, independentemente de onde eles estejam no mundo”.


Fonte original: How RuneScape is helping Venezuelans survive