Estouraram, novamente, protestos contra o recorrente abuso policial contra pessoas pretas nos EUA. O assassinato do homem preto George Floyd, à luz do dia, em vivo na internet, por um policial branco foi o estopim que os EUA precisavam, depois de meses de isolamento social e uma pandemia que varre o país com mais de cem mil mortes , para se erguer novamente contra o estado policialesco que o próprio país projetou ao longo de muitas décadas. Os EUA venderam sempre a ideia de que é o grande vigilante do mundo, mas, na realidade, ele é aquele juiz corrupto que vende sentenças de acordo com o maior preço.Em 2009 Christopher Nolan lançou aquele que seria considerado até Joaquim Phoenix encarnar de maneira quase impossível um Coringa maluco e completamente insano que arrebanhou prêmios pelo mundo com um discurso de “matem os ricos” que, ironicamente, dialoga diretamente com o atual momento mundial, o melhor filme de herói já feito. Ao mostrar a face crua do fascista que se ergue sob a máscara do vigilante de Gothan,nasce o Batman, e ele nasce de um devaneio de um bilionário órfão que acha que pode — e deve — salvar a sua cidade natal do crime organizado sem se preocupar com qualquer ordenamento legal e jurídico, afinal, rico.O grande desejo e projeto de Bruce Wayne como Batman é ter uma cidade que tivesse enfrentado as pessoas que destruíram sua vida, e mais que isso, ter encontrado uma cidade que não fosse tão pobre e desesperada a ponto de entrar de cabeça no crime. Portanto esta e tantas outras coisas que são reconhecíveis como inerentes à Gothamnos mostra como essa cidade está quebrada. Tão quebrada que é preciso que um louco com uma máscara e munido de muito armamento futurista surja para que as pessoas comecem a assumir a responsabilidade pela sua cidade.Essas pessoas não buscaram jamais a justiça necessária. Elas não protegeram os fracos. Elas não foram uma sociedade civil íntegra e com um sistema de justiça saudável e imparcial. E, exatamente por conta dessa incapacidade, que elas merecem, como pessoas pobres, desesperadas e oprimidas, alguém em condições de mudar isso, por mais que essa mudança aconteça de formas tortuosas e criminosas.Mas a verdade é que não importa onde você vive, qual seja sua realidade, os homens com máscaras que não respondem a nada além da própria consciência jamais serão o caminho para uma sociedade justa. Esta é toda a questão posta em Watchmen, Quis Custodiet Ipsos Custodes, a ideia de como podemos melhorar as pessoas e suas vidas através do poder do Estado sem mudar as estruturas sociais vigentes é uma ideia que jamais passará pela cabeça daqueles que estão no topo, daí a frase “ou você morre como herói ou você ama o tempo suficiente para ver-se tornar um vilão” que se torna essencialmente um mantra dentro do arco do próprio Dent. A sociedade te corrompe ao seu limite e te transforma no próprio vilão. Quem te quebra é a sociedade, a cidade, a vilania das elites. Mas as pessoas comuns não podem crer que a saída seja o Batman, ele só existe em uma cidade moralmente quebrada e completamente destruída. Ele não é o herói de nenhuma cidade. Dent é.No filme Gotham tem passado por uma péssima fase e o seu povo precisa saber que há uma luz ao fim do túnel, não por causa de um homem que pode aparecer e ajudá-los, mas porque as instituições estão funcionando; que existe não um, mas centenas de homens estão verdadeiramente aptos a ajudar a manter aqueles que agem de maneira fora da lei controlados dentro das cadeias. As pessoas têm de acreditar que isso está acontecendo, ou as coisas desmoronarão e, no mínimo, a cidade se esvaziará e se tornará uma triste concha seca e vazia, um refúgio para os criminosos. Um narcoestado, enfim.Portanto, o povo precisa de alguém com um rosto para se levantar e ser a voz de um retorno à justiça civil. Harvey Dent deveria ser essa pessoa, mas o Coringa não só quase o matou como o levou à violência horrível, o levou ao extremo humano de dor e ressentimento. O exemplo do que eles precisavam foi destruído, por isso se diz que a batalha final é pelo coração da cidade.Naquele momento Gotham não tinha, como um todo, ajudado nessa transição. É difícil esperar tanto de um povo tão sofrido; mas esse povo precisava apenas disso, desse exemplo do que eles deveriam ser. Tudo o que eles mereciam era alguém disposto a agir na margem da lei para que isso acontecesse e então enxergassem a luz no fim do túnel. Dent foi essa luz, mesmo sem saber. A cidade, toda e qualquer cidade, precisa de alguém que entre nos lugares sombrios e assustadores, repetidamente, para garantir que as pessoas possam se sentir um pouco mais seguras. Mas as pessoas, acima de tudo, precisam estar em ressonância com a suia humanidade; Por sorte, no filme, Gothan estava em contato novamente com essa humanidade perdida, e isso é mostrado de forma até mesmo infantil quando o povo da cidade não se mata na armadilha do Coringa no final do segundo filme.Eles mereciam, afinal, alguém que pudesse manter suas ilusões vivas, ser o devorador de pecados de Harvey Dent e deixar o povo de Gotham acreditar que eles poderiam continuar em direção ao dia em que estariam seguros novamente.Voltando à citação de Watchmen, a frase Quis Custodiet Ipsos Custodes é normalmente traduzida como “quem vigia os vigilantes” , mas a maneira como prefiro pensar sobre ela é “quem nos protegerá dos protetores” . Se a polícia, racista, machista, genocida e assassina é a lei e nos “protege”, quem nos protege da polícia?Uma das ideias históricas para isso era dizer àqueles que nós conferimos ao poder uma “nobre mentira” de ** que eles eram melhores do que nós e por isso tinham o dever de cumprir um padrão moral mais elevado.O Batman pode ser visto como o contador dessa nobre mentira, mantendo assim o mito de Harvey Dent como sendo o eterno mártir do povo, o cavaleiro branco. Ele dá às pessoas o que elas precisam, essa mentira, mas ele é o que elas merecem. Eles não merecem a verdade, eles não se mostraram fortes o suficiente para isso. Mas ele é, e eles merecem alguém que lhes dê uma chance de se reerguerem, de se tornarem algo melhor do que aquilo que são. Então ele é a chance que eles merecem de acreditar no ideal que precisam para seguir em frente, o fiel servidor do povo e das suas instituições, Harvey Dent, esse é o herói que uma cidade quebrada precisa e não um bilionário fascista vestido de morcego batendo em todo mundo pelas ruas.“I can’t breath”pode ter sido esse chamado nos EUA. Pode ter sido o Dent dos norte-americanos. Quem está lá diz que é maior do que os outros protestos, que a cada dia/noite tudo escala de forma absurda. Alguns movimentos são vistos ao redor da casa branca e em outros países, como Inglaterra. O chamado à civilidade normalmente precisa ser precedido de um chamado à brutalidade.A pergunta é: e no Brasil, qual vai ser o chamado? Se é que vamos ter algo assim.“I can’t breath” ecoa pelo mundo.