(Harry Potter) descreve muito bem o modo como os liberais enxergam o mundo e as lutas políticas.Muitas pessoas reclamam sobre como o final do livro é anticlimático, mas falando sério, eu não imagino como poderia terminar de outra forma. Eu gosto de imaginar que existe um universo alternativo onde a Rowling acredita de verdade em alguma coisa e o Harry Potter foi construído para ser um anti-Voldemort de fato e não apenas um personagem que é instigado nos primeiros livros a ser, mas que, no final, acaba frustrando todo mundo. Um universo onde ele se opõe à todas as injustiças do mundo da magia e é responsável por uma mudança nessa sociedade conservadora, insular e, frequentemente, contraditória para melhor e assim forma a sua própria facção antiética aos comensais da morte e, quando finalmente ele tem o seu embate final com Voldemort ele o supera usando novos métodos, quebrando as regras e abraçando a mudança e uma história progressista, afinal. Enquanto Voldemort abraça um imaginário idílico do passado sendo apenas uma extensão dos seus próprio sonhos de estar eternamente preso à uma Terra do Nunca estagnada, Harry abraça a possibilidade de um novo futuro, melhor, de forma que ele consegue sobrepor os limite autoimpostos que Voldemort nunca poderia superar e, assim, Voldermort é derrotado por esse novo paradigma social.Mas isso requereria que o próprio Harry acreditasse em algo. E isso jamais vai ocorrer, uma vez que a própria Rowling é uma liberal centrista seguidora do Tony Blair ( Blairite) que não acredita em nada de fato, assim, Harry também não acredita em nada. Harry vive em um mundo árido por conflitos e injustiças, uma sociedade estratificada, escrava de criaturas mágicas sencientes, uma absurda mentira que o mundo da magia cria para impor sua própria segregação, um governo corrupto e sufocado pela burocracia, o racismo absurdo e muito mais. Mas Harry é apenas um pouco mais do que um observador passivo disso tudo, de fato, apenas o racismo o incomoda (e, mesmo assim, apenas o racismo contra os trouxas). De fato, quando Hermione se opõe ao racismo contra o elfos ela é ridicularizada, uma hippie qualquer por se opor a escravidão estatal internalizada. No final, a única força real de mudança é o próprio Voldemort, ao passo que Harry e seu amigos são meros instrumentos da manutenção do status quo. O grande sonho de Harry é se tornar um Auror, uma espécie de agente do FBI desse mundo que tem como missão central manter a ordem dessa sociedade intacta. Voldemort e os comensais da morte são a verdadeira força de mudança e, de fato, Harry jamais alcança o nível dele na série. Harry sequer vence Voldemort, ele acaba sendo derrotado por um erro próprio, ele se mata após cometer um erro técnico obscuro em um dos feitiços que faz com que este se volte contra ele.E esse é o verdadeiro problema dos liberais, eles vivem em um mundo carregado de conflitos, mas nenhum destes os importa, exceto aqueles que instigam o pluralismo cultural. Eles veem a mudança, e as forças por detrás dessa mudança, como algo negativo. Mesmo assim, eles só conseguem agir dentro das estruturas legais e ideológicas da sociedade. Por exemplo, ao invés deles organizarem uma insurreição disruptiva contra o governo Trump e a extrema-direita, apontando o racismo dessas pessoas para todo mundo e esperando pacificamente que o governo cometa algum erro técnico que lhes permita entrar com um processo de impeachment contra ele ou mesmo que a nuvem de merdas que eles fazem consiga diminuir o seu alcance político.Isso não funciona. Nunca funcionou. Mas esse é limite liberal. Esse é o limite do Harry Potter.