layout: post title: Ryo Fukui e o jazz japonês dos anos 70. tags:

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  • Ryo Fukui —Falando sobre o movimento do jazz japonês dos anos 70 que ainda conta com duas musicistas ótimas: Hako Yamasaki e Yoshiko Sai.[embed]https://www.youtube.com/watch?v=Hrr3dp7zRQY[/embed] Red japanese blues album, ou, Scenery por Ryo Fukui, um dos pais do jazz/blues japonês que iniciou os seus trabalhos nos anos 70, lançando esse em 76, considerado a obra máxima do músico.Ryo foi um pianista japonês autodidata que passou a sua vida inteira morando em uma cidade mais afastada dos centros japoneses como Tokio ou Nagoya, Sapporo, e que compôs apenas cinco álbuns entre 1976 e 2016.Scenery é o primeiro, totalmente ignorado nos EUA tanto pelo público como pela crítica que, naquele momento, se voltava às grandes bandas de rock. No Japão, contudo, ele se tornou conhecido e aclamado como um dos grandes do seu gênero, sendo comparado com Bill Evans e McCoy Tyner. Até o final da sua vida ele costumava se apresentar no seu bar local, Slowboat Jazz, com o qual dividia sociedade com sua esposa. É possível ouvir as apresentações dele nesse bar no último álbum, de 2015, “A Letter From Slowboat”, onde é possível ver uma técnica de piano muito mais apurada e um retorno ao bebop mais clássico, provavelmente graças a sua longa estada em Detroit nos anos 90.Capa japonesa de Scenery.Em Scenery é bastante evidente, ainda, a grande influência da “fritação” do jazz americano dos anos 60, principalmente Thelonious Monk e MIles Davis (alguns momentos de Scenery lembram muito “Kind of Blues”, inclusive). Provavelmente essa cena japonesa setentista é uma releitura tardia que ocorreu no Japão — e que ainda nos trouxe as ótimas Hako Yamasaki e Yoshiko Sai — do contato do país com os músicos americanos.Dividido em três momentos bastante evidentes (movimentos internos do álbum) temos a abertura com “It Could Happen To You” que se volta ao jazz clássico, emulando as big bands com sua sonoridade bastante marcada em dois instrumentos: piano e baixo. A obra inteira de Ryo, aliás, será marcada pelo piano sobressaindo-se a todos os outros instrumentos, afinal, ele era um pianista (autodidata que aprender apenas aos 22 anos a tocar).Ainda que não exista uma ideia explicita de continuidade nas músicas, percebemos que elas seguem um padrão que vai elevando o ritmo aos poucos, como na segunda faixa, “I Want To Talk About You“, que retoma inicialmente o ritmo cadenciado do piano que se estende por toda a música, criando uma atmosfera de introspecção (que bate com o título, inclusive) para romper, perto de sua sequencia final, sugerindo uma conexão com o terceiro título que fecha o lado A, “Early Summer”, que nos coloca no centro da virtuose do pianista e, principalmente, dessa fritação comum ao jazz americano sessentista. Talvez seja proposital que esse lado tenha uma música de tirar o fôlego como ponto de partida, caia numa introspecção quase noirno seu segundo título e retome o piano + metais que temos na terceira faixa. A ideia de jornada sobre “algo que vai acontecer” seguida por “preciso te falar uma coisa” e finalmente o “inicio do verão” me sugerem isso.O lado B é muito mais monótono e, sinceramente, muito bom apesar de não me dar, pelo menos nas primeiras 100 escutadas que eu tive, a ideia de jornada que tivermos no lado A. “Willow Weep For Me” e “Autum Leaves” são jazz bebop clássico em detrimento das “big bands” emuladas das primeiras três músicas; intensos e muito prazerosos de escutar, principalmente pela técnica do autor, mas que podem carecer, para alguns, da ideia central do primeiro lado. Não são ruins, são excelentes, mas parecem soltas quando olhamos em perspectiva.“Scenery”, dizem, foi o xodó de Ryo até sua morte. Dedicando horas de “lapidação” da melodia central do piano, melancólica e em tom de despedida (do álbum), um fechamento incrível para um álbum incrível que marcou as gerações seguintes do jazz japonês e, mesmo que possa soar forçado, parece fazer uma bela ligação musical com o segundo álbum dele, lançado no ano seguinte, “Mellow Dream”.Recomendo, claro, os cinco álbuns dele. Dá pra dedicar uma tarde pra isso. Mas se você quiser ouv9r apenas um, Scenery, ou o álbum vermelho do cara japonês, serve muito bem para dar uma suspensão de tudo o que está ocorrendo no mundo e no Brasil, principalmente.###Ficha técnica Lista de faixas*A1 — It Could Happen To You

Written-By — J. Van Heusen* *A2 — I Want To Talk About You

Written-By — B. Eckstine* *A3 — Early Summer

Written-By — H. Ichikawa* *B1 — Willow Weep For Me

Written-By — A. Ronnell* *B2 — Autumn Leaves

Written-By — J. Kosma* *B3 — Scenery

Written-By — R. FukuiProduçãoManufactured By — Trio Records

 Distributed By — Trio Records

 Made By — Trio Electronics, Inc.

 Recorded At — Yamaha Hall, SapporoCréditos*Bass — Satoshi Denpo

 Design [Cover] — Takashi Nogiwa

 Drums — Yoshinori Fukui

 Engineer [Recording] — Kunio Arai

 Piano, Producer — Ryo Fukui

 Producer, Photography By [Cover & Liner] — Masataka Ito (3)Notas*Recorded September 7, 1976 at YAMAHA Hall Sapporo.