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  • Tradução —Se fosse um país, seria a Coréia do NorteCarole Cadwalladr | The GuardianSe o poder combinado de marcas como Unilever e Coca-Cola não assusta à Mark Zuckerberg, quem, afinal, pode responsabilizar o Facebook?Não há poder neste mundo capaz de fazer o Facebook se responsabilizar. Nenhuma legislatura, nenhuma agência legal, nenhum regulador. O congresso falhou. A UE falhou. Quando a Federal Trade Commission multou a empresa em US$ 5 bilhões (recorde absoluto de multa) por seu papel no escândalo da Cambridge Analytica, o preço das suas ações subiu.É isso que torna este momento tão interessante e, possivelmente, épico. Se o boicote ao Facebook por algumas das maiores marcas do mundo — Unilever, Coca-Cola, Starbucks — for bem-sucedido, será porque ele tem como alvo a única coisa que o Facebook entende: seus resultados financeiros. E se falhar, esse será outro tipo de marco.Estamos tratando aqui de uma empresa que facilitou um ataque de uma potência estrangeira às eleições nos EUA, transmitiu um massacre ao vivo e depois o retransmitiu a milhões de pessoas em todo o mundo e ainda ajudou a incitar um genocídio.###Eu vou repetir: ajudou a incitar um genocídio . Um relatório das Nações Unidas diz que o uso do Facebook desempenhou um “papel determinante” no incitamento ao ódio e à violência contra Rohingya, em Myanmar, país que viu dezenas de milhares de mortos e centenas de milhares de pessoas fugindo para salvar suas vidas.Quando eu assisto a documentários mostrando os funcionários do Facebook jogando pingue-pongue dentro de seu espaço seguro em Menlo Park. Quando fiz uma excursão pela cidade suburbana do Vale do Silício, no início deste ano, e passei pela rua “ normal” onde Mark Zuckerberg vive sua vida totalmente normal como o único tomador de decisões da maior empresa de mídia da história da humanidade. Quando eu soube que Maria Ressa, a jornalista Filipina que tanto faz para alertar sobre os danos do Facebook, havia sido condenada à prisão. Quando li a defesa orwellianaque nosso ex-vice-primeiro ministro, Nick Clegg, escreveu na semana passada afirmando que “plataformas como o Facebook são um espelho da sociedade”, a única coisa que eu conseguia pensar era no relatório da UE sobre Myanmar.O Facebook não é um espelho. É uma arma. Sem controle — não está sujeito a leis ou controles estatais — e que está nas mãos e nos lares de 2,6 bilhões de pessoas, infiltradas por agentes secretos que atuam para estados-nação. O Facebook é um laboratório para os grupos que elogiam os efeitos de “limpeza” promovidos pelo Holocausto e que acreditam que as redes 5G fritarão nossas ondas cerebrais durante o sono.Às vezes as pessoas dizem que se o Facebook fosse um país, seria maior que a China. Mas essa é uma analogia errada. Se o Facebook fosse um país, seria um estado fantasma. Seria mais como a Coréia do Norte.O Facebook não é apenas uma arma. É uma arma nuclear.Porque essa não é uma empresa, mas uma autocracia, uma ditadura, um império global controlado por um único homem. A quem — mesmo que a evidência dos danos tenha se tornado inegável, indiscutível, esmagadora — simplesmente optou por ignorar seus críticos em todo o mundo.Pelo contrário, ao invés disso continuou lançando mão de uma propaganda implacável, inacreditável e cada vez mais absurda, até mesmo por ele controlar os principais canais de distribuição de notícias. E, assim como os cidadãos da Coréia do Norte são incapazes de operar fora do estado, parece quase impossível estar vivo hoje e viver uma vida intocada pelo Facebook, WhatsApp e Instagram.A campanha #StopHateForProfit está focada no discurso de ódio dentro da rede. Foi esse movimento que uniu seis organizações norte-americanas de direitos civis nos EUA a pressionar os anunciantes a “pausar” seus anúncios para julho, uma campanha incitada pela decisão do Facebook de não remover um post de Donald Trump ameaçando de violência contra os manifestantes do Black Lives Matter : “When the looting starts, the shooting starts” [1]Mas isso é muito maior que o problema do Facebook com o discurso de ódio. E vai muito além dos EUA, embora o papel que desempenhará nas eleições americanas seja crucial (e vale a pena notar que as demandas da campanha #StopHateForProfit não se estendem a impedir mentiras em anúncios políticos, uma necessidade crucial).Os danos do Facebook são globais. Sua ameaça à democracia é existencial.Ou é apenas uma coincidência que os três países que mais enfrentam problemas sanitários com o coronavírus sejam, exatamente, aqueles em que os seus líderes populistas — Trump, Bolsonaro e Boris Johnson — , cujas campanhas exploraram a capacidade do Facebook de espalhar mentiras em grande escala?Talvez sim. Talvez não.E se você não se importa com a democracia, pense por um momento no coronavírus. Se, e quando, uma vacina surgir, será que pessoas suficientes desejarão tomá-la? O Facebook está cheio de grupos anti-vaxxing, é como se a rede estivesse infectada pelo anti-semitismo. Se isso é um espelho, Nick, você pode querer dar uma olhada mais longa, fria e dura nele.Zuckerberg não é Kim Jong-un. Ele é muito, muito mais poderoso.Meu palpite é que todos esses anunciantes voltarão à plataforma em breve”, informou ele a funcionários na semana passada. E, embora 500 empresas tenham aderido ao boicote, o Wall Street Journal relata que isso representa apenas uma queda de 5% nos lucros. Pode ser que o Facebook não seja apenas maior que a China e que se seja, sim, maior que o próprio capitalismo.No final, tudo se resume a nós e às nossas carteiras; e, principalmente, o que dizemos a essas marcas. O mundo tem que perceber que não há ninguém vindo em nosso socorro. Trump e Zuckerberg formaram uma aliança estratégica tácita, não declarada.Atualmente somente os EUA têm o poder de cortar as asas do Facebook. E apenas o Facebook tem o poder de impedir que Trump espalhe mentiras.Às vezes você não percebe os momentos cruciais da história até que seja tarde demais. E às vezes você percebe. Ainda não é tarde demais.Ainda.** [1]: “Quando os saques começam, os tiroteiam começam“** Tradução do artigo originalmente publicado no jornal The Guardian.