Esse tweetfoi escrito pelo Fabrício Pontin, mas bem que poderia ter sido escrito por mim hoje, anos depois de me formar e de ter tido o primeiro contato com a classe alta de Porto Alegre quando entrei na UFRGS.Na época a minha primeira reação foi exatamente a que ele conta: querer pertencer à essa classe.Achei que trabalhando eu conseguiria isso, não consegui. A seguindo onda veio e com ela eu acabei acreditando que o Estado, como entidade, era maléfico porque me privava da capacidade de competir de igual parta igual com eles.Com o tempo adquiri consciência do meu lugar na engrenagem do capitalismo e percebi que não existe competição com essas pessoas, esses seres iluminados pelo dinheiro das suas famílias, pois eles são intocáveis em suas bolhas de auto-afirmação. São donos de empresas, de incorporadoras, de editoras. Tem contato com todo o tipo de milionário ou bilionário que os coloca, sem nenhum currículo ou contribuição, numa posição de líder. E o resto da massa brasileira, pobre e desdentada, trabalha pra eles. Segue eles. Compra essa ideia errada de mérito e trabalho. A predestinação, o destino manifesto de uma geração cheia de dinheiro e de capacidade normal.Mas divago, eis o tweet:>Quem já conviveu com esses círculos sabe disso: essa galera tem um delírio de predestinação muito forte, uma auto-confiança enorme derivada de ter ouvido de papai e mamãe que o mundo pertence a eles (com razão, pertence mesmo). Essa galera não tá só nos institutos liberais, não. Tá na literatura, tá nas universidades federais (filhos de estancieiros pagando de revolucionário esquerdista USPiano), tá no jornalismo, tá na esquerda e na direita antenada. É um círculo de auto-afirmação e de salão. Isso te dá acesso, te faz ir parar na coluna do Estadão antes dos 30 anos sem NUNCA ter feito nada de interessante na vida exceto ser filho de alguém, te dá uma editora de ponta sem tu ter nenhum mérito para poder publicar qualquer coisa, te coloca no lugar certo na hora certa.

Por algum tempo eu tive delírio de tentar competir com essa galera. Mas não tem o que competir. Ou tu te submete a trabalhar para eles, re-afirmando o lugar deles no mundo e adotando os códigos de conduta e pertencimento (e é recompensado com isso), ou tu fica na margem. Confesso que tive ciumes de vários por muito tempo, que as vezes virou um troço até meio auto-destrutivo e imbecil da minha parte, e daí eu tive sorte de encontrar bons amigos e também de sair do país por um tempo (mas não para as universidades certas, claro). Mas assim: a gente que tá na nossa vidinha normal (e privilegiada para o Brasil, claro) não dimensiona o que é a vida dessa galera, os contatos, as drogas boas, as festas, a facilidade de falar para qualquer um, a certeza de reconhecimento e de que nunca vai dar nada. Essas galera literalmente sai limpa se mata alguém, se usa drogas em público, se causa acidentes ambientais, nada nunca dá nada, pq sempre tem um caminho pelos contatos. Precisa de muito, muito mesmo, para alguma coisa dar errado — e ainda assim, aparece alguém para defender. Ser elite no Brasil é um processo intoxicante e viciante, e eu não sei se consigo culpar essa galera — porque deve ser uma droga muito, mas muito, do caralho. Tanto que a gente mal e porcamente consegue imaginar os efeitos dela. [embed]https://twitter.com/fabriciopontin/status/1281987280106934276?s=19[/embed]