Fazia um bom tempo que nos conhecíamos. Alguns bons meses na verdade. Já havíamos dito tudo o que deveria ser dito um para o outro. Estávamos apaixonados um pelo outro, mas ainda falta alguma coisa. Faltava o beijo. Ele não aconteceu ainda muito mais pela minha falta de coragem do que pela falta de vontade de nós dois. Já estamos bebendo aqui, sentados no chão mesmo, faz quase três horas. Eu pensei que o álcool fosse me dar a coragem necessária. Ledo engano, só me deixou mais nervoso com toda essa situação.Tudo começou algum tempo atrás. Ainda no final do inverno do ano passado.Naquela época eu não tinha a mínima intenção de conhecer alguém, ainda que todos insistissem em me dizer que eu deveria, porque, segundo todo mundo, uma hora se encontra a pessoa certa. Sabe, aquela pessoa que muda tudo na sua vida e que pode, de fato, até mudar a própria vida em si. Dizem que essa pessoa fica nos esperando, em algum lugar do nosso mundo, pronta para ser descoberta (e as vezes nunca é). Passamos a maior parte do tempo em contato com outros tipos de pessoas, as que quase são ela. Em todos os locais temos algumas pessoas interessantes, que tem gostos parecidos com os nossos e nos fazem e querer estar com elas por mais tempo que o necessário, ou por mais tempo que o normal. Mas não são, exatamente, essas pessoas que fazem a vida ter aquela cor característica que, dizem, surge quando se está apaixonado. Não, pelo contrário, essas são as pessoas que te ajudam a perceber quando a pessoa certa chegar. É o contraste entre alguém que tem algo em comum com você contra alguém que tem quase tudo em comum com você.Eu passei alguns anos fugindo disso, provavelmente por medo do que poderia acontecer se eu encontrasse essa pessoa. Provavelmente por medo do que iria acontecer comigo. Fugi por onde eu pude, evitei qualquer possibilidade de envolvimento e, principalmente, qualquer local que fosse propício para encontros não-fugazes. Não adiantou. Como dizem, o destino é inexorável.O inverno estava indo embora, timidamente ainda, o que me obrigava a manter o casaco no corpo pela manhã e pendurá-lo no ombro durante a tarde. O dinheiro era bem curto, o que tinha me obrigado a mudar de emprego para tentar saldar as dívidas que ainda viriam. Não era o que eu queria (mas isso tudo mudaria em muito pouco tempo) porque eu teria que largar algo que eu gostava de fazer por algo que eu teria de aprender a fazer. E ainda cumprindo horário. Não parecia ser algo que eu fosse gostar. Mas as contas chamavam. E algo mais iria acabar me chamando atenção.O destino é inexorável, lembram?Pois foi isso que ele resolveu me mostrar naquela tarde ensolarada do final do inverno do ano passado.Alguma força me colocou naquela mesa, sentado do lado dela, naquele dia cinza-claro. Não tenho (e nem devo) como negar que o que primeiro me chamou atenção foi a beleza extrema dela. Sentada normalmente na cadeira, olhando longinquamente para o computador, como se o mundo não importasse. Eu tive alguns poucos segundos em que eu dava pequenos passos em direção à minha mesa, mas que me foram suficientes para entender que eu não estava vendo uma simples colega de trabalho. O cabelo solto ressaltava o rosto feminino dela e fazia os seus olhos azuis iluminarem a sala toda. Nada mais parecia ter cor naquele momento, tudo estava completamente ofuscado por causa daquele azul profundo e intimidador. O mundo todo parecida ter conspirado para que eu chegasse naquele momento. Ela, como se fosse o movimento mas normal do mundo, me olhou e disse oi. Meu coração pulava, como se quisesse correr para longe dali. Todos os meus instintos diziam “é ela!”. Eu deveria ter feito muitas coisas, mas a única coisa que consegui fazer foi lhe devolver um tímido e fraco “oi”. Quase sem voz, como se fosse um criança frente-a-frente com o papai noel.Ela me olhou e apenas sorriu quando eu perguntei, a duras penas e tirando coragem de onde eu, sinceramente, não tinha, o nome dela. Mais fracamente ainda eu consegui responder o meu. Recebi de volta aquele sorriso que, com certeza, terminaria guerras pelo mundo. Sentado ao lado dela eu agia normalmente, por fora, enquanto por dentro eu pulava de tensão (e tesão). A minha vontade era pular do lado dela e dizer “casa comigo!”mas isso provavelmente iria fazer ela correr até não ver mais a minha sombra. Me sentei, como se nada tivesse ocorrido, com a pose de um nobre que perdeu todas as terras.Os meses passaram rapidamente, e em cada um deles eu tentava me aproximar um pouco mais dela, saber mais sobre a vida dela (em uma intrincada rede paranoica que eu tinha criado, na qual eu deveria não deixar muito claro que eu estava interessado nela porque isso poderia fazê-la correr pra longe de mim). Cada novo dia trazia ela pra mais perto de mim, fosse por necessidade do trabalho, fosse porque eu descobria que ela era muito mais parecida comigo do que eu poderia imaginar. Tudo nela, cada descoberta sobre os sus gostos, me levava a entender que eu estava, finalmente, diante daquela pessoa que sempre me tinham dito. Eu tentava (na verdade tinha necessidade) de estar sempre perto dela. Eu moldava os meus horários de acordo com os dela. Se ela chegava as 10h eu chegava as 10h30. Se ela saía as 14h, eu saía as 14h30. Era tudo planejado para não parecer planejado.Ela era a mulher perfeita, eu sabia disso. Ela me fazia sentir como se nada no mundo fosse impossível. Do lado dela eu só sentia que deveria ser eu mesmo, e eu era, e ela não falava nada, e gostava disso. E ria disso. E eu me sentia como se tivesse voltado a ter 17 anos, apaixonado por uma mulher com se não existisse mais nada no mundo. De fato, não existia, ou existia, mas eu não me importava mais com isso, só me importava conseguir falar com ela, conseguir falar pra ela que era por ela que eu fechava os olhos quando ouvia qualquer música romântica. Ela deveria saber ora, que era sobre ela o meu último pensamento do dia, e também o primeiro. Ela deveria saber que cada vez que ela chegava o perfume dela me inebriava e me trasportava automaticamente para um lugar melhor, onde tudo fazia sentido. Ela precisava saber que cada vez que eu abraçava ela, que cada cada vez que nossos braços se encostavam um pouco na mesa, eu sentia um choque percorrer todo o meu corpo, me fazendo pular de emoção, num misto de sentimentos que eu não entendia, e sinceramente não queria entender.Ela já desconfiava, e eu sabia disso, afinal eu tinha dado indiretas e dicas por alguns dias. Ela tinha me chamado pra conversar. Era um dia normal, até aquela hora pelo menos, onde nós dois iríamos nos sentar e falar, nada demais, pensaria a maioria, mas para mim era o início daquilo que iria se transformar em algo único. Eu não conseguia falar direito, por mais que eu tentasse a minha voz não saía direito, era fraca demais para vencer o meu medo de estragar tudo e nunca mais vê-la. Era um risco que eu precisava assumir, mas não conseguia. Ela, por algum motivo, resolveu arrumar a minha situação e tomou a palavra. Eu não estava preparado para o que vinha depois daquilo.“Eu estou apaixonado por ti, desde que eu te conheci direito nada mais consegue lugar na minha cabeça”. Era isso que eu deveria ter dito, mas não disse. Deveria ter ido além, ter contado tudo, mas não fiz. Não naquele dia, não naquela hora. Ela sim disse o que precisava dizer, o que queria dizer e muito mais. Me deixou sem palavras por horas a fio, sem reação nenhuma. Quando ela me disse que gostava de mim o mundo parou por muitos minutos (piegas, mas foi como em todos os filmes e exatamente como todo mundo disse que iria ser) e eu apenas consegui sorrir (quando queria pular nela). Tudo cinza ao redor daqueles olhos que me fitavam no fundo da alma. Nada mais importava afinal. A minha vontade era de finalmente sair berrando por todo o lado, contando pra todo mundo, escrevendo o nome dela em todos os muros, em todos os lugares, pra que assim todo mundo entendesse o que eu sentia. Mas não, me contive (burramente) e apenas confirmei as suspeitas dela, eu estava apaixonado por ela.A partir dali nada mais foi como antes. Todo o papo, toda a reunião, qualquer coisa era pretexto para que eu ficasse do lado dela, olhando pra ela profundamente. Se antes cada vez que nossos braços se encostavam eu sentia um choque percorrer todo o meu corpo, agora, era como se um raio atravessasse o meu corpo, me deixando estático por horas, arrepiado e imaginando como seria tocar o resto do corpo dela.Os dias pareciam voar, da vez mais rápidos, graças à companhia dela. Conversamos sobre tudo e a toda a hora. Era difícil ter um momento em que não nos falávamos, fosse onde fosse e pela via que fosse. Era a necessidade de estar do lado dela, mesmo que longe, que me mantinha sempre com aquele sorriso bobo na cara. Marcamos de beber, espairecer um pouco de tudo o que acontecia na vida, esquecer do mundo por algumas horas. Mas, novamente, eu não estava preparado para o que ia acontecer. O mundo parecia em constante motivação para me surpreender, ou, assim parecia naquele momento.E cá estou, depois de muito tempo e de muita conversa, sentado na frente dela. Perdi a conta de quantas vezes eu passei as mãos nas pernas dela e mais ainda de quantas vezes eu pensei em beijá-la. Os movimentos são, por vezes, desajeitados. Tudo culpa do meu nervosismo de querer fazer as coisas sempre da mais perfeita maneira possível. O perfume dela parece que toma todo o lugar na minha volta, não penso em mais nada, tudo é turvo quando eu olho na direção dela. Tomo coragem e a abraço, demoradamente e o mais próximo possível do rosto dela. Até que aconteceu, meio tímido é verdade, mas quando meus lábios tocaram os dela eu senti como se fosse o fim de tudo. Meu mundo travou completamente, nada mais importava e nada mais passava pela minha cabeça. Meu corpo todo tremia, meu coração parecia que ia voar pela boca e a minha boca teimava em querer ficar seca. Com os dedos enrolados no meio do cabelo dela e o todo o meu corpo impregnado pelo perfume dela, eu entendi o que era realizar um sonho, o que era estar com aquela pessoa especial que todos tinham me dito.Ali, sentado no chão, segurando a mão dela, eu entendi muita coisa que me foi dita pela boca de outros. Nesse momento eu finalmente entendo que eu tinha encontrado aquela pessoa que ma faria atravessar o país para vê-la. Aquela pessoa que faz com que um beijo, num final de tarde qualquer, se transforme no maior acontecimento de uma vida toda. Aquela pessoa que consegue transformar qualquer tarde vazia na frente do computador e uma tarde especial, feita pra durar.A verdade é que eu queria ficar preso nesse momento para sempre. Queria poder nunca mais sair daqui, desse chão onde eu estou sentado agora. Queria nunca mais largar a mão dela. Queria estar pra sempre do lado dela. Agora, enquanto eu olhos nos olhos dela, eu sinto um misto de medo com esperança. Medo do que pode vir depois disso e esperança do que pode vir depois disso. A minha única certeza é que eu nunca mais vou ver o mundo da mesma forma.