Não que que eu seja famoso, ou mesmo que isso importe, mas, muitas vezes as pessoas perguntam “não viu o que eu postei?” e eu respondo que não. Quando eu respondo que não isso faz parecer que eu não sigo as pessoas aqui (Facebook, onde esse texto foi publicado originalmente, então, aqui = Facebook), que eu silenciei as pessoas aqui ou mesmo que eu fui fazer algo mais útil da minha vida do que ficar por aqui olhando as postagens (como ouvir Natasha do Capital Inicial, quem sabe).

Mas a verdade é muito mais simples
o Facebook é assíncrono. Isso quer dizer que o algoritmo por detrás da timeline não mostra as postagens na medida em que elas são feitas. Essas postagens são mostradas de modo que eu me engaje mais no conteúdo deles (e assim poste mais, clique mais em anúncios, marque mais amigos em fotos; enfim, passe mais tempo aqui). Pra isso eles recolhem informações de todas as fontes possíveis e de todos os sites que eu visito — existe algo chamado “Facebook Pixel” que rastreia todos os meus movimentos na web — através de cookies e do SDK do Facebook, algo hoje quase onipresente em todos os aplicativos e sites (inclusive, porque uma fintech como o Nubank precisa ter conexão com o SDK do Facebook?) e que enche o banco de dados do Facebook e faz eles venderem cada vez mais anúncios que, em última instância, deixam o Mark Zuckerberg rico, muito rico e, de quebra, financiam discursos de ódio pelo mundo através de sites de desinformação (fake news).E isso ocorre também no Instagram. O que vemos na timeline do Instagram é escolhido (ou curado, como eles gostam de dizer) de acordo com o que temos mais chances de interagir (comentar, dar likes, compartilhar dia Direct) e, posteriormente, de comprar.Esses algoritmos quase onipresentes das redes sociais do Zucko leem tudo o que fazemos na web, inclusive as conversas no Whatsapp, no Facebook Messenger e no Direct (Instagram) — mas não se preocupe, ele não vai ler de fato as suas conversas, ele estão interessados em com quem você interage e nos metadados dessas conversas — que são posteriormente cruzados com os dados de compras (afinal, a maioria das pessoas faz login nos sites de e-commerce usando o Facebook), de deslocamento (acenar pros amigos próximos é um ótimo meio de saber onde você está e por onde caminha, sem falar que os aplicativos de transporte como 99, Uber e Cabify usam o SDK do Facebook também) e de consumo de conteúdo produzido por “influenciadores digitais”, que são colocados dentro das plataformas exatamente para transmitir vídeos, piadas, criar dancinhas e aquele tanto de coisa sem sentido que todo mundo adora e fica viciado e que, no final das contas, serve pra criar engajamento social e vender.Nem mesmo apagar a sua conta no Facebook é possível, ela fica pausada. Esperando você voltar pára poder conversar com as pessoas (afinal todo mundo está aqui). E mesmo que você não volte, você ainda usa Instagram e Whatsapp.O Twitter também faz isso, aliás, mas pelo menos ele dá a opção de ver os tweets na ordem cronológica, ainda que depois de um tempo ele volte a ordem “normal” (que é a ordem que a IA deles acha que é melhor).

Resumo ? Não tem resumo, somos um produto barato pro Facebook e nos vendemos por serotonina.E não, eu não vi a sua postagem porque eu te bloqueei ou porque eu te silenciei, eu não vi essa postagem porque o algoritmo do Facebook cortou ela da minha timeline porque achou que eu não queria ver aquilo, ou porque achou que não tinha potencial de virar um anúncio/compra. Se lembra da cena do filme do David Fincher sobre a vida do Mark? Onde ele rascunha, com o Eduardo Saverin, o algoritmo de ranqueamento de mulheres de Harvard? Bem, o que temos hoje é um algoritmo MUITO mais sofisticado do que aquele mas que, de certa forma, continua no ranqueando.Alás, veja o filme. David Fincher e Aaron Sorkin ambos são muito bons e o filme é a melhor coisa que já saiu da vida do Zuck (já que, infelizmente, o [email protected] não existe mais no LiveJournal, se é que um dia já existiu).