Baseado no livro Cantos Malditosde Austregésilo Carrano Bueno que conta a sua própria história e de como os hospitais psiquiátricos brasileiros mais contribuem para deteriorar (ainda mais) a sanidade mental dos seus pacientes ao invés de ajudá-los numa eventual cura. Com essa história em mente, a diretora Laís Bodanzky e o roteirista Luiz Bolognesi tiraram do chão um dos três melhores filmes do cinema brasileiro contemporâneo.Tal qual a obra literária que deu origem ao filme, “ Bicho de Sete Cabeças” é visceral, chocante e cru. Contando com uma bela atuação de Rodrigo Santoro (na melhor atuação da sua carreira) e um roteiro que consegue resgatar a essência do sofrimento narrado no livro sem, no entanto, perder a liberdade de se criar novas histórias ao redor da trama principal, talvez o melhor ponto de toda a película seja exatamente esse: liberdade de roteiro.A espinha dorsal da história é mantida com poucas alterações (apenas algumas licenças narrativas na hora de compor os personagens, mudando um pouco a personalidade de cada um de maneira que a história ficasse mais atraente para a tela do cinema) e funciona de maneira exemplar, porém a grande virtude do filme é exatamente a subtrama que foi adicionada além do livro: a relação entre pai e filho.A execução técnica do filme é ótima e sempre de apoia em uma edição de som competente aliada à uma linguagem narrativa que nos coloca sempre no nível do personagem (a câmera raramente sai do nível do personagem e se coloca de maneira superior, seja utilizando tripés ou mesmo gruas, fato que ajuda a compor o clima documental que acompanha o filme todo) nos dando a real ideia de como é estar na pele do personagem de Santoro, o que se reforça com a imagem sempre em movimento que nos mostra todo o ambiente possível, deixando claro que a intenção é realmente aproximar o expectador do personagem principal.Em linhas gerais o filme conta a história de um jovem de classe média-baixa que, após o seu pai ter encontrado um cigarro de maconha no bolso do seu casaco, é internado em uma série de manicômios ao longo de 3 anos. A trama principal apoia-se nas experiências traumáticas sofridas pelo jovem Neto (Rodrigo Santoro) ao longo destes anos de torturas, eletrochoques e descaso dos médicos nessas instituições, tal qual narradas nos livros. Porém, como dito anteriormente, uma adição na trama se fez presente na transposição entre a obra literária e a obra cinematográfica, e essa relação entre o pai e o filho, baseada em uma dicotomia entre amor e ódio (inspirada no livro de Franz Kafka, “Carta Ao Pai”)acabou sendo o alicerce que ajudou da narrativa, deixando claro a luta do autor do livro contra as internações desnecessárias, contra os abusos do poder dentro destes centro de tratamentos e principalmente contra as técnicas de tratamentos baseadas em eletrochoques, drogas pesadas e tortura (o que deixaria qualquer um insano de fato).Bicho de Sete Cabeças nos traz uma história chocante em uma narrativa direta e bem estruturada (méritos pro roteiro que foi exímio do início do fim) em um filme bem resolvido e que nos brinda, afinal, com uma direção competente aliada à uma ótima história.[embed]https://www.youtube.com/watch?v=lBbSQU7mmGA[/embed]