Em poucas linhas podemos definir Mundo Surreal (Sucker Punch), a mais nova bizarrice de Zack Snyder, é exatamente o que Scott Pilgrim vs O Mundo (Scott Pilgrim vs The World) queria ser e nunca conseguiu: um amálgama de cultura pop/nerd com ritmo de video-game (plus: mulheres em trajes mínimos descendo a porrada em uma miríade de vilões que misturam um visual steampunk da segunda guerra com zumbis, mechas e super soldados).Mas ele vai um pouquinho além disso. Misturando alguns conceitos que já vimos em A Origem (Inception) onde realidades múltiplas se sobrepõem, deixando o espectador um pouco perdido algumas vezes (é preciso fazer alguns cálculos para se lembrar exatamente de onde estão todos os pontos da trama) e criando pequenos microuniversos para contar uma história que é bem batida (e que se perde no seu final, justamente quando perde a honestidade consigo mesmo) mas que ficou muito bem esteticamente na tela dos cinemas.As realidades são sobrepostas de uma maneira muito boa, contando a história em três camadas (hospital psiquiátrico, bordel e um mundo de fantasia que se modifica a cada missão do grupo) e nunca deixando claro se todas as meninas imaginam aquilo ou se apenas a protagonista Baby Doll (vivida pela “loira” Emily Browning) é quem imagina toda a trama. Porém temos dois problemas que me incomodaram durante o filme todo: i) as personagens são muito badasses para os vilões, não temos lutas memoráveis e sim massacres atrás de massacres protagonizados pelas cinco personagens e ii) o final, com aquela necessidade de passar uma mensagem otimista para o espectador que foi esperando ação, sangue e violência (e algumas pernocas de fora) que se torna completamente desnecessária e deslocada do enredo do filme, sem nexo ou sentido algum para a história e não acrescenta nada de novo para a trama, é um plot twist que termina com o filme que até esse ponto era exatamente o que se propunha desde o início a ser: diversão.Falando isso, individualmente as atuações são rasas, mas, muito melhores que a média que encontramos nesse tipo de filme. Oscar Isaac como Blue Jones (cafetão e enfermeiro chefe) não convence como vilão, É fraco e inexpressivo. Carla Gugino como Dra. Vera Gorsky também faz apenas o que se espera dela, um papel secundário em efeito nenhum na trama que tenta ser um amálgama de médica boa e da cafetona má. Não funciona em nenhum dos casos. As cinco meninas que compõe o grupo cheio de referências a mangás, animês e videogames são boas no que se propõem a fazer, nenhuma ali tem pretensões de ganhar algum Oscar por suas atuações nesse filme, mas, todas sabem muito se portar em cena e conseguem trazer para a tela o sentimento de empatia pelas suas personagens e histórias pessoais. Somos levados a crer que sim, elas tem motivos de sobra para estarem ali (e palmas para a relação fraterna entre Sweet Pea (Abble Cornish) e Rocket (Jenna Malone) que convence muito bem, inclusive na cena clímax das duas). Scott Glenn no papel de Wise Man (o conselheiro do grupo) está bem aquém do esperado para um personagem “mentor“. Ele até consegue nos passar a imagem de algum velho sábio, mas, não consegue passar a imagem de protetor das meninas. Ele soa fraco demais e não consegue passar nada além disso. Ele parece perdido em cena em grande parte do filme. Bem diferente do que se propõe o personagem dele, uma espécie de mentor espiritual misturado com o personagem Charlie das Panteras, ajudando e protegendo o grupo nas missões (e explicando grande parte do mundo surreal [sim é daqui que vem o nome bizarro em português, suponho] para nós, espectadores).Com um ritmo muito do começo ao fim (que faz com que as quase 2h de filme passem muito rápido) Zack Snyder consegue (até a última sequência) passar exatamente que quis com esse projeto autoral, a experiência de um videogame nas telas do cinema (e aprendeu que o primeiro passo para fazer isso é não ter a cara de bunda mijada do Michael Cera na tela) com um ritmo bom e um história que poderia (deveria?) muito ser um jogo dessa nova geração de porradaria.Não irei me ater ao enredo do filme, como é feita a passagem de realidades e nem coisas que revelem algo mais do enredo (além do que eu revelei já) mas deixo a minha singela cotação para o filme (que poderia ser até um 10 não fosse a sequencia final desnecessária). Mundo Surreal é um projeto de diversão pura e simples, desligue o cérebro e assista.