layout: post title: Tão bizarro quanto uma laranja mecânica tags:

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  • Memória —Essa é a expressão anglo-saxã que determinou o título do livro de Anthony Burgess de 1962 e, nove anos mais tarde, o emblemático filme de Kubrick. Essa expressão acaba, por fim, nos remetendo diretamente ao que iremos ver nos próximos minutos nas mãos do diretor americano.>“Ainda que exista uma grande hipocrisia a respeito da violência, todas as pessoas estão fascinadas por ela. Afinal, o homem é o assassino mais cruel que jamais pisou o planeta”.

    - Stanley Kubrick E é esta violência, crua e mostrada de maneira condenatória durante todo o filme que nos transporta, instantaneamente, para a Inglaterra de um futuro incerto e impreciso onde Alex e seus “ drugues” praticam inúmeros crimes — sexuais e de violação — mostrando-se sempre um sociopata incurável e uma ameaça a sociedade, ou seja, o espécime perfeito para a experiência do novo método de cura que o estado chama de “Processo Ludovico” e que, aplicado em Alex na prisão (para onde ele vai após ser traído pelos seus drugues), acaba se mostrando um grande estupro mental do jovem, mas que se mostra eficaz de fato, ainda que o desenrolar de tudo o que cercava Alex não corra conforme o esperado pelo estado que o prendera (onde um pequeno erro tranforme Alex em um ser que não mais tolera música) já que a sua vida fora da prisão havia desmoronado sem ele. Nem a sua família o tinha mais — ele havia já sido substituído — e, nesse contexto, vemos que ele se torna a vítima perfeita para a violência que outrora praticava.Perdido, excluído e rejeitado por todos que antes o rodeavam Alex agora vagueia pela violenta Londres futurística sendo vítima de todos os que antes eram as suas vítimas — mendigos e seus antigos amigos que agora fazem parte da polícia. Perdido ele acaba se refugiando na casa do velho escritor de esquerda que antes tinha sido sua vítima — e que por isso mesmo, agora, encontrava-se paralítico (por ocasião do espancamento sofrido) e viúvo (sua esposa não aguentou a violência proferida por Alex e seus amigos) — e que, no ápice da sua raiva, vê em Alex a possibilidade de uma dupla vingança: contra o seu agressor de outrora e contra o estado. E, empurrando-o ao suicídio (que fracassa), acaba tornando-o o modelo perfeito ao estado para tornar-se alvo de mais campanha política, posição que Alex aceita, hipocritamente, enquanto mantém seu gosto por violência e sexo.O livro fora proibido em vários países devido a sua suposta apologia a violência, e o filme de Kubrick tornou-se a época muito polêmico por retratar de maneira crua e visceral toda a carga sexual e violenta que temos no livro. Centrado no triângulo muito comum a Kubrick de sexo/violência/morte (algo que o diretor já havia centrado-se em filmes anteriores como Dr Strangelove) a realização do filme é perfeita. Kubrick faz um uso excepcional das grandes lentes angulares e da câmera lenta, dando a cada cena um grande peso, abafando o filme e o transformando em uma passagem claustrofóbica e labirintítica pela mente humana, centrando-se numa análise social rica que ressalta a violência que estamos inseridos. Sempre.Mas, reduzir o filme todo à uma crítica a sociedade e a violência é diminuir a obra. Temos, dentre as inúmeras camadas, uma obra imbuída de um culto de niilista e um retorno a radical violência que pode ainda ser vista e parafraseada com os dias de hoje (mesmo mais de 30 anos após a sua realização) quando nos deparamos com os recentes protestos em Wall Street e ao redor do mundo.