layout: post title: Dodeskaden tags:

  • Akira Kurosawa
  • Cinefilia
  • Memória —Baseado no livro de contos “A Cidade Sem Estações” de Shugoro Yamamoto o primeiro filme em cores de Akira Kurosawa é um soco no estômago.Contando a vida de um grupo de moradores de uma favela de Tóquio — sim, existem favelas em Tóquio, isso não é uma exclusividade brasileira — e a sua convivência entrelaçada pela triste realidade de pobreza e miséria. O título do filme é uma alusão poética ao barulho feito pelo personagem Rokkuchan, um garoto miserável que percorre as ruas da favela imaginando-se no comando de um bonde — ressaltando um dos traços mais evidentes do filme: a fuga. Assim como ele todos os outros personagens do filme suportam a realidade cruel com fantasias impossíveis, amenizando a vida em sofrimento e sem dinheiro que todos ali levam.O “líder comunitário” — usando um termo familiar para nós brasileiros — é o velho artesão Tamba, um personagem que faz o estilho “velho sábio”, muito comum nas narrativas japonesas antigas que é caracterizado pelo próprio Kurosawa como:>“um sujeito que amadureceu como um sujeito bom e honesto ao longo de sua vida e alcançou a posição do homem mais velho, maduro e experiente”. Ainda que esse líder não seja, a exemplo de muitos outros filmes do diretor japonês, um líder nato que centraliza o foco narrativo nele próprio. Ao contrário, o filme é centralizado na realidade dura daquelas pessoas e em como devem ser fortes para superar a realidade que as cerca e conseguir, quem sabe, mudar essa realidade de maneira que consigam fugir dali, numa fuga impensável, numa realização irrealizável em uma lírica libertação do indivíduo perante a sua realidade.Tamba, apesar disso, é o único personagem da trama que tenta entender aos seus vizinhos — sem julgá-lo em nenhum momento — fazendo assim o elo narrativo entre o expectador e o roteiro e transformando o velho Tamba em um samurai da pequena favela. O recado está dado por Kurosawa de maneira muito clara: as aparências enganam.