Para muitos, jogar é um hobby para toda a vida. Por que, então, esta é considerada uma atividade infantil por tantos?

Super Mario Bros. (NES)Em julho passado eu estava pegando alguns últimos itens para um churrasco de verão e por acaso encontrei uma tia que eu não via há vários anos. Ela é um daqueles membros distantes da família com quem você é amigável ao vê-la em público, mas nunca há planos de nos visitarmos novamente, exceto de passagem. Estávamos conversando sobre trivialidades típicas, incluindo as perguntas esperadas sobre outros membros da família, quando meus ouvidos se animaram sobre um comentário cínico feito sobre seu filho.

“Ele está sempre sentado com a bunda colada jogando o Pokémon! Eu digo a ele que ele está muito velho para isso!”. Eu ria junto, sem dizer a ela que provavelmente jogo com muito mais frequência do que meu primo, embora também seja cerca de quatro ou cinco anos mais velho do que ele. O tipo de opinião dela é adotado por pais que não foram jogadores desde o início dos tempos (conhecido como a chegada do Atari no Brasil). Uma opinião sobre a qual não me sensibilizei até anos recentes.

Você sabe, aqueles anos em que você se torna um adulto e começa a avaliar todas as alegrias que teve desde a juventude e se ainda são atividades adequadas para a sua faixa etária.Apesar do meio gamer ter explodido em popularidade entre muitos grupos demográficos diferentes, os jogadores maduros ainda são vítimas do julgamento frequente dos outros adultos que se sentam fora do mundo maravilhoso de pontuações altas e vidas extras. É um hobby que, ao mesmo tempo, ganhou força como forma convencional de entretenimento e se tornou mais um alvo para culpar os adultos que perdem tempo no sofá em tardes de finais de semana aleatórias. E passei de criança a adulto durante essa explosão de popularidade para jogos, o que me deu muito tempo para olhar para trás, para a evolução dessas terras mágicas e criativas nas telas em que jogamos e me perguntar se os jogadores deveriam realmente ser julgados pela sua escolha de passatempo; assim como meu primo foi considerado muito velho por minha tia no supermercado. Mas, para chegar a esta resposta, decidi que precisava descobrir o que fez a mim e tantos outros jogadores, ao longo da vida, levar nosso amor por essas experiências para além da idade que a sociedade nos diz que ainda é apropriado fazer esse tipo de coisa. Além disso, essas razões para amar os jogos são “infantis” ou são atemporais?Acredito que a primeira coisa que atrai qualquer jovem jogador aos seus consoles ou computadores para jogar é a criatividade dos mundos que são criados para o jogador participar ao inicializar o dispositivo de jogo. Uma das minhas primeiras memórias como jogador foi a de mergulhar nas selvas cheias de macacos de Donkey Kong 64.

Qualquer fã da Nintendo que seja um millennial deve ter muito o que se lembrar sobre o clássico da Rare, no qual uma das propriedades originais da empresa vaga por sete níveis de plataforma tridimensionais diferentes, pegando de volta as famosas bananas douradas do gorila. Qualquer pessoa que não tenha jogado vai ler essa frase e pensar: “de que perda de tempo absurda estamos falando aqui? Controlando símios procurando frutas-troféu?”.Por outro lado, quem já viveu esta aventura terá os seus nostálgicos recessos inundados com as alegrias de um mundo criativo que permite pensar em viver e existir numa paisagem muito mais emocionante que a nossa.

Os jogos permitem aos adultos a possibilidade de se conectar com o seu lado criativo que tiveram quando eram jovens, e a oportunidade de nunca abandonar aquela suspensão mágica da realidade com a qual as crianças são privilegiadas.Outro jogo que me vem à mente imediatamente ao discutir essa realidade imaginativa dos jogos é Super Mario World 2: Yoshi’s Island. A sequência de Super Mario World tem gráficos desenhados no estilo de livros infantis, mas com controles rígidos, resolução de quebra-cabeças e descoberta secreta que os adultos apreciariam ainda mais do que as crianças. Eu sempre saio deste jogo me sentindo revigorado e com uma perspectiva otimista de vida, já que a arte absorvente e a música alegre perduram depois de deixar o jogo e reentrar no meu dia no mundo real. E esse é um dos pontos vitais quando se discute a relevância dos jogos na vida de um adulto. Eles nos lembram de nunca levar a rotina humilde do dia-a-dia muito a sério, e que se soltar e escapar para uma terra de fantasia é estimulante tanto para os adultos quanto para as crianças. Se beber uma cerveja é considerado uma opção adequada para eu relaxar depois de um dia duro de trabalho, por que proteger o Baby Mario dos Shy Guys não é? A única embriaguez que está acontecendo comigo nesta última opção é a pura alegria de uma obra de arte interativa e dos adoráveis protagonistas com os quais estou jogando. Estes são apenas dois dos muitos exemplos de jogos que preenchem nosso apetite criativo, permitindo uma mente clara e uma atitude fácil nas atividades mais “importantes” e “responsáveis” de nossos dias que virão (embora nada seja tão gratificante quanto jogar um ovo com o Yoshi).O segundo ponto que eu acredito que torna o jogo uma atividade adulta válida é que muitas vezes é uma experiência muito social. Muito parecido com o meu exemplo anterior de beber uma bebida alcoólica, que muitas vezes é feito com um amigo ou membro da família, jogar videogame em um ambiente multiplayer se tornou a existência de Fortnite, essa é uma forma muito moderna de interagir com estranhos e amigos próximos, reunindo as pessoas de uma forma que não é menos produtiva ou madura do que ir ao cinema para assistir a um filme ou reunir-se em torno da TV para assistir a um novo drama na Netflix ou no Hulu. Muitos argumentariam que jogar jogos online é mais um exemplo da necessidade da geração mais jovem de interagir à distância, nunca tendo outra pessoa realmente em sua presença física, o que é de fato um fator diferenciador de filmes e outros programas. Ao mesmo tempo, adultos de todas as idades permitem que as mídias sociais dominem suas interações sociais por longos períodos do dia. Isso demonstra que o jogo online é apenas mais uma personificação do mundo virtual em que existimos e isso certamente não deve definir a atividade como apenas para crianças, assim como o Twitter ou o Facebook não deveriam. Os jogos online mantêm o mundo em loop e fazem dos jogadores uma grande família interativa. Não existe idade onde se é velho demais para desfrutar de uma reunião social inocente e divertida.Esses tipos de jogos online não são algo em que eu me envolva muito porque os gêneros (tiro em primeira pessoa, arena de batalha, etc.) não estão entre meus favoritos. Por outro lado, ainda tenho muitas lembranças pessoais intensas de jogar jogos multiplayer com minha família no sofá antes de ser possível jogar na Internet. O modo multiplayer local tem sido uma experiência de união para pessoas de todas as idades, uma atividade que apresentou esse meio maravilhoso a pessoas que nunca jogaram um videogame e criou laços entre familiares e amigos que duram uma eternidade.

Jogar Mario Party com meus pais e irmão é sempre a primeira ideia de uma noite de jogo em família que vem à minha mente quando multiplayer é o assunto das conversas. Se sentar à mesa da cozinha com um jogo de tabuleiro físico é um evento para todas as idades, coletar estrelas e jogar confrontos 2 x 2 para ganhar mais 10 moedas enquanto se anda por um tabuleiro interativo que usa como tema o mundo de Mushroom Kingdom é igualmente uma atividade para todas as idades . Nunca houve nenhuma briga mesquinha, que normalmente aconteciam entre eu e meu irmão, e eu sei que meu pai gostava de passar o tempo conosco, mesmo que o azar aleatório de ter sua estrela roubada por Boo o fizesse querer gritar!

Isso porque jogar videogame com pessoas que são importantes para nós não é sobre o jogo em si, mas como os jogos trazem à tona todos os melhores sentimentos que temos sobre essas pessoas.

Os sentimentos que consideramos óbvios quando fazemos atividades com eles geralmente são muito mais maçantes. Os jogos fazem-nos rir uns dos outros sem nos ofender, fazem-nos perguntas bobas e dar respostas sem a típica condescendência. As memórias que eles criam nos relacionamentos seriam minha resposta proeminente para qualquer um que se oponha a interpretá-los como um hobby para toda a vida.Isso leva direto ao meu argumento final:

os videogames são uma atividade para todas as idades.

Existe uma imensa quantidade de pessoas que passam o hobby para outras pessoas enquanto participam da diversão multiplayer mencionada de que acabei de falar. As crianças podem estar apresentando o hobby com os pais, ou os pais podem até mesmo estar repassando o passatempo de jogar para os filhos. Fui conduzido ao universo dos jogos por meu pai, que começou quando o Donkey Kong original foi lançado há quase quatro décadas. Eu o observei jogar os chefes finais para mim em uma variedade de clássicos no SNES e no Nintendo 64, com a batalha de boxe com o King K. Rool no Donkey Kong 64 continua sendo a minha favorita, como eu mencionei antes. Jogos são uma tradição geracional, embora bastante nova. Os adultos jogam desde o início, e quando incentivam os jovens ao seu redor a buscarem seu próprio prazer com eles, fica claro que não existe faixa etária em que os videogames não sejam adorados. As pessoas que acreditam que são apenas “para crianças” estão perdendo a oportunidade de alguém em suas vidas lhes apresentar as alegrias do entretenimento interativo.Depois de criar esta lista de verificação mental de todas as razões pelas quais os videogames sempre serão uma grande parte da minha vida adulta e de tantas outras pessoas, realmente me pergunto como alguém pode pensar em jogos com alguma restrição de idade. Se você assiste TV ou filmes, vai passear em um parque de diversões ou pratica esportes ao ar livre, está participando da diversão que foi apresentada a você durante seus primeiros anos. Essas atividades acompanham todos na idade adulta e criam um problema de “dois pesos e duas medidas” quando esses hobbies são “permitidos”, mas os videogames não. Ainda assim, pensando bem, realmente importa se o jogo atinge o mercado mainstream onde não ele passa a ser mais julgado por não jogadores? Isso dá a todos nós, dentro da comunidade, tanto prazer que as opiniões dos outros não têm sentido no esquema mais amplo das coisas. Tornar-se mais popular significa menos julgamento do nosso hobby, mas isso também sacrifica a pureza do jogo? Se você joga, sabe o que torna um jogo com. A criatividade, a inclusão social e as memórias, e aquela maneira indescritível com que o acionamento de nossos consoles nos traz tanta alegria em um mundo em que às vezes nos falta tudo isso. Os jogadores adultos devem continuar participando dos jogos e os não jogadores podem continuar a nos julgar. Ah, e se eu vir meu primo quando tiver 50 anos, espero que ele ainda esteja jogando Pokémon.


Tradução do artigo[embed]https://medium.com/super-jump/too-old-to-play-ageism-and-gaming-ccac76ebb7bf[/embed]