Nem só de Paganini vive a obra “água com açúcar” de Richard Matheson. Essa passagem, quando Richard Collier, o viajante no tempo que volta à 1896 para conquistar (?) Elise, a mulher que ele amou em 1971 e em 1896 sem conhecer, me chama atenção sobre como um romance que poderia estar numa prateleira de farmácia ao lado de algum Júlia perdido trata de um tema espinhoso sobre a natureza feminina e o preconceito.>—Serei franca com você, Richard. Há anos venho sendo perseguida pelos homens, mas posso acrescentar que sempre soube manejar o assunto sem nenhuma dificuldade. Com você, no entanto… — esboçou um sorriso fatigado.

— Bem, e tão difícil, que me custa reconhecer-me como a pessoa que fui ate hoje.” — Vacilou, mas depois continuou — Como deve compreender, nos,mulheres, fomos criadas para nos sentirmos inferiores, quando se trata de uma realização objetiva.

Parei bruscamente ao ouvir aquilo. Não apenas uma observação, mas uma declaração deliberação feminina, em 1896?

— Em vista disso — continuou ela — , as mulheres são forçadas a uma condição de subjetividade, quero dizer, tornando o eu mais importante do que deveria ser, acentuando mais a aparência e a vaidade, que a mente e a capacidade. Tenho sido poupada desse apuro por meu sucesso teatral, mas poupada à custa da respeitabilidade básica. Os homens veem com desconfiança as mulheres que se dedicam ao teatro. Com nossas realizações, colocamos o seu mundo em perigo, entende? Mesmo que nos elogiem por essas conquistas, fazem-no na terminologia da aceitação masculina da mulher. Em geral, os críticos sempre falam das atrizes em termos de seu encanto ou beleza, nunca de sua capacidade no desempenho de um papel. A menos, naturalmente, que a atriz em questão seja tão idosa, que ao crítico nada mais reste para mencionar.”

Quando ela falou, dois sentimentos brotaram em mim. Um deles era a apreciação da verdade literal do que Elise declarara, O outro, algo semelhante a uma respeitosa admiração, por me ver subitamente exposto à profundidade que possuía a mulher por quem me apaixonara. Evidentemente, fora possível apreciar tal profundidade numa foto desbotada, mas o fato e que ela possui algo que mais admiro em uma mulher — uma individualidade progressiva, contida numa discreta natureza. E eu a ouvi, fascinado.

— Como todas as atrizes — dizia ela — , sinto-me aprisionada pelos ditames masculinos,quanto a uma mulher exibir apenas atributos femininos. Representei Julieta, mas não apreciei o papel, porque nunca tenho permissão para mostra-la como um ser humano em agonia, e sim como uma bela soubrette, dizendo falas floreadas. Estou querendo dizer que, em vista de meu passado geral como mulher e,particularmente, como atriz, desenvolvi através dos anos uma rede de defesas emocionais contra a atitude masculina. Meu sucesso financeiro contribuiu para espessar ainda mais essa rede, adicionando uma outra camada de suspeita em relação a qualquer abordagem dos homens. Assim sendo, compreenda, por favor, compreenda: o fato de ter passado tanto tempo em sua companhia constitui, comparado a meus atos passados, um milagre na modificação de meus conceitos. E também o fato de ter-lhe dito tudo isso ultrapassa a categoria dos milagres.

Elise suspirou fundo.

— Sempre procurei conter minha predileção pelo oculto porque, como mulher, sinto que isso teria uma tendência a corromper decisões, a tornar crédula uma mente que precisa ser forte e consciente. Em resumo, tornar-me-ia vulnerável. Não obstante, só posso atribuir a essa mesma parcialidade o meu comportamento em relação a você. Tenho a sensação — e não há escapatória disso — de que estou envolvida em algum inefável mistério. Um mistério que me perturba mais do que ouso dizer, mas a que não posso virar as costas.” Ela sorriu, melancólica.“Terei dito alguma palavra que tenha sentido?

— Todas elas tem sentido, Elise — respondi — Eu compreendo… e sinto um profundo respeito… por todas e cada uma delas.

— Bem, já é alguma coisa — disse ela