Os dois jogos produzidos pelo Team Ico — Ico e Shadow of the Colossus — fizeram parte da grande discussão que movimentou alguns círculos de jogadores e aspirantes a game designers nos anos 2000, na época onde o PS2 ainda reinava soberano no mundo todo.

Eu mesmo passei horas jogando ambos no PS2 do meu irmão mais novo quando voltava da faculdade aí por 2005. Era um mundo vasto, de paisagens secas e inóspitas que despertava em um um espírito aventureiro. Claro que eu nunca fui um caçador de segredos como os que o texto mostra e, muito menos, eu era capaz de vencer todos os Colossus no modo de time-attack, mas mesmo assim eu compartilho com eles o sentimento de pertencimento ao mundo do jogo e, principalmente, a ideia de que existem ainda segredos que podem ser descoberto naquele mundo vasto e árido.**

Tradução do Artigo o escrito originalmente por Craig Owens para a Eurogamer.

Atualizado em 6 de fevereiro de 2018

Nota do editor: Incrível como deixamos passar o lançamento de Shadow of the Colossus para PS4 sem retornar a esse assunto — um artigo que foi republicado tantas vezes quanto o jogo foi remasterizado, pelo menos. O artigo de Craig Owens foi publicado pela primeira vez em 2013 (e se você se perguntou o que Craig estava aprontando, ele está na Rocksteady trabalhando em qualquer mistério que a desenvolvedora de Arkham Knight esteja tramando).

Há um afloramento rochoso bem na extremidade do mundo.

Não é difícil de encontrar, embora você precise trotar por cavernas e galopar por uma planície deserta para alcançá-la. A verdadeira questão é por que você faria isso? Não há colossos empoleirados nesta saliência escarpada que repousa na ponta mais ao sul das Terras Proibidas de Shadow of the Colossus. Há apenas uma vista deslumbrante do oceano, uma estreita faixa gramada para caminhar e um bando de gaivotas voando silenciosamente no ar lá embaixo. É pacífico, certamente, mas também o são dezenas de outros cantos lindos e escondidos da paisagem evocativa feitos pelo aclamado Team Ico.

Ainda assim, Michael — mais conhecido por seu nome de usuário Ozzymandias — estava lá mesmo assim, e estava fazendo algo um tanto estranho. Ele estava estudando as gaivotas. Repetidamente ele carregava o jogo, conduzia Agro em direção a essa visão perfeita de cartão-postal e então desmontava do corcel. Enquanto Agro trotava silenciosamente, Ozzy andava com cuidado até uma das muitas rochas penduradas na beira do penhasco. E ele esperava, observando os pássaros voando.

E então Ozzymandias pulava para o céu.

A jornada de Ozzymandias para a face do penhasco começou três anos antes, quando Shadow Of The Colossus emergiu.

“Tenho quase certeza de que apenas sentei e joguei tudo de frente para trás”, explica Ozzy, que se apaixonou por Ico e esperou com paciência o próximo jogo da equipe. “No final, eu estava tirando meu queixo do chão pensando que eles tinham feito isso de novo, mas foi misturado com uma tristeza realmente intensa que, depois de toda essa espera e antecipação, acabou.”

Ozzymandias é apenas um dos buscadores de segredos, um grupo dedicado a desenterrar os grandes segredos de Shadow of the Colussus. Então, Ozzy se voltou para fóruns cheios de devotos apaixonados e com ideias semelhantes. No início ele estava procurando maneiras astutas de derrotar os colossos mais rápido, mas logo descobriu algo muito mais fascinante. O jardim escondido no topo do Santuário de Adoração, vislumbrado durante a cena final de Shadow of the Colossus, estava acessível no jogo. Este é o maior Easter Egg de Shadow Of The Colossus, provocado pelas protuberâncias musgosas, alças e saliências que serpenteiam ao redor de todo o exterior da estrutura mas que não podem ser alcançadas até que você tenha completado o jogo várias vezes. O Jardim Secreto, como ficou conhecido, é a recompensa final para o mais dedicado dos caçadores de colossos: um último desafio e um vislumbre da beleza verde em uma terra totalmente austera. Mas não foi o suficiente para Ozzymandias e seus outros fãs.

“Existem outros lugares que você pode ir?” Ozzymandias queria saber. “O que mais repousa na paisagem desolada desse jogo?” ele se perguntou. “O que mais você pode procurar?”

Mesmo agora, é fácil entender por que Shadow Of The Colossus manteve tantas pessoas tão fascinadas. Jogando o jogo novamente, fico surpreso com o senso de história que permeia a paisagem dele. Ruínas levam a planícies sombrias e cinzas, cidades vazias e lagos deslumbrantes cercados por templos. Tudo parece um segredo nas Terras Proibidas, porque o jogo vende totalmente a ideia de que os seus são os primeiros olhos humanos a lançar sobre ele em milhares de anos. No caminho para visitar o ponto, apenas acessível via paraquedas, que Ozzymandias tanto fala, me perco e acabo tropeçando em uma gruta cintilante isolada pelas montanhas que a cercam. Parece uma descoberta, até porque Shadow Of The Colossus é friamente indiferente sobre o que você acha essas coisas.

Estamos acostumados a brincar em espaços com propósito. Skyrim oferece uma paisagem tão grande quanto a do Shadow Of The Colossus, bem como uma beleza invernal própria, mas a terra natal dos Nórdicos é totalmente repleta de funções e repleta de tradição. Cada caverna tem uma missão anexada, cada NPC uma tarefa. Não há segredos em Skyrim, apenas uma lista de tarefas épica.

Mas em Shadow Of The Colossus tudo o que você pode fazer é olhar para um santuário em ruínas no meio de um deserto e se perguntar para que serve.

Ozzymandias e os outros caçadores de segredos encontraram um lar nos fóruns oficiais da Sony, onde se reuniram para descobrir onde os segredos e os Easter Eggs restantes de Shadow Of The Colossus poderiam estar. As primeiras especulações se fixaram na ideia de que havia uma maneira de escalar além do topo do jardim secreto, até o telhado do templo principal. Os caçadores de segredos mais ambiciosos esperavam que, se os requisitos corretos fossem atendidos, os jogadores poderiam de alguma forma desbloquear um final secreto para o jogo. E a teoria mais fantasiosa de todas era que havia um colosso oculto, o mítico 17º, em algum lugar das Terras Proibidas.

Ao longo do caminho, os caçadores de segredos descobriram truques que ajudaram na exploração do jogo, muitos dos quais envolviam uma exploração inteligente da física de Shadow Of The Colossus. O lançamento com Agro é uma habilidade crucial para qualquer candidato à calador de segredos aprender. Salte de Agro precisamente no momento certo enquanto o cavalo sobe uma inclinação e Wander será lançado para o céu e, talvez, para cantos escondidos do mapa. Outros caçadores de segredos mais ousados começaram a lançar dos próprios colossos, usando os ataques e animações da criatura para se lançarem em partes inacessíveis dos covis da fera ou simplesmente derrotar os monstros em tempo recorde.

Ainda assim, havia um ar fragmentado e desorganizado nos primeiros anos da caça ao segredo: “Alguém tinha uma teoria, ele então abria um tópico, se ninguém fosse capaz de levá-lo a lugar nenhum, ele meio que desapareceria”, lembra Ozzymandias. E então isso mudou.

O buscador de segredos chamado de Ascadia-PSU tinha uma teoria que mudou o foco do santuário central para outra ruína ao norte. Mas, muito mais importante, o homem tinha um discurso de vendas.

O tópico de Ascadia explica sua Teoria dos Pontos de Cruzamento em detalhes tão abrangentes que é difícil não se deixar levar pelo entusiasmo na primeira leitura. Com base na exposição no início do jogo, na análise cuidadosa dos mapas das Terras Proibidas e alguma interpretação criativa dos símbolos misteriosos espalhados pelo jogo, Ascadia concluiu que o Team Ico estava apontando os jogadores para o covil do 11º colosso, Celosia, e um misterioso, com a porta bloqueado. Atrás dessa porta era onde o Último Grande Segredo (como ele o cunhou) seria encontrado. O problema enfrentado pelos buscadores de segredos era este: como abri-lo?

Muitas teorias foram tentadas. Celosia foi o único colosso combatido com uma ferramenta extra — uma tocha flamejante. Tochas flamejantes foram usadas em Ico como dispositivos de resolução de quebra-cabeças. Isso era uma pista, certo? Mas não — não importa para onde os jogadores usassem Agro para se lançaram, não havia nenhum braseiro escondido para acender a luz ou uma alavanca para encontrar. Com o tempo, a Teoria dos Pontos de Cruzamento caiu no esquecimento. Mas a thread sobreviveu.

Com quinhentas e cinquenta e nove páginas, essa thread é um tributo duradouro à dedicação e paixão dos buscadores do segredo. Iniciado dois anos após o lançamento do jogo, ele ainda recebe atualizações ocasionais hoje — porque mesmo depois que a ideia dos Pontos de Interseção foi abandonada, a análise detalhada e os argumentos persuasivos de Ascadia transformaram sua thread no ponto focal para todas as buscas de segredos subsequentes. Nos momentos de pico, não se passava uma página sem a descoberta de uma nova falha ou um belo achado geográfico. E apenas uma dúzia de páginas passava sem que uma nova teoria fosse discutida, ansiosamente aproveitada e depois deixada para trás.

Inevitavelmente, algumas teorias eram mais desesperadoras do que outras. “Uma coisa que eu pensei que seria a chave”, lembra Ozzymandias, com um tom ligeiramente embaraçado “foram as catacumbas a caminho do 16º [e último] colosso. A maioria de nós se lembra do primeiro grande Easter Egg do jogo como aquele em Adventureonde você encontra o ponto nas catacumbas e ele abre uma porta para você”, continua. “Então, sim, eu tinha uma teoria estúpida de que poderia correr por aí nessas catacumbas pressionando Wander contra as paredes e, eventualmente, encontraria o ponto, por assim dizer.”

“Nunca encontrei o ponto”, admite Ozzy. “Não havia nenhum ponto. Então, sim, isso não funcionou. Mas as ideias de todo mundo estavam indo para esse tipo de lugar, porque as frutas mais baixas já haviam sido eliminadas”, Outros becos sem saída incluíam um misterioso curso d’água percorrível nas margens sudeste do mapa. Infelizmente, o que a princípio parecia uma ponte invisível para partes desconhecidas logo foi descartado como detecção de uma colisão rebelde.

Ainda assim, os buscadores de segredos fizeram algumas descobertas. Não é o último grande segredo, talvez, mas esses recursos ocultos peculiares do jogo são um reflexo de sua dedicação. Alguém encontrou uma praia estranhamente reminiscente com um pedaço de costa semelhante ao que é visto nas cenas finais de Ico. Outro jogador encontrou dois lagos com peixes reais e animados, escondidos no mundo. Mas meu achado favorito é o Lokis. Há pássaros voando por todas a parte nas Terras Proibidas, e não demorou muito para os jogadores perceberem que Wander poderia pular e agarrá-los. Mas os caçadores de segredos encontraram três pássaros especiais, diferentes de todos os outros no jogo. Esses falcões gigantes não foram puxados para baixo pelo peso de Wander quando os jogadores os agarraram — o que significa que eles levariam os jogadores para um passeio turístico pela paisagem circundante. Mas não, infelizmente, no covil de um colosso escondido.

“Eles eram provavelmente quatro ou cinco vezes maiores que os outros pássaros do jogo”, lembra Ozzy. “A rota de voo deles nunca mudou, mas foi emocionante e não havia dúvida de que foi intencional. Eles devem ter sido feitos para estar lá. “

Ueda originalmente pretendia que houvesse 48 colossos — o número foi reduzido drasticamente no produto final. Foi um conjunto diferente de pássaros que trouxe Ozzymandias ao topo de seu penhasco, no entanto. Enquanto outros jogadores estavam usando Agro para saltar em cantos não intencionais do mapa, muitos com texturas incompletas e colisões não confiáveis, Ozzy estava convencido de que, se houvesse um Último Grande Segredo a ser encontrado, ele seria descoberto por meios mais legítimos . Além do mais, ele encontrou uma pista promissora. Na parte mais ao sul das Terras Proibidas havia um bando de gaivotas cuja rota de voo, assim como a dos Lokis, os trouxe por um momento tentador ao alcance do alcance de Wander. Só havia um problema: o jogador tinha que pular do penhasco primeiro.

“Lembro-me de vê-los e assisti-los por uns cinco minutos”, lembra Ozzy, “antes de fazerem aquela passagem de fração de segundo. Eu os estava observando por um tempo absurdamente longo. Mas eu sabia que o salto era possível. Não sei quantas vezes morri tentando fazer isso”.

E então aconteceu: Ozzymandias saltou do topo do penhasco e agarrou em várias gaivotas em sua queda. “Achei que com certeza elas me levariam a uma caverna secreta dentro da qual encontraria o 17º colosso que ninguém tinha visto antes”, Ozzy relembra, rindo.

O pássaro carregou Ozzy por um curto período, antes de seu peso arrastar os dois para o oceano, onde se afogaram.

Agora, porém, a busca pelo Último Grande Segredo havia entrado em uma nova fase. E o momento da transição pode ser marcado com precisão. No meio de 2008, um novo usuário se juntou aos fóruns oficiais do PlayStation e começou a postar clipes estranhos contendo insetos impossíveis de replicar — como colossos terrestres voando pelo ar.

“Tentem descobrir como eu faço essas coisas”, ele brincou enigmaticamente.

Ele estava trapaceando. Acontece que uma versão emulada de Shadow of the Colossus funciona de forma tortuosa, gerando falhas estranhas, as vezes úteis, como animações aceleradas que poderiam ser usadas para acessar partes anteriormente inacessíveis do jogo. O trabalho de Pikol praticamente obliterou qualquer esperança remanescente em teorias há muito cultivadas. Não havia nada atrás da porta no templo do 11º colosso. Não havia nada além de uma arquitetura incompleta e defeituosa acima do Jardim Secreto, em direção ao topo do santuário. Mas, ao acabar completamente com as velhas ideias dos caçadores, Pikol permitiu que um novo tipo de busca de segredos começasse — mais preocupado em perscrutar cada canto esquecido do jogo do que descobrir algum mistério transformador em seu coração. A maior descoberta de Pikol foi uma represa texturizada totalmente acabada — separada do resto do mapa e aparentemente cortada do jogo.

Nomad, cujo blog mostra suas habilidades em Shadow of the Colossus (teorias e hacks), e cujas imagens acompanham este artigo, era um dos caçadores de segredo da última geração: “[Pikol] mostrou o que era possível por meio do hack em SoTC — ele podia ir a qualquer lugar que quisesse e isso me fez querer tentar”, lembra ele. Nomad já era um jogador talentoso, especializado em usar Agro como catapulta — “Eu me levantei atrás das torres na Floresta de Outono e pude correr por lá, as pessoas não podiam acreditar que isso tinha sido esquecido todos esses anos” — mas sua verdadeira paixão era usar hacks para explorar as regiões montanhosas fechadas nas bordas das Terras Proibidas.

As paisagens de Ueda são infundidas com um enigma — que pode nunca ser totalmente desvendado. “Pikol e os outros nunca teriam feito isso”, lembra Nomad. “Simplesmente não interessava a eles, mas para mim era o mais emocionante — nunca havia nada lá em cima, apenas paisagens áridas com árvores e arbustos, mas eram vastas e sólidas — Wander podia andar por lá — o que é realmente estranho, pois na maioria dos jogos, esse tipo de área não tem detecção de colisão, mas aqui tinha. “

Eventualmente, os hackers conseguiram rastrear o código de visualização oficial do jogo e começaram a hackeá-lo para encontrar segredos que haviam sido cortados do jogo de varejo. Nesse ponto, a noção de um segredo legítimo que os jogadores deveriam ‘descobrir’ fora inteiramente abandonada. “Eu queria explorar o que havia de diferente [na versão beta]”, explica o hacker WWWArea, “e encontrar mais coisas beta perdidas”. Ele o fez — as descobertas da WWWArea incluem itens beta descartados, como o Eye Of The Colossus, que, quando usado, teria permitido que você lutasse contra colossos com um ângulo de câmera fixado em seu ponto de vista.

Não tenho certeza se sobrou algo para encontrar em Shadow of the Colossus. Oito anos depois com inúmeros tópicos em fóruns, postagens em blogs e vídeos no YouTube, significa que os caçadores de segredos limparam o jogo. Hoje em dia, Nomad está mais interessado em descobrir o que foi cortado do jogo do que escondido dentro dele. Suas especulações sobre a natureza de oito colossos descartados — como eram, como poderiam ter se comportado e onde os jogadores poderiam tê-los encontrado e lutado — são uma leitura fascinante.

Mas incomoda aos buscadores de segredos o fato de nunca terem encontrado o que procuravam? Nomad é filosófico sobre a busca da qual fez parte.

“O que importava era a busca”, ele me conta. “Gosto de dizer que é como um teste de Rorschach, as pessoas imprimem todas as esperanças e crenças que têm nas vastas paisagens vazias e veem segredos que não existem — elas apenas esperam que estejam lá.”

Ozzymandias, por sua vez, relembra com carinho seus dias de salto de penhascos e admite que sempre soube que um grande achado era improvável. Embora, novamente, esta seja a observação com a qual terminamos:

“Você sabe o que vai acontecer quando publicar isso, Craig?” ele me diz. “Isso vai inspirar as pessoas a pesquisar, e uma dessas pessoas vai encontrar o Último Grande Segredo de Shadow Of The Colossus.”

Boa sorte.