Desde 2011 eu trabalho como autônomo majoritariamente. Desde 2011 eu coleciono histórias sobre o mundo do trabalho semiescravo da tradução. Nunca fui exatamente um grande amante da arte de trabalhar em escritório tomando café forte e ruim e batendo papo sobre amenidades como NFL, então a ideia de trabalhar “por conta”, como diria a minha mãe, sempre me atraiu e, fazendo faculdade de Letras isso era quase a regra.

Entre mortos e feridos, estou longe de ser minimamente estável. Aos 37 anos eu ainda preciso morar com a minha mãe pra conseguir sobreviver. Não tenho intercâmbio no currículo e meu inglês é o que eu aprendi na faculdade e no SNES. Mesmo assim, consigo trabalhos aqui o suficiente pra manter ajudando a casa e acho que, sem um concurso público, jamais serei estável como muitos colegas de escolas boas e que tiveram um ótimo preparo a vida toda para seguirem a carreira que quisessem.

De qualquer modo, nesses anos todos, o pior trabalho que eu consegui - e que serve de pontapé inicial pra esse post - foi com uma pessoa de Porto Alegre que me pagou em moedas (!) e queria trocar 50% do pagamento por “mentoria” porque ela era “coach” (na época nem era moda, ainda).

Tudo começou ali por 2015, quando eu trabalha num projeto de pesquisa n UFRGS, bolsista que era, os R$400 eram quase uma ajuda de custo pra ir pra faculdade e comer no RU, então quando o telefone tocou com uma proposta de trabalho eu me animei e corri pra casa (modo de dizer, entre sair da sala de pesquisa, esperar na parada do Campus do Vale, pegar o T10 e chegar em casa se passaram quase duas horas) para iniciar, pela primeira vez, um trabalho de legendagem.

A primeira coisa que me saltou aos olhos foi que o trabalho pagava pouco, muito pouco. Centavos por atividade. Levei quase três horas de trabalho relativamente intenso para converter o vídeo (que veio em .mov a 240p de resolução) para .avi para poder iniciar o trabalho. Tiver que catar um software de código aberto que rodasse bem e conseguisse funcionar no meu notebook e, por fim, tive que transcrever o texto em inglês para fazer a legenda em inglês, traduzir esse mesmo texto pro português para fazer a legenda em português e depois sincronizar ambas (porque o trabalho exigir as duas ao mesmo tempo, um na parte debaixo do vídeo e outra na parte de cima). Alguma coisa foi “comida” nesse processo, mas garanto que o sentido principal do texto foi mantido. 

Por quatro vídeos que somavam 45 minutos eu recebi R$30. Em 2015. Mas era um trabalho e a pessoa que me pediu isso era relativamente conhecida. Então eu topei porque poderia render algo a mais depois.

Pedi que o dinheiro fosse depositado na minha conta. Não teve como, a pessoa não “trabalhava assim” e eu deveria ir até a casa dela para receber. Eu fui, precisava dos R$30.

Caminhei metade da cidade pra economizar a grana do ônibus (ainda bem que era um dia nublado) e chegar na casa da minha cliente. Bati a campainha, ela me atendeu, o que era de esperar. Fui entrar na casa dela e tomei o primeiro xingão: “não se entra de sapato vindo da rua” e me mandou tirar os tênis na porta. Tudo bem. Fui entrar de meia na casa e tomei o segundo xingão: “não te conheço, tuas meias podem estar sujas”, e eu ganhei uma “touca” de pé, dessas que se usa em hospital, meio rasgada e encardida. Coloquei nas minhas meias e, com certeza, sujei mais elas do que se tivesse caminhado no assoalho da dona da casa.

Ela me mandou sentar e veio com uns quitutes de maracujá. Recusei. Ela disse que era desfeita. Aceitei. Comi, quase vomitei. Pedi que ela me pagasse porque eu tinha que ir pra aula ainda.

  • Claro, vamos no meus escritório no mezanino, disse ela.

E ela tinha um mezanino. E a casa era grande. E eu fiquei puto dela pagar apenas R$30. Mas pobre é assim, sempre cobra errado e sempre aceita o valor que o rico paga.

Subi no mezanino e ela me mandou sentar, de novo, num sofá velho dessa vez, e começou a falar sobre platitudes da vida de tradutora. Me mostrou um projeto que ela estava trabalhando sobre “português europeu” e depois passou a me falar sobre os cursos que ela e o sócio estavam fazendo sobre coach, era 2015, eu nem sabia o que era isso, e me propôs que os próximos trabalhos fossem “meio-a-meio”, com pagamento monetário e pagamento via treinamento pra coach - não pra eu me tornar um da seita, mas pra eu receber petardos de sabedoria dela sobre a profissão de tradutor - em futuras parcerias.

Fiquei de responder, claro, e pedi carinhosamente que ela me pagasse os R$30 porque a volta era longa e o caminho pedregoso. Ela me pagou. Me deu uma nota de R$10 e o resto em moedas variadas. Isso mesmo, moedas. Poucas de R$1. A maioria de 10 centavos. Saí pesando uns dois quilos a mais de dentro da casa da minha cliente e prometendo que nos falaríamos sobre o projeto de português europeu (que nunca rolou, apesar de 3 reuniões via Skype que foram desastrosas, ou seja, eu tentei ainda fazer o trabalho render mais alguma grana). Quando cheguei em casa minha mãe olhou os bolsos da minha calça e perguntou se eu tinha assaltado o Buda de alguma casa. Resmunguei alguma coisa sobre ter de trocar essas moedas na padaria e fui tomar um banho pra tirar o suor do corpo (porque pobre tá sempre suado e sempre caminhando).

Por sorte esse não foi o meu primeiro trabalho como tradutor, senão teria sido o último provavelmente.