Essa semana saiu um estudo inglês sobre a Cambridge Analytic (CA) que sugere que, afinal das contas, a empresa era muito mais uma farsa de marketing do que necessariamente uma empresa de big data e análise de dados de usuários, tudo indicado e amparado pelos dados obtidos na investigação sobre a possível atuação desta no Brexit.

Isso abriu em mim uma “porta” sobre como lidamos com os nossos dados e como isso afeta a nossa personalidade dentro e fora da internet, passando pela coleta massiva e quase impossível de ser parada pelo Facebook até atos simplórios como o CPF na nota do mercado ou o desconto em medicamentos que alguns laboratórios entregam se você cadastrar os seus dados e suas compras com eles.

Claro que as implicações possíveis são inúmeras e, de certa forma, todas elas reforçam a ideia central do capitalismo de transformar tudo e todos em produtos rentáveis para menos de 1% da população mundial. Mas quero ir mais além e falar sobre escolhas pessoais.

A ideia me surgiu quando eu li um comentário no Manual do Usuário sobre um casal norte-americano que teve uma discussão quando a companheira comprou, sem a anuência do companheiro, um “smart speaker” da Amazon — aka Amazon Echo — o que, segundo o homem era uma “máquina de vigilância” que ela estava colocando em casa. Ele tem seu ponto, claro, assim como todos aqueles que apontaram o fato de que ao ter um telefone moderno em casa você já mantém um aparato de vigilância mercadológica com você — e mais do que em casa, esse aparato lhe segue o tempo todo — e como isso era, essencialmente, uma hipocrisia.

Ainda que eu concorde com a hipocrisia apontada, o ponto que eu coloco é: é possível se desvencilhar da mercantilização da nossa personalidade?

Por mais que a Amazon, Google e Facebook (FAG) usem seus dados de forma a lhe transformar em um produto rentável aos anunciantes, os transformando não em empresas de tecnologia e sim de propaganda, será que a abordagem da Apple, tida como ponto dissonante no mercado, de vender a privacidade como um produto “premium” de acesso a poucos, é melhor?

Não vejo diferença.

Explico: Quando o grupo FAG transforma os nossos hábitos sociais em produto estamos diante da mercantilização da nossa personalidade. Somos transformados, em última análise, em um produto para as empresas repassarem aos seus anunciantes (somos perfilados, categorizados e transformados em uma métrica demográfica que servirá de base para venda de anúncios, indicações de compras, indicações de interação social e indicação política); nos transformamos em uma caixinha na prateleira em troca de redes sociais, buscadores, email e frete grátis usando o Prime. Pelo outro lado, quando a Apple, notória pelo preço alto de seus produtos, vai na contramão do mercado inteiro e transformar a privacidade dos seus aparelhos em carro-chefe de vendas, ela indica de maneira certeira que a privacidade (e nosso direito de sermos quem somos em interferência do capital) é algo que está destinado aos poucos usuários dos seus produtos (que em troca de privacidade aceitam um “muro” ao redor da plataforma e a completa incapacidade de saber o que está acontecendo internamente nos sistemas operacionais usados pela empresa) que podem pagar mais de 7 mil reais por um telefone.

Alguns dirão que existe sempre a possibilidade de escolher não estar associado à nenhuma rede social e não ter telefone. Será? Existe mesmo a possibilidade de uma pessoa, vivendo sob um mundo capitalista, não se comunicar com a plataforma de mensagens mais usada do país? Não se conectar com as empresas que recrutam pessoas nas redes sociais? É possível viver uma vida de comunicação ludista no capitalismo desenfreado que a revolução da internet nos jogou? Duvido muito. E mais, olhando em perspectiva, ambos os modelos nos colocam como produtos; na abordagem do FAG somos nós mesmos o produtos, na abordagem da Apple, a nossa individualização é o produto. Existe diferença real? Somos produtos, de qualquer forma, só que produtos diferentes.

No capitalismo atual perdemos o nosso maior direito: sermos nós mesmos. A individualização, tão defendida por liberais, não passa de um embuste para vender mais e lucrar mais ainda com a nossa vida, por mais pacata que seja. Somos individuais até o limite permitido pelas convenções capitalistas de produção e consumo. Somos pessoas completas desde que nos moldemos de acordo com o que deseja o mercado, seja ela qual for. Temos o direito a comprar a nossa privacidade, desde que estejamos dispostos a pagar caro por isso.

Talvez na Apple sejamos uma IPA artesanal enquanto pro FAG somos uma Skol latão, mas no final do dia, somos produtos, afinal, e isso nada mudará.