Hoje tomei conhecimento de um movimento que existe já a algum tempo: o futurismo indígena. Inspirado pelo movimento Afrofuturista ele visa resgatar valores e conexões com a terra e o local dos povos originários — conexões perdidas com a colonização imperialista europeia — através de obras que dialogam com novas tecnologias, tais como jogos (ponto central do artigo traduzido abaixo), mas não se limitando a tal.

Esse artigo trata do cenário estadunidense e das tribos daquela região, mas o movimento existe e é bem forte no Brasil também. Quem puder deve ler o artigo indicado sobre o movimento brasileiro: Futurismo Indígena


O futurismo indígena nos jogos

Escrito por Elizabeth LaPensée

Definição de futurismos indígenas

O termo “Futurismo Indígena” relaciona percepções que alteram a perspectiva de formas indígenas de conhecimento. Cunhado pela estudiosa Anishinaabe Grace L. Dillon em 2003 para articular como a expressão indígena transmite os ensinamentos científicos indígenas, o Futurismo Indígena refere-se a honrar o passado e viver plenamente no presente para representar o futuro para as próximas gerações (2012). É importante ressaltar que o uso da palavra é baseado no termo Afrofuturismo. Enquanto os Futurismos Indigenas se concentram em perspectivas indígenas de futurismos, este crescente corpo de trabalho reconhece exclusivamente comunidades diaspóricas, bem como interseccionalidades com aqueles que também experimentaram a colonização. Assim, embora não pretendendo ser uma limitação, mas sim um ideal, o Futurismo Indígena entrelaça histórias, ciência, intenções e expressões para o bem-estar global.

Embora muitas vezes confundidos como sendo limitado à ficção científica, o Futurismo Indígena pode assumir muitas formas em áreas de foco, bem como tipos de expressão. Para os povos indígenas que vivem em um local urbano, essa expressão pode significar aprender sobre aquele lugar como ele era antes da colonização, a fim de restaurar plantas, águas e terras no presente com esperança de continuidade nas gerações futuras (Bang et al. 2014). No que diz respeito a questões urgentes como as mudanças climáticas, pode referir-se a contextualização do estado atual em relação ao passado, presente e futuro para gerar soluções (Whyte 2017). Para cientistas, escritores e artistas, pode ser um espaço para expressar ideias científicas culturalmente enraizadas por meio, por exemplo, de quadrinhos (Roanhorse et al. 2017). Nos jogos, imaginações como distopias, utopias, viagens no espaço-tempo, robôs e entrelaçamentos planetários são representados não apenas pela estética, mas também pelo design e pela mecânica (LaPensée 2018).

Independentemente da forma que o Futurismo Indígena assuma, as obras mais verdadeiras para as maneiras indígenas de saber refletem o espaço-tempo como simultaneamente passado, presente e futuro (Little Bear 2000) com o entendimento de que já estamos vivendo no pós-apocalipse. E agora?

Jogos e o Futurismo Indígena

O que se segue é uma transcrição de “Futurismo Indígena como Design de Jogo” (2018):

Aanii. Meu nome é Elizabeth LaPensée. Eu sou Anishinaabe com minha família em Bay Mills, Métis batizada em homenagem a Elizabeth Morris; e irlandesa. Sou designer, artista e escritora (roteirista) de jogos, quadrinhos e animações. Nos jogos, espero transmitir as formas indígenas de saber por meio da estética e também da própria mecânica.

Fui criada com a compreensão de que já vivemos no pós-apocalipse. E que este está em pleno andamento, ainda. O termo e a forma que chamamos de Futurismo indígena, cunhado por Grace L. Dillon, é um caminho para expressar esse continuum. Ele relaciona como olhamos para o passado e o conhecimento daqueles que vieram antes de nós para informar o futuro e agir no momento presente com a esperança de trazer esse futuro para as próximas gerações.

É apropriado expressar as formas indígenas de saber por meio de jogos. O artista Cree de novas mídias, Archer Pechawis, articula como tradição e tecnologia se fundem e como sempre nos envolvemos com tecnologia. Enquanto a cineasta Cree, Loretta Todd, nos lembra:  Sempre tivemos o ciberespaço. Sempre honramos a interconexão e a relacionalidade.

Alinhado a esta forma de conhecimento e ao meu trabalho como desenvolvedora de jogos, contribuí com o currículo para os workshops de desenvolvimento de jogos, Skins, coordenados pela Aboriginal Territories in Cyberspace e pela Initiative for Indígenous Futures.

Em meu trabalho, eu integro saberes científicos indígenas e experiências intergeracionais em uma expressão artística que ecoa através de jogos. Espero expressar ensinamentos por meio da interação e da brincadeira. O jogo Invaders, que projetei e programei, é uma peça do clássico jogo de arcade Space Invaders . Isso levanta a questão: Quem são os alienígenas, realmente? Ele chama a atenção sobre como valorizamos vidas em jogos, adaptando a arte de Steven Paul Judd que modifica uma foto real de guerreiros nativos em suas vidas. o ser atingido, você perde permanentemente um membro de sua comunidade. (pausa) Como é de se esperar em um jogo de pontuação, você sempre perde, servindo de metáfora para o processo de colonização que foi na verdade um ato de genocídio.

Em contraste, no side-scroller 2D, Thunderbird Strike, temos um jogo de pontuação em que você sempre ganha. Você joga como um pássaro-trovão atingindo com raios edificações de empresas de mineração e aqueles grandes caminhões de mineração e/ou nos ossos de animais, incluindo lobos, caribus e búfalos para reanimá-los. Você recebe pontos igualmente para restauração ou destruição e, por fim, enfrenta a Linha 5 na forma de uma cobra de um oleoduto que acabará por se autodestruir.

Os jogos também podem reificar os ensinamentos científicos. O jogo Coyote Quest de Loretta Todd, para o qual contribuí com o design narrativo, é um jogo de aventura point-and-click que é baseado no programa Coyote’s Crazy Smart Science Show na Aboriginal Peoples Television Network. Ele se engaja na ciência indígena por meio de lentes de um trapaceiro. Você é chamado para ajudar nas tarefas em uma vila futurística, incluindo o manejo de uma horta medicinal. Você tem que resolver truques como as montanhas virando e as estações mudando e obter insights sobre como o Coyote se relaciona com a física quântica.

O futurismo abrange revisitar o passado também. O jogo When Rivers Were Trails é um jogo educacional de aventura em 2D desenvolvido em colaboração com a Indian Land Tenure Foundation e o Games for Entertainment and Learning Lab da Michigan State University. Você é um Anishinaabeg na década de 1890 que foi deslocado de Fond du Lac, em Minnesota, e viaja para a Califórnia devido ao impacto dos atos de atribuição nas comunidades indígenas. O jogo apresenta mais de 24 escritores indígenas que compartilham suas histórias por meio da narrativa combinada com a arte de Weshoyot Alvitre e a música de Supaman. Você deve equilibrar seu bem-estar fazendo uso de alimentos e remédios que você obtém através do comércio, caça e pesca para fazer a viagem a pé, de trem ou de canoa ao longo dos canais.

Os jogos também podem trazer à forma física essas interações com os cursos d’água. O jogo Honor Water é um jogo de canto desenvolvido com os anciãos Anishinaabe, incluindo Sharon Day e os Oshkii Giizhik Singers, para transmitir ensinamentos sobre a água em Anishinaabemowin. Brincar é uma maneira segura de se engajar na linguagem e abre caminhos para aprender e falar além do jogo, com esperança de curar as águas.

Os ensinamentos sobre as interações das águas, som e luz também podem informar o design do jogo, como no jogo de realidade virtual  Along the River of Spacetime , que convida o jogador a padronizar constelações Anishinaabe para desbloquear e restaurar plantas medicinais tradicionais que estão crescendo dentro e ao longo os rios Nkwejong, que significa Onde os Rios se encontram ou, mais precisamente, referindo-se ao movimento que as águas fazem quando um corpo de água flui para outro.

As próximas gerações estão levando esse trabalho mais longe. O jogo PURITY & decay, de Meagan Byrne, é um cyberpunk noir prototipado como um romance visual que leva à outra iteração (Hill Agency).

De protótipos de papel a aplicativos móveis e realidade virtual, os Futuros Indígenas podem ser expressos em uma miríade de formas e informar os jogos desde o design até a mecânica, de forma que representemos os diferentes saberes por meio do jogo.

Referências

Bang, M., L. Curley, A. Kessel, A. Marin, E. S. Suzukovich III & G. Strack. (2014). Muskrat Theories, Tobacco in the Streets, and Living Chicago as Indigenous Land.  Environmental Education Research. DOI: 10.1080/13504622.2013.865113.

Bear, L. L. (2000). Jagged Worldviews Colliding. In M. Battiste (Ed.), Reclaiming Indigenous Voice and Vision (pp. 77–85). Vancouver, BC: UBC Press.

Dillon, G. L. (2012). Walking the Clouds: An Anthology of Indigenous Science Fiction. Tucson, AZ: University of Arizona Press.

LaPensée, E. (2014) Indigenously-Determined Games of the Future. kimiwan zine, Issue 8: Indigenous Futurisms.

LaPensée, E. (2017). Transformations and Remembrances in the Digital Game We Sing for Healing. Transmotion,  3(1): 89–108.

LaPensée, E. (2018). Indigenous Futurisms as Game Design. Workshop on Integrated Design in Games, Beacom Institute of Technology, Dakota State University, Madison, South Dakota, United States. November 8, 2018.

LaPensée, E. (2018). : Survivance in/of an Indigenous Video GameThunderbird Strike.  Video Game Art Reader, 2(1): 28–37.

Roanhorse, R., E. LaPensée J.Jae, & D. Little Badger.  Decolonizing Science Fiction and Imagining Futures: An Indigenous Futurisms Roundtable. Strange Horizons (Jan. 2017).

Todd, L. (1996). Aboriginal Narratives in Cyberspace. In M. A. Moser, D. MacLeod, Banff Centre for the Arts (Eds.), Immersed in technology : Art and virtual environments (pp. 179–194). Cambridge, MA: MIT Press.

Whyte, K. (2017). Indigenous Climate Change Studies: Indigenizing Futures, Decolonizing the Anthropocene. English Language Notes, 55(1–2): 153–162.