Ainda que para nós, meros mortais da América do Sul, a eleição dos EUA possa significar num primeiro momento apenas um enfraquecimento das hostes  bolsonaristas e, por consequência, um enfraquecimento do próprio projeto de poder liberal-fascista (que, dentre outras coisas nos brindou com o teto de gastos e a reforma previdenciária), a verdade é que podemos ver em primeira mão o arremedo de uma frente ampla de centro-direita se formando na esteira da eleição democrata.

Se por lá a chapa Biden-Harris precisou gastar muito sapato e muita saliva pra ganhar os votos dos pretos — principalmente do movimento BLM — por aqui o que vemos é uma conjunção de velhos atores políticos se unindo com novos empresários, todos em busca de um consenso de desmonte do Estado brasileiro em prol da agenda FIESP.

Huck (eleitor de Bolsonaro e Aécio Neves) se unindo a Moro (ministro de Bolsonaro e responsável direto pelo golpe de 2016 e pela obliteração de boa parte dos freios e contrapesos das nossas instituições) significa a vitória do modelo liberal neo-escravista de produção e política. Se nos EUA foi preciso uma união com sindicatos e um aceno muito grande para o esboço de um sistema de saúde, aqui ocorre o oposto, a coalização de centro-direita  morista pretende se distanciar e enfraquecer sindicatos e acabar com o SUS, fazendo com a saúde seja uma artigo de luxo, acessível para poucos.

Esse movimento já tinha se desenhado toscamente nas eleições de 2018, contudo o apoio massivo dos setores empresariais ao Bolsonaro freou as pretensões do garoto-platinado em se lançar ao planalto. Agora, com o derretimento deste, o caminho fica livre pra direita educada obliterar o país.

Ou, como (muito) melhor pontua o professor Silvio Almeida na FSP de hoje (grifos meus):

Ainda que interromper a marcha de um governo com pendores fascistas e incompetente tornou-se prioridade para boa parte das oposições nos EUA, a verdade é que Biden e Harris tiveram que negociar para conseguir apoio. Mais do que a importante conquista de uma vice-presidente mulher e negra, a chapa Biden-Harris encampou em suas propostas a  reforma das polícias e a  ampliação do sistema de saúde, questões essenciais para a comunidade afro-americana.E tiveram que se sentar com organizações de trabalhadores e sindicatos, com propostas para a criação de empregos.A questão é que nenhum dos arremedos brasileiros de Joe Biden demonstra compromisso ou mesmo disposição para resolver os graves e históricos problemas estruturais do Brasil. E muito menos para negociar com trabalhadores e movimentos sociais um projeto para o Brasil. A aparência de moderação que aqui se apresenta é uma armadilha para dar aparência civilizada e democrática ao radical desmonte do Estado brasileiro e à destruição da rede de proteção social tocadas pelo governo que ocupa o Palácio do Planalto.

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