wp:paragraphHoje o professor de ciências naturais em Yale, Nicholas A. Christakis fez uma thread de mais 20 tweets explicando como a pandemia da COVID-19 poderia ter sido muito pior (bastaria ter tido uma mortalidade perto do que tivemos com a epidemia de SARS ou MERS) e como a resposta dos nossos governos e, principalmente, dos nosso colegas cidadãos do mundo foi, em uma única palavra, terrível.

Recheado de fontes, traduzo abaixo a thread pra poder compartilhar naquele grupo de família maroto.


Recentemente, cheguei a pensar que estávamos bastante sortudos com a epidemia de COVID-19 — porque, embora seja bastante transmissível, poderia de fato ter sido muito mais mortal. Não há razão para que não pudesse ter sido mais …  Medieval.

Imagine se a COVID-19 tivesse sido mais mortífera. Vamos falar sobre isso.

Dez meses após a pandemia, nós sabemos que a COVID-19 tem um R0 de cerca de 2,5–3,0. Isso é bastante infeccioso. É cerca de duas vezes mais transmissível que a gripe sazonal, mas muito menos que a varíola ou o sarampo.

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Também sabemos, agora, um pouco sobre o quanto a COVID-19 é mortal. A taxa de mortalidade por infecção (IFR — fração de pessoas infectadas que morrem) é de 0,5–0,8%; e a taxa de fatalidade de casos (CFR — fração de pessoas que chegam ao atendimento médico que morrem) é cerca do dobro disso.

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É claro que a letalidade da SARS-CoV-2 depende muito da idade do paciente e do sexo (é 50% mais letal nos homens) e de outros fatores (como fatores socioeconômicos).

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Estas quantidades de R0 e IFR tornam a COVID-19 quase tão ruim quanto a pandemia de gripe de 1918, que foi a pior pandemia respiratória do século passado. Esta combinação de transmissibilidade e letalidade (intrínseca ao vírus) significa que ela pode matar muitos milhões de pessoas ao longo do tempo.

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Muitas das figuras e ideias desta explicação foram retiradas de meu livro, que sai em dois dias pela  @lbsparkbooks: APOLLO’S ARROW. Desde 25 de outubro de 2020, a COVID19 já registrou ~230.000 mortes [conhecidas] nos EUA, mas na verdade o total real é ~25% maior usando o “método de excesso de mortalidade” (inventado por William Farr no século XIX e discutido agora no meu livro); portanto, é seguro afirmar que temos ~300.000 mortos nos EUA até agora.

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Até hoje (25 de outubro de 2020)0, a COVID-19 matou mais de 1,1 milhão de pessoas no mundo (que nós conhecemos). A pandemia vai se agravar por pelo menos mais um ano (e o vírus SARS-CoV-2 vai circular para sempre em nossa espécie). As mortes nos EUA provavelmente ultrapassarão o número absurdo de 500.000 ao final de seu curso pela sociedade americana (mesmo com uma vacina). Outros especialistas (provisoriamente, saliento) contemplam números tão altos quanto 1.000.000 ou 625.000. Não creio que estas altas contagens de mortes sejam inconcebíveis, infelizmente, especialmente dada a nossa má administração da pandemia.

As mortes no mundo inteiro podem ser bem maiores do que as estimadas 5.000.000 durante um período de 2–3 anos. Sem falar que muitos milhões a mais deverão ser empurrados para uma pobreza abjeta.

Mas imagine se a COVID-19 tivesse sido ainda mais mortal!

Poderia ter sido. Não há nenhuma razão dada por Deus para que não fosse. E não há nenhuma razão para que a próxima pandemia respiratória mundial (que se repete a cada década ou duas) não seja pior, e isso pode acontecer a qualquer momento.

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Muitos vírus têm fatores de CFR muito mais elevados do que o SARS-CoV-2 (assim como outros patógenos).

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É realmente assustador imaginar como teria sido se a SARS-CoV-2 tivesse sido mais mortal. As outras epidemias recentes com novos coronavírus (SARS em 2003, MERS em 2012) foram de fato mais mortíferas; mas elas tiveram uma propagação muito mais limitada por várias razões epidemiológicas. O coronavírus SARS-1 foi 10 vezes mais mortal na no seu fator de CFR (embora a história seja mais complexa do que podemos abordar aqui). E a MERS foi 30 vezes mais mortífera.

De fato, em alguns aspectos, a relativa “fraqueza” da COVID-19 tornou-a mais difícil de ser abordada. Muitas pessoas não a levam a sério o suficiente. Contudo, se a letalidade tivesse sido maior e mais consistente (como a cólera, a varíola ou a peste bubônica) certamente estaríamos levando isso mais a sério. De fato, se a doença tivesse simplesmente a letalidade de 35% da MERS e a transmissibilidade e taxa de ataque do SARS-CoV-2, estaríamos enfrentando uma situação mundial quase tão ruim quanto a peste bubônica do período medieval.

E é sempre tentador para os líderes políticos e cidadãos negarem tais fatos. Aliás, esse momento de pandemia tem sido exemplar em ao mostrar como a negação é uma característica tão constante das epidemias dos últimos milhares de anos, que poderíamos até pensar na negação como um aspecto essencial de uma epidemia.

Portanto, devemos nos considerar sortudos, de fato, já que a COVID-19 não é muito, muito pior.  Mas poderia ter sido.

A história, o presente e o fim último da pandemia da COVID-19 estão descritos em meu livro, APOLLO’S ARROW: THE PROFOUND AND ENDURING IMPACT OF CORONAVIRUS ON THE WAY WE LIVE, publicado pela @littlebrown em 27 de outubro de 2020.