Segundo os autores, o neoliberalismo não seria uma doutrina econômica, e sim um instrumento de desativação do jogo democrático. Já dizia Margaret Thatcher: “A economia é o método. O objetivo é mudar a alma”.

A teoria econômica vem se mostrando bem-sucedida em evitar as consequências de uma radicalização da democracia pela conquista de direitos e cidadania.  A solução, sob o véu da técnica, é criar outra forma de sujeição. A liberdade menor é travestida de liberdade maior. Vende-se a ideia de que a falta de liberdade deriva da submissão a um sujeito para o qual a sociedade não deve nada: o Estado. O neoliberalismo é uma doutrina que promete a liberdade de escolha, mas é vendida sempre sob o slogan da falta de alternativas.

E aquele Estado, potencial garantidor das demandas dessa mesma sociedade por mais proteção social, melhores serviços e maior igualdade de tratamento, torna-se um inimigo. N ão só no discurso, mas também na prática, pois a tal doutrina econômica encarrega-se de mantê-lo sob o controle das oligarquias. Friedrich Hayek, em sua visita ao Chile de Pinochet, não hesitou em deixar clara a sua preferência por “uma ditadura liberal, em vez de um governo democrático desprovido de liberalismo”. Hayek, aliás, esteve presente — com Ludwig von Mises — na reunião de 1938 em Paris em que se cunhou o termo “neoliberalismo”, em uma reação ao que ambos enxergavam como uma ameaça quase tão perigosa quanto o nazismo e o comunismo: o surgimento da socialdemocracia, aquela do  New Deal de Roosevelt e do Estado de bem-estar social britânico.

Mas foi nas crises que a agenda ganhou mais terreno. Afinal, seus teóricos costumam aproveitar-se da distração da população para impor políticas impopulares, como documentou Naomi Klein em seu livro A doutrina do choque. Tendo aprendido bem com o golpe chileno, Milton Friedman chega a descrever o furacão Katrina como uma  “oportunidade para reformar radicalmente o sistema educacional de Nova Orleans”. A maior parte do sistema de ensino público da cidade foi privatizada em dezenove meses.

A crise econômica brasileira também se mostrou uma oportunidade de ouro para bloquear agendas democráticas crescentes — das mulheres, dos movimentos sociais, das minorias e da juventude — e viabilizar uma agenda ideológica de redução do tamanho do Estado.


Trecho do livro “Valsa Brasileira” [p. 123–125] da economista Laura Carvalho que trata dos pormenores do neoliberalismo e da doutrina do choque como elemento de enfraquecimento das democracias (brasileira e mundial). Grifos meus.