PMPA

Por mais que eu seja de esquerda e anseie pela revolução comunista, tal qual o PCO, não tenho como deixar de entender os resultados de Porto Alegre como um grande tapa na cara da esquerda brasileira e, principalmente, universitária.

Claro, eleger o Melo se mostrará ao longo dos próximos 4 anos um grande erro - tal qual com o Marchezan - e o povo de Porto Alegre passará à nova solução mágica anticomunista em 2026; mas isso não exime a culpa da esquerda de não entender o povo que ela pretende cooptar para as eleições (se serve de alento, parece que o PSOL com Boulos e Erundina entendeu como fazer campanha na internet).

Melo é cria da CEASA de Porto Alegre (apesar de goiano) e conhece aquele rincão de terra entre o aeroporto e a banca Anchieta (onde eu trabalhei durante o longo ano de 2002) como poucas pessoas no pleito. Consegue conversar com aquelas pessoas que carregam sacos fétidos de cebola nas costas até a linha 702 e de lá pras periferias da cidade. Melo também é figura conhecida na zona norte da cidade - carinhosamente, ZN - a ponto de eu tê-lo visto, pelo menos, quatro vezes andando por lá na época que ainda era vice-prefeito do Fortunati.

[Anedota: na Avenida Sarandi, no bairro Sarandi, o arroio Sarandi sempre transbordou em dias de chuva - qualquer chuva - e os moradores da região sempre clamaram pela continuação da obra de canalização do arroio. Certa feita o Melo, em nome da PMPA, foi até a SAVIL (associação do bairro) para falar sobre o assunto. Nas palavras dele “não tem como canalizar um arroio do dia pra noite”. Infelizmente ele presenciou uma chuva que fez o arroio transbordar novamente e, diante da situação, foi alçado pela população à agua, ficando então atolado até os joelhos e estragando o belo par de mocassins que ele usava no dia]

A Manuela, por mais que eu simpatize com ela desde os tempos de vereança e campanha na UFRGS - cheguei a tomar um agradável café no bar do Antônio com ela em 2004 onde presenciei meu colega de matemática tentar uma cantada tosca pra cima dela - nunca teve esse apelo popular e nunca teve esse capacidade de aglutinação que vemos em Melo. Quando eu a via na campanha, com roupas neutras e fala macia, me lembrava apena das patroas do Moinhos falando com as suas empregadas, infelizmente.

Sim, Porto Alegre vai ter mais 4 anos de vácuo no poder. Mais 4 anos de liberalismo tosco e jocoso. Mais 4 anos de investimento zerado e obras pela metade. Mais 4 anos de déficit, arrocho salarial e desonestidae com os servidores público (principalmente professores) e uma economia baseada numa mina de carvão às margens do Rio Guaíba. Mas a culpa não é do povo de Porto Alegre, a culpa é de todos nós, esquerda, que não sabemos como o povo pensa e age.

Passamos 4 anos xingando Porto Alegre e o povo que mora na cidade para depois pedir votos e achar que musiquinha brega vai virar alguma coisa. Manuela foi muito bem com quase 46% ancorados em um plano de governo baseado no mais puro ETER político. Passamos 4 anos falando que Porto Alegre é uma merda, que é suja, que é fascista e isso e aquilo; esse tipo de comentário não adianta nada pro projeto da esquerda.

Aliás, uma cidade suja, violenta e desorganizada sempre foi o normal nas zonas pobres. Quem se admira com isso é quem sempre morou no Moinhos e no Bom Fim.

Não queria dizer isso, mas, falta povo pra vocês que criticam Porto Alegre e o voto no Melo. Eu não votei nele e jamais votaria em qualquer candidato do (P)MDB, mas a verdade é que falta pertencimento nas candidaturas da esquerda.

Lula é o que é exatamente porque ele sabe disso

UPDATE necessário porque a esquerda anda comemorando “a falência” do bolsonarismo e do Bolsonaro, se apoiando no fato de que ele “não elegeu (quase) ninguém”. O problema é que a direita foi avassaladora no país: