“Kill All Normies” é o nome do livro da jornalista Angela Nagle. É um texto que, apesar de ser bastante fácil de ser lido, é dificil de ser digerido por aqueles que nunca tiveram contato com o que se denomina “cultura channer” - dos fóruns de imagens, os chans como o 4chan e o 8chan - e sua terminologia recheada de racismo, misoginia e violência.

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Atualmente vivemos, querendo ou não, sob a égide de um novo “comum” dentro da dinâmica política das Américas, principalmente. A estratégia de notícias falsas, destruição de reputação e capilarização de redes de distribuição de fatos mentirosos que foi orquestrada por Steve Bannon - que até preso já esteve - criou essa relação onde os outrora excluídos socialmente - gamers, incels, ancaps - estão no poder das decisões políticas dos dois maiores países da região - EUA e Brasil. E tudo isso tem uma grande e estreita relação com a comunidade gamer, normalmente constituída por homens brancos, jovens, liberais e “fracassados” (dentro de uma lógica capitalista norte-americana) que os coloca como subproduto de um problema maior (o próprio capitalista) ao mesmo tempo em que lhes vende uma solução mágica pra voltar a vencer - tomar o que é seu por direito e que, nessa cosmovisão foi usurpado por diversas classes sociais, como os imigrantes e o negros.

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É nessa identidade fragmentada e ao mesmo quebrada que a jornalista se embrenha para nos mostrar que a ideia central de toda a articulação da aut-right mundial se centrou nesses excluídos sociais, os usando como “bucha de canhão” para a guerra ideológica que eles travaram com os conglomerados de mídia e com a sociedade “normal” (os normies). Tudo isso se iniciou com o “alistamento” de homens que pensavam assim e que já tinha problemas mentais - como depressão, ansiedade, esquizofrenia - para o exército que iria mudar o rumo das eleições. Esse homem branco não é um WASP clássico, ele não é essencialmente conservador e muito menos um homem apegado às tradições brancas dos EUA. Ele é, outrossim, um supremacista de ocasião que vê no outro - naquele que é diferente - o grande problema da nação dele (e isso envolve a corrupção de mulheres e crianças, o desemprego, a desigualdade e a falta de oportunidades em si) e que deve, por isso, ser eliminado desse convívio social.

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E é assim que se dá esse processo de ativação: o alvo em questão é localizado em alguma comunidade gamer, alistado pra causa através de uma promessa de respostas e, enfim, colocado na ação (esse “call to action” nada mais é do que uma pesada militância na internet ao lado dos “robôs” das redes sociais que geram engajamento falso e fazem sites do Breitbart serem os mais acessados do Facebook, gamificando o algoritmo da timeline dessas redes em prol dessas notícias e sites). Os normies que lutem depois para checar fatos, desmentir atrocidades e refazer a sua própria imagem.

O modo de operação é bastante simples em termos de estratégia e, por isso mesmo, facilmente replicável em qualquer lugar do mundo (inclusive colocando o tempero local nesses clones) com o mesmo demográfico. No Brasil, por exemplo, o elemento local foi a comunidade evangélica (que não é tão forte nos EUA) e o liberalismo econômico como saída para os problemas do capitalismo periférico brasileiro. Ou seja, uma resposta simples para uma questão complexa que gera engajamento e pertencimento.

É nesse sentido que o livro explica a dinâmica rápida, caótica e eficaz dos channers em distribuir fatos falsos, organizar ataques de negação de serviço (DoS e DDoS), tirar do ar sites de oposição, destruir opositores com acusações sexuais (normalmente pedofilia) e colocar no centro da discussão temas irrelevantes pra política local - diversionismo ou “firehosing” - para abrir caminho para as verdadeiras ações do grupo que integram, entre outras coisas, aparelhamento de serviços públicos, recrudescimento legal, monitoramento de detratores/opositores em redes sociais, propaganda direcionada em redes sociais e uma narrativa que se baseia na antítese com a imprensa tradicional e se comunica diretamente com o eleitor/soldado. É bastante fácil identificar diversos desses estratagemas no atual governo brasileiro.

Combater essa bem sedimentada rede de pessoas e organizações não será fácil para aqueles que buscam uma normalidade e estabilidade mínima, mas o recado dado é que é possível, contudo, o cuidado vai ser redobrado quando Donald Trump sair da Casa Branca - vide QAnon e Proud Boys - uma vez que é bem possível que as estratégias sejam mais agressivas e que os ataques à sociedade sejam mais violentos.

Sobre o livro, vale a leitura para quem quer entender esse mundo.

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Kill All Normies: Online Culture Wars From 4Chan And Tumblr To Trump And The Alt-Right Angela Nagle - Zero Books - 136p.