O plano de vacinação para a covid no Brasil está mergulhado no caos

Lutas internas políticas, planejamento aleatório e um crescente movimento antivacinas transformaram o país em um exemplo de como não se portar na era do coronavírus.

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Por Ernesto Londoño , Manuela Andreoni e Letícia Casado

RIO DE JANEIRO - À medida que os países apressavam seus preparativos para inocular cidadãos contra o coronavírus, o Brasil, com seu programa de imunização mundialmente conhecido e uma robusta capacidade de fabricação de medicamentos, deveria ter levado uma vantagem significativa.

Mas lutas políticas internas, planejamento aleatório e um nascente movimento antivacinas deixaram o país, que sofreu com a segunda maior taxa de mortalidade da pandemia, sem um programa de vacinação claro. Seus cidadãos agora não têm noção de quando podem obter alívio de um vírus que colocou o sistema de saúde pública de joelhos e esmagou a economia.

“Eles estão brincando com vidas”, disse Denise Garrett, epidemiologista brasileira-americana do Sabin Vaccine Institute, que trabalha para ampliar o acesso às vacinas. “É quase um crime.”

Os especialistas tinham esperança de que as proezas da imunização do Brasil lhe permitissem lidar com o fim da pandemia melhor do que com o início.

Logo depois que a Covid-19 foi identificada pela primeira vez no país, ainda em fevereiro, o Brasil se tornou um epicentro da crise global de saúde. O presidente Jair Bolsonaro rejeitou as evidências científicas, chamou o vírus de “gripezinha” e afirmou que o vírus não justificava o fechamento da maior economia da região e repreendeu os governadores que impuseram medidas de quarentena e fechamento de empresas.

À medida que os esforços de vacinação estão em andamento na Grã - Bretanha e nos Estados Unidos, dando às suas populações uma chance de começar a imaginar uma vida pós-pandemia, o momento encontrou as autoridades brasileiras mais uma vez despreparadas e atoladas em disputas ruidosas sobre a política de vacinas.

Dias depois do anúncio, o ministério da saúde ainda estava lutando para fazer pedidos a fornecedores de vacinas sobrecarregados. Funcionários do ministério também enfrentaram dúvidas sobre por que o país não tinha seringas e frascos suficientes para embarcar na ambiciosa campanha de vacinação, necessária para cobrir um país com 210 milhões de habitantes, onde mais de 180.000 sucumbiram ao vírus.

Além disso, a Anvisa, agência reguladora de saúde do Brasil, ainda não aprovou nenhuma vacina contra o coronavírus para uso geral.

“As pessoas vão começar a entrar em pânico se o Brasil continuar atrasado e sem ter um plano; uma estratégia clara e objetiva”, disse Rodrigo Maia, presidente da Câmara, em 7 de dezembro, alertando que o Congresso tomará as rédeas do processo se o ramo executivo continuou a tatear.

Bolsonaro criticou repetidamente a vacina CoronaVac, que está sendo desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac Biotech, e rejeitou o plano de seu ministério da saúde de comprar 46 milhões de doses.

Em vez disso, o governo confiou na vacina desenvolvida pela AstraZeneca e pela Universidade de Oxford, que está atrasada na corrida para receber a aprovação dos reguladores de saúde.

A cruzada do presidente contra a vacina chinesa criou uma oportunidade política de ouro para um de seus principais rivais políticos, João Doria, o governador do estado de São Paulo. Doria negociou diretamente com os chineses as doses da vacina, que está sendo desenvolvida em parceria com o centro de pesquisas do Butantan, de São Paulo.

Doria disse que as autoridades estaduais não podiam esperar que o governo federal, que passou por três ministros da saúde ao longo da pandemia, agisse em conjunto.

“Não podemos esperar até março para começar a usar uma vacina que pode ser usada em janeiro”, disse ele em uma entrevista. “Há um consenso no estado de São Paulo e em outros estados de que a espera representa um grande risco para a população, afetando as taxas de mortalidade e o sistema público de saúde.”

Doria prometeu a seus eleitores na semana passada que São Paulo pretende começar a vacinar as pessoas no final de janeiro - uma promessa que depende da aprovação dos reguladores federais, que ainda não receberam os resultados finais dos estudos de eficácia e segurança da vacina.

O gabinete do presidente condenou o plano de Doria de começar a vacinar as pessoas em janeiro, chamando-o de “populismo barato e irresponsável”.

A briga cada vez mais acirrada entre Doria, que deve concorrer à presidência em 2022, e o governo federal politizou perigosamente os planos de vacinação no Brasil.

Carla Domingues, epidemiologista que dirigia o programa de imunização do Brasil até o ano passado, lamentou que a vacina contra o coronavírus tenha se tornado uma questão partidária.

“Isso nunca aconteceu nos esforços de imunização”, disse ela. “Isso vai deixar as pessoas confusas. É surreal. ”

Como o número de casos disparou novamente este mês, deixando hospitais em várias cidades com poucos leitos para pacientes gravemente enfermos, a pressão das autoridades regionais, cada vez mais preocupadas, aumentou sobre o governo federal.

Vários governadores convergiram na capital, Brasília, na semana passada para se reunir com o ministro da Saúde e exigir um plano nacional de imunização. Um grupo que representa os governos municipais, a Federação Nacional de Municípios, também emitiu um comunicado pedindo ao governo federal que compre e distribua “todas as vacinas reconhecidas como eficazes e seguras contra Covid-19”.

Alguns governadores, inclusive no estado do Paraná e no nordeste da Bahia, começaram a tentar obter e, por fim, produzir doses da vacina Sputnik V de fabricação russa.

Carlos Lula, presidente do conselho nacional de secretários de saúde, disse que a enxurrada de diplomacia e negociação de vacinas em nível estadual foi surpreendente em um país que passou décadas construindo um dos programas de imunização mais respeitados do mundo em desenvolvimento.

“É um orgulho para o país porque se tornou um modelo para outras nações”, disse ele. “Ainda assim, de repente, não podemos lidar com as tarefas que são o mínimo.”

Mesmo quando os desafios de abastecimento e logística forem superados, especialistas em saúde dizem que o Brasil enfrentará um novo problema: um crescente movimento antivacinação que, segundo eles, o presidente e seus aliados alimentaram com falsidades.

Roberto Jefferson, um ex-deputado que apóia o presidente, afirmou no início deste mês em uma mensagem no Twitter que “os globalistas estavam preparando uma vacina para mudar nosso DNA”.

A mensagem, que foi retuitada mais de 3.000 vezes, afirmava que Bill Gates, o bilionário e filantropo americano, estava por trás de um esquema “genocida” para “matar milhões de pessoas e substituir nosso DNA pela marca da besta”, uma referência ao o diabo.

O crescente movimento antivacinas levou alguns governadores, incluindo Doria, a defender a obrigatoriedade de certas vacinações.

Bia Kicis, legisladora que é uma das principais representantes de Bolsonaro, argumentou que as vacinações contra o coronavírus não deveriam ser obrigatórias porque são “experimentais” e podem alterar o DNA das pessoas. Especialistas em vacinas dizem que essas afirmações não tem base.

Bolsonaro disse que as vacinas deveriam ser obrigatórias apenas para cães.

Embora as vacinas nunca tenham sido obrigatórias para adultos no Brasil, sua eficácia e segurança nunca foram amplamente questionadas.

Uma pesquisa divulgada no fim de semana pelo Datafolha, uma conceituada empresa de opinião pública brasileira, descobriu que 22% dos entrevistados disseram não ter a intenção de receber a vacina contra o coronavírus, contra 9% em agosto.

A questão está agora no Supremo Tribunal Federal, que neste mês está ouvindo dois casos que poderiam dar às autoridades de saúde autoridade para tornar certas vacinas obrigatórias.

A Dra. Garrett, do Instituto Sabin, estudou a ascensão do movimento antivacinação nos Estados Unidos, onde trabalhou por duas décadas nos Centros de Controle de Doenças. Ela disse que há muito temia que o movimento encontrasse um ponto de apoio no Brasil, mas ficou consternada com a velocidade e intensidade de sua ascensão na era Bolsonaro.

“Isso encorajou os antivaxxers no Brasil a se apresentarem antes do que deveriam”, disse ela. “Eles têm poder e têm uma voz alta.”


Ernesto Londoño e Manuela Andreoni relataram do Rio de Janeiro, e Letícia Casado de Brasília.