Krugman lembra que a doutrina de que cortar gastos públicos poderia ser expansionista, por resgatar a confiança dos agentes privados e, assim, os investimentos, era sustentada por pesquisas que quantificavam estatisticamente reduções no déficit fiscal não oriundas de variações no ciclo econômico e encontravam impacto positivo sobre o crescimento. No entanto, o método utilizado não identificava episódios muito conhecidos de ajuste fiscal nos países, além de outras falhas. Um estudo econométrico de grande porte realizado por pesquisadores do FMI em 2011 identificou tais episódios e chegou à conclusão nada surpreendente de que contrações fiscais são, pasmem, contracionistas.

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Em períodos de recessão, a consolidação fiscal teria, portanto, efeitos muito piores sobre o produto do que o previsto nos modelos. Uma versão mais elaborada do gráfico apareceu no World Economic Outlook de outubro de 2012, sinalizando de uma vez por todas a mudança na visão do Fundo.

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Um artigo de três dos principais economistas do FMI publicado em 2016 e intitulado “Neoliberalism: Oversold?” também teve grande repercussão. A começar pelo título: a palavra “neoliberalismo” até então era considerada um palavrão típico de maluco de palestra, desses que não devem entender nada de economia e de capitalismo. Na contramão, os autores defendiam que, ao invés de estimular o crescimento, algumas políticas neoliberais teriam elevado a desigualdade, prejudicando uma expansão econômica duradoura. Uma das críticas recaía sobre as políticas voltadas para a redução do tamanho do Estado na economia: o custo da redução da dívida pública, via aumento de impostos ou cortes de gastos produtivos, poderia ser maior do que o benefício.

Diante de uma escolha entre viver com uma dívida mais alta — permitindo que a razão dívida- PIB caia organicamente pela via do crescimento — ou promover deliberadamente superávits fiscais para reduzir a dívida, governos com espaço fiscal amplo se dão melhor ao conviver com a dívida.

O argumento é reforçado pela referência a um estudo que indica que uma consolidação fiscal de 1% do PIB aumenta a taxa de desemprego em 0,6 ponto percentual no longo prazo, e o índice de Gini, que mede a desigualdade, em 1,5% em cinco anos.

Estratégias de consolidação fiscal — quando necessárias — podem ser desenhadas para minimizar o impacto adverso nos grupos de baixa renda. Mas, em alguns casos, as consequências distributivas inconvenientes terão de ser remediadas depois de sua ocorrência, com a utilização de impostos e gastos públicos para redistribuir renda. Gastos com educação, por exemplo, são considerados bem-vindos. Em artigo publicado na revista Jacobin em março de 2017, Josh Mound alertou para o fato de que, historicamente, enquanto os democratas reduzem despesas em favor do equilíbrio fiscal, os republicanos, ao assumirem o poder, aproveitam-se desse equilíbrio para reduzir os impostos pagos pelos mais ricos, deteriorando as contas públicas. Quando questionados por não imporem a si mesmos a disciplina fiscal que exigem dos democratas, os republicanos argumentam que a redução de impostos ajudaria a estimular o crescimento e elevar a arrecadação.

Recorrem assim ao bom e velho “trickle down economics”,segundo o qual os incentivos dados ao andar de cima acabam chegando ao andar de baixo por meio da geração de empregos.

Em suma, enquanto os democratas enganam-se ao considerar que a política fiscal é apenas uma questão de controle dos déficits, os republicanos sabem que ela é sobretudo um instrumento de redistribuição de renda — no caso deles, para o topo da pirâmide.

Valsa Brasileira — Laura Carvalho — p. 131 à 133.