Desde pequeno meu grande sonho era ser cientista, independentemente do que isso significa para uma criança. Com 19 anos entrei na faculdade e, cabeçadas aqui e ali, com 29 eu estava no caminho para realizar o meu sonho de criança e, finalmente, ser cientista. Claro que a pobreza e a falta de acesso a boas escolas cobram seu preço e eu demorei muito mais do que deveria para me adaptar ao mundo acadêmico, mas isso era um problema transponível. O que não foi transponível foi a depressão que demoronou sobre mim, mais um vez, quando eu vi todas as possibilidades de seguir esse sonho esfaceladas pelo novo governo. Votar no Bolsonaro é, acima de tudo, ter a certeza de que milhares de pessoas como eu abdicaram do sonho e da vida.

Um dos fatores que levam a depressão, segundo Maria Rita Kehl e Hartmut Rosa, é a quebra de perspectiva no futuro. E isso é um especialidade do neoliberalismo, ele é um destruidor de futuros, sonhos e caminhos. Para dar meu exemplo: eu, quando entrei na universidade queria seguir a carreira acadêmica. Sabia que seria difícil, pois pobre da periferia, mas fui lá meter minha cara. Porém, logo percebi que esse sonho seria muito, mas muito mais difícil do que as dificuldades de uma pessoa pobre teria, afinal o Brasil radicalizou suas políticas neoliberais, o que atingiu em cheio a educação e a ciência. Além disso, hoje a educação é uma inimiga de estado, ser professor e/ou pesquisador é ser um perigo constante para a família e a ordem brasileira. Assim, entrei num crise depressiva profunda (claro que associada a outros motivos). Vive um intenso luto de ver meu sonho morrer. Mas não era uma questão pessoal, eu sempre estudei muito, mas ainda sim meu esforço era em vão, tanto que o que vemos hoje é um corte em cima de corte na educação e pesquisa, rareamento de concursos na área com concorrências de 40, 50 até 60 para uma vaga de substituto e o quase fim das bolsas de pesquisa para mestrado e doutorado. Imagina passar 10, 12 anos estudando sabendo que não há expectativas de trabalhar no que se gosta, restando empregos precarizados e a uberização. Sim, o neoliberalismo é um destruidor de sonhos, de trajetórias e de caminhos. Nos tira o direito de viver nos levando ao sofrimento intenso e a morte. O neoliberalismo é a radicalização, a última potência da máxima: ou se destrói o capitalismo (usando todos os meios possíveis) ou estaremos condenados ao fim da humanidade.

Fonte da citação: https://twitter.com/HeribaldoMaia/status/1339631142920736770